Xixi durante o banho
Por Zarcillo Barbosa (*)
No tempo de Jorge III (1738-1820), rei da Grã-Bretanha e da Irlanda, estabeleceu-se que todos os súditos deveriam tomar banho uma vez por ano – e não muito mais -, como medida de combate às emanações supostamente nocivas. Quem conta é o historiador Stanhope. Talvez tenha sido esse tipo de “abuso do poder real” uma das causas da segregação do rei como louco, em 1811, e a criação de uma regência em favor do seu filho primogênito, o futuro Jorge IV.
A água para consumo doméstico era escassa, muitas vezes conseguida em fontes distantes. Para cumprir o édito a família inteira tinha que se banhar na mesma bacia, em ordem hierárquica. Começava pelo chefe da casa. Depois, a matriarca. Seguia-se o filho mais velho até chegar no caçula. No banho final a água estava tão suja que seria possível descartar pela janela o conteúdo da bacia sem se perceber o bebê esquecido no negrume do líquido. Daí nasceu a expressão “jogar a criança com a água do banho”. Outro dia o Supremo Tribunal Federal fez algo parecido com a Lei de Imprensa…
A aluna de Jornalismo pegou-me desprevenido quando quis saber minha opinião sobre a campanha da ongue SOS Mata Atlântica para que as pessoas façam xixi no banho, e economizem água do vaso sanitário. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a história do banho inglês. No verão, época propícia por causa das temperaturas mais amenas, nas cidades inglesas centenas de famílias cumpriam suas obrigações como súditos leais à determinação do rei. Logo no primeiro, e raro, dia ensolarado. Fazer xixi durante o banho é um ato tão natural, fisiológico e inevitável.
Independe de qualquer campanha ou consciência cívica. A própria água quente estimula a bexiga a trabalhar. Quando a gente vai nessas fontes termais freqüentadas por multidões de banhistas é fácil perceber no ar o cheirinho acre do líquido segregado pelos rins.
Em todo caso, impossível tachar os ambientalistas de “alienados”, como ocorreu com Jorge III. Eles têm suas razões. O presidente Afonso Pena (1906-1909) dizia que “todo brasileiro tem direito a um banho, aos sábados” e nem por isso foi internado. Segundo dados de um programa de conservação da FAO/ONU, cada descarga gasta doze litros de água. Temos 192 milhões de habitantes.
Nem vou perder tempo fazendo contas. Sei que é água pra rio nenhum botar defeito. O problema é segurar o xixi até a hora do banho. Depois de uma determinada idade o cidadão prostático vive a angústia da incontinência urinária. Lembrei-me também do Chico Ferramenta, lá da minha terra, que recebia os amigos na sua chácara para tomar cerveja e comer churrasco. Quando alguém perguntava sobre o banheiro ela apontava um pé de coqueiro-anão carregado de frutos. Atribuía a performance da planta à uréia natural que irrigava as suas raízes.
O ambientalista Efraim Rodrigues assegura que o perigo não está no desperdício de água nas residências, embora também seja antiético. A agricultura consome 32% da água do mundo e as cidades 6%. Você economiza muito mais água consumindo alimentos da época (que não precisam de irrigação) do que fechando a torneira enquanto escova os dentes. Se fizer as duas coisas, melhor ainda. Nosso problema com a água não é de falta. É de excesso.
No Brasil ainda deixamos de reutilizá-la. Poucas pessoas armazenam água da chuva para lavar pisos e irrigar o jardim. As legislações não exigem reservatórias de águas pluviais nas residências e condomínios verticais. O prefeito Rodrigo Agostinho, conselheiro do Vidágua, quando vereador conseguiu aprovar projeto de lei proibindo a utilização de água tratada para lavar calçada. Por enquanto é letra morta. Mesmo agora, como chefe do Executivo, duvido que tenha coragem de sair multando as donas de casa. Nenhuma delas resiste usar a mangueira como vassoura hidráulica. A varrição dos espaços públicos seria de obrigação da Prefeitura. Não pode reclamar. A cidade lança milhões de litros de esgoto por dia no Rio Bauru. Quem não faz no pé do coqueiro, seja no banho ou no vaso, ajuda a poluir. Faz no próprio pé.
A campanha da SOS Mata Atlântica, organização de respeito e abrangência nacionais usa o seu prestígio para alguma coisa pequena. Até desviante. Chegou a repercutir na nossa Câmara de Vereadores. Coisa de cidade grande. Já temos até gripe suína e alunos com máscaras cirúrgicas. Passamos a perna em Rio Preto, Ribeirão, Marília e outras cidades que disputam conosco o troféu de metrópole interiorana.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC









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