Filme Tancredo – A Travessia

02/11/2011 por

O mineiro Tancredo Neves é um dos políticos mais importantes da história do Brasil, pois foi a figura central na transição do regime militar para a democracia. Pacífico e articulador, mantinha relacionamento estreito com autoridades políticas de diferentes correntes ideológicas; por estabelecer uma aliança forte com a esquerda e a direita, sagrou-se o primeiro presidente após a redemocratização. Sem ater-se com minúcias aos aspectos humanos e íntimos de Tancredo, o doc Tancredo: A Travessia, de Silvio Tendler, aborda o perfil do político, desde o tempo em que era Ministro da Justiça do Governo Getúlio, até sua morte, antes da posse, em 1985.

Narrado por Christiane Torloni, Beth Goulart e José Wilker (de A Hora e a Vez de Augusto Matraga), o filme de Tendler não apresenta narrativa ousada e preza pela sobriedade, com o uso do off dos narradores durante a exibição de vídeos históricos, e até a colagem de uma interessante reconstituição dos últimos momentos da vida de Getúlio, quando, num jantar, vários militares o pressionavam a renunciar. Apesar de didático, com certo ar de ‘filme de currículo escolar’, o longa não aborrece o espectador, pois os depoimentos são costurados com elegância, com uma montagem que estabelece ritmo adequado.

Personalidades políticas como Fernando Henrique Cardoso, o neto Aécio Neves e o vice José Sarney (que assumiu o Governo após a sua morte) são alguns dos que dão depoimentos a favor de Tancredo Neves na obra. Sim, Tancredo: A Travessia é, de fato, uma obra a favor, que não faz questão de revelar polêmicas e controvérsias sobre o personagem. Há uma aura mítica em torno deste que usa uma frase de Napoleão para definir o sentido de política: “política é destino”. No entanto, a alcunha de ‘chapa-branca’ é simplista, pois a obra é, mais do que nunca, o retrato de um homem que, com seu talento, ajudou a redefinir os rumos da Política Nacional. E, nesse sentido, não se pode questionar: Trancedo foi um nome importante.

Os disparates na Política Nacional de ontem e de hoje são evidentes e a corrupção, infelizmente, é o primeiro atributo associado à classe. Porém, devemos entender que certos homens, por insistirem nas mudanças de um presente sórdido, considerado como “anos de chumbo”, contribuíram para moldar um futuro com perspectivas otimistas. Tancredo foi um deles.

Por: Bruno Mendes

Tancredo, o filme, e a arte de ceder a vez na política

O ex-tudo José Serra (ex-prefeito, ex-secretário, ex-governador, ex-deputado, ex-senador, ex-ministro) estava presente na semana passada à pré-estreia em São Paulo do documentário Tancredo, do cineasta Silvio Tendler.

Sentou-se à esquerda do senador Aécio Neves, o qual por sua vez tinha o governador Geraldo Alckmin à sua direita.

Serra tem destaque entre os que deram depoimento. Seria importante que ele, além de falar no filme, tenha podido ouvir – e refletir.

Se o filme tem um clímax dramático, mais do que a própria morte de Tancredo haveria de ser a surda disputa travada, nos bastidores da oposição ao regime militar, entre o governador de Minas e o Sr. Diretas, Ulysses Guimarães.

Uma elegante esgrima entre cavalheiros. Assim como Tancredo, Ulysses procedia da universidade de sutilezas chamada PSD. Tido como celeiro do conservadorismo, o berço partidário de Ulysses e de Tancredo nunca deixou de ter, quando necessário, a urgência da ruptura. O regime militar que o diga.

Ulysses seria o candidato natural se a emenda das diretas passasse no Parlamento. Não passou. Na eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, cedeu a precedência a Tancredo. Sabia que o mineiro era um político capaz de somar mais do que ele próprio. Noblesse oblige, não é, José Serra?

Os dois, Ulysses e Tancredo, fizeram da política um tributo à inteligência e uma arte de sagacidade. Sabiam dizer verdades duras em amáveis conversas ao pé do ouvido, reservados, discretos, avessos ao exibicionismo gratuito dos holofotes, mas capazes de, ao subir ao palanque da liberdade, incendiar o coração de toda a gente.

Tancredo, o documentário, é uma aula de História, a melhor e mais oportuna que poderia sacudir a atual safra dos desiludidos da política. O retrato de uma geração, nem tão distante assim da nossa, que fez da vida pública, no delicado momento em que a democracia se prenunciava mas a ditadura se aferrava, uma lição de destemor, de dignidade e, no particular caso de Ulysses, de desprendimento.

PS: um detalhe que passa meio despercebido em Tancredo, o filme, é a ausência de qualquer menção ao ex-governador da Bahia e ex-senador Antonio Carlos Magalhães. À época, no esplendor de seu poder autocrático e de sua arrogância insolente, ACM houve por bem pular fora da trincheira da ditadura, renegou a candidatura oficial de Paulo Maluf e foi ajudar a fundar a Frente Liberal, que apoiaria Tancredo no Colégio Eleitoral. Veja concedeu a ele a entrevista das páginas amarelas naquela semana de alta temperatura política. O cara não era pouca coisa, não. Passados 27 anos, percebe-se, pelo silêncio da posteridade, que a figura de ACM se escafedeu na poeira da estrada. Talvez na Bahia alguém ainda se lembre dele.

Sinopse: A trajetória de Tancredo Neves é esmiuçada neste documentário que revisita diversas páginas cruciais da história do Brasil que contaram com a decisiva intervenção do hábil político mineiro. Examina-se suas ligações com Getúlio Vargas, a quem apoiou até o fim; suas gestões para permitir a posse de João Goulart no clima instável após a renúncia de Jânio Quadros; e também seu trânsito junto ao marechal Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro presidente militar. Da mesma forma, traça-se sua importância na tarefa de organizar a oposição ao regime militar, como um dos fundadores do MDB, e, anos depois, como um dos participantes da Campanha das Diretas, ao lado de Ulysses Guimarães.

A morte de Tancredo Neves e o Brasil que não foi

Por Arnaldo Jabor para a Rádio CBN

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