Reflexões em um ano bissexto

29/01/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

A primeira relação entre irmãos terminou em morte, quando Caim matou Abel por inveja. Tivesse a oferenda de Caim ao Todo-Poderoso sido aceita, talvez não houvesse rivalizado com seu irmão e a história poderia ter sido outra. Como advertia Pitigrilli nos anos 1950, “Todo irmão é mais que um inimigo”. A rivalidade virou regra – rivalizaram-se troianos e gregos; os romanos e cartagineses, nas guerras púnicas. Rivalizam famílias, como os Montechio e os Capuleto, em Romeu e Julieta, rivalizam-se povos e países, religiões e torcidas. Desconfio, às vezes, que parecemos Dom Quixotes em busca de moinhos de vento com os quais possamos duelar.

Há rivalidades que se atenuam com o tempo. Parece ser o caso da direita versus esquerda na política. O capitalismo e o comunismo dominaram o panorama do século 20, mas hoje deram lugar a sociedades democráticas, nas quais a ideologia ficou aguada na modernidade líquida. O presidente chinês Jin-Tao diz que o seu país agora é “nacionalista”. Se a pirataria é boa para a China, o resto que se dane. O marxismo foi a manifestação mais crua de uma ideia “evolucionista”. Para Hegel, tudo é um “processo”. Estamos evoluindo de passagem para alguma coisa que não sabemos o que é.

Um dos combustíveis desse processo é a rivalidade, palavra que vem do latim rivalis, rivus (rio), quando uma pessoa tinha em comum com outra as águas de um rio. A palavra rival, na antiguidade, tinha esse sentido de compartir, de proximidade, mas evoluiu, modernamente, para adversário, competidor. A rivalidade pode ser lúdica, em que cada um ou cada instituição visa vencer o rival, o que pode ser estimulante, na medida em que todos tratam de melhorar em busca da vitória. O perigo é quando a rivalidade fica dominada pelo fanatismo, em que cresce a paranóia, pois cada parte se imagina com toda razão.

Culpa de um cara honesto, mas um tanto ingênuo chamado Descartes. Ele parte do famoso “Penso, logo existo”. O ser pensante se coloca como parâmetro do real. A partir daí, será real aquilo que puder construir através de processos mentais muito bem verificados. Um dos derivados disso é a idolatria pela ciência. Tudo o que não pode ser provado racionalmente, deve ser descartado. Não deixa de ter um fundo de verdade. Mas não é tudo… Por isso vivemos numa crise ontológica (o conhecimento ou percepção do Ser em toda a sua complexidade). Nelson Rodrigues odiava os “idiotas da objetividade”. “Eles acham que tudo se explica pela razão”. Mas a intuição, a maravilhosa intuição dispensa tudo isso. Você olha e vê muito mais do que sinais característicos, vê o ser inteiro, com a sua estonteante complexidade.

O exemplo do intuitivo que deu certo foi Nelson Mandela. No filme Invictus, de Clint Eastwood, é contado um pouco dessa história de como foi possível superar a rivalidade na sociedade racista da África do Sul. Mandela passa 27 anos preso e lembrava os versos que o estimulavam na sua solidão: “Eu sou o mestre do meu destino/Eu sou o comandante da minha alma”. Ele aprendeu a dominar a si mesmo e não se deixar dominar pelo pódio.

Revelou-se um comandante de si e do seu povo, ao liderar a sonhada reconciliação entre brancos e negros. O desafio de superar as agressividades entre rivais pode ser transposto, com mutuas concessões entre as partes em conflito. Provou que a “apoteose da razão” – a maioria deve se sobrepujar à minoria – era somente um “delírio”. Intuiu que negros e brancos, juntos, poderiam construir uma grande sociedade. Hoje, a África do Sul é um país emergente que já sediou com sucesso uma Copa do Mundo .

O desafio de superar as agressividades entre rivais pode ser transposto, com mútuas concessões entre as partes em conflito. Assim, indivíduos e coletividade podem alcançar a paz. A iluminação de que fala o budismo, no fundo é isso: muito além de um processo racional, num relâmpago mental, de repente você percebe a realidade para além das aparências. É a descoberta da “coisa em si” que o velho Kant nunca cansou de procurar. Minha mãe, uma mulher intuitiva, dizia que “Boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Passei para um ano bissexto, sem temores, com as minhas leituras. Ouso publicar algumas reflexões que resultaram desse exercício.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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