O Inventário da Felicidade

17/01/2012 por

Por Luciana Gonçalves (*)

“Procurar a felicidade a qualquer custo!” – Esse deveria ser o lema de vida de todos nós.

Onde mora a felicidade? Como pode ser buscada? Quais estradas devem ser percorridas para encontrarmos a tão desejada aurora da vida?

Sábios pensadores e filósofos já se debruçaram inúmeras vezes sobre o tema, mas de concreto mesmo, nada resultou. Nenhum mapa, guia ou manual.

Há um ditado antigo que diz que a felicidade está escondida onde mora o nosso coração. Tudo o que mexe com a nossa emoção mais apaixonada tem o endereço certo da nossa felicidade.

Mas há momentos na vida em que as tempestades surgem do nada e tudo parece ficar escuro, assustador e sombrio. E então você usa todas as armas que têm em suas mãos. Dá-lhe fé, orações, desabafos com amigos, coragem, força de vontade e uma boa dose de esperança. Lágrimas, palavras de encorajamento, mágoas afogadas aqui e ali… De várias maneiras até mesmo surpreendentes, lutamos com todas as nossas forças para espantar os pássaros escuros que teimam em querer fazer ninhos em nossas cabeças.

Problemas sempre acontecem. Eles entram e saem de nossas vidas, mas às vezes a visita do mau agouro é um pouco mais demorada e o sofrimento vem para ficar uma temporada. Em tempos como esse só nos resta resignar-nos um pouco, colocando a carroça em movimento na estrada esperando que os melões vão se ajeitando no caminho.

Uma coisa que aprendi e me foi muito útil nos momentos de dificuldade extrema foi fazer um “inventário da felicidade”. Num período difícil da minha existência, quando nenhum meio parecia trazer alívio, eu tive uma idéia, certa noite, ao me deitar. Foi tentando escapar um pouco da dor do sofrimento que eu comecei a fazer a lista mental de todas as coisas boas que eu já havia encontrado pela vida.

Fiz isso inspirada na lembrança de meu pai, que dizia: – Filha, nunca se esqueça quem você é! E naquela hora escura da angústia me lembrei que eu poderia ser muito mais do que um simples ser humano sofredor. Então eu comecei a listar. As primeiras listas saíram pequenas, mas quanto mais o tempo passava, elas foram ficando maiores, maiores e maiores.

A bordo das minhas lembranças, eu tirava os pés da realidade por uns instantes e sobrevoava o passado encantador da minha história. Nessas adoráveis lembranças eu puxava as coisas mais simples, os momentos mais singelos e até mesmo as pequenas bugigangas perdidas nos armários antigos da minha memória.

No inventário da felicidade eu listava: uma receita de brigadeiro no fundo da panela, a chuva romântica tomada numa tarde especial de primavera, a minha primeira Nikon, meus passeios de patins nas ruas de Garça e a primeira vez que eu usei batom. Os natais maravilhosos da minha infância, o colo da minha mãe, as conversas com o meu pai no balanço do quintal, meu primeiro beijo, meu primeiro baile e manhã ensolarada que o meu piano chegou em casa. O nascimento das minhas sobrinhas, minha festa de casamento, o som dos aniversários, o cheiro dos carnavais e a emoção incrível de todas as vezes que eu vi o mar.

E assim, a minha tristeza, envergonhada ia embora. Mesmo diante de muitos problemas teimosos e difíceis, com essa história de fazer um inventário diário da felicidade, eu consegui trazer, aos poucos, a alegria de volta para o meu coração. Ela não chegou assim barulhenta e cheia de malas como chega um ente querido, repleto de novidades para contar. Mas de mansinho, a alegria foi entrando pelas portas do fundo. Primeiro colocando os olhos, depois esticando o focinho para finalmente estender as patinhas sobre o assoalho frio do meu coração.

É essa a moral da história que não termina aqui: “Em épocas de tempestade, dê uma passeadinha no sótão das suas lembranças. Certamente, você vai encontrar um velho espelhinho empoeirado, mas encantado, onde vai olhar e enxergar quem você é de verdade. Nesse instante, olhe bem fundo nos seus próprios olhos e veja: a alegria está lá… onde sempre esteve”.

Luciana Gonçalves, a autora, é profissional de telecomunicações, escritora e assessora de comunicação.

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1 Comentário

  1. Luiz Fernando da Silva

    Luciana, tive contato com este seu artigo em uma revista num consultorio medico. Esse seu artigo caiu como uma luva em minha familia. Tenho filho e nora passando por um momento dificil (ele deu uma escorregada na vida amorosa, sempre o homem ne?.
    Estou enviando o artigo pra eles, e tenho certeza que vai ajuda-los.
    um abraco.

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