A revolução cultural da maconha

09/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Sei que o espaço não é o lugar ideal para densas discussões teóricas. O que os leitores querem encontrar na imprensa é a informação fresca, a crítica sem muitos adjetivos, a crônica, a reportagem. O mundo já é muito complicado. O jornalista não deve provocar mais dissonâncias na cabeça do leitor. Por uma questão de mercado.

No início do século 19, o filósofo Hegel chegou a dizer que a leitura de jornais era “a oração matinal do homem moderno”. Hegel escrevia seus livros numa linguagem difícil de ser cifrada. Quando dirigiu um jornal, porém, no período de Napoleão, pediu aos seus colaboradores que se expressassem com simplicidade, para serem lidos pelo homem comum. Mal sabia ele o quanto difícil é escrever simples. Sem ser simplório, evidentemente.

Outra pergunta que poderia ser feita para complicar a vida do filósofo seria: “Mas quem é, exatamente, o homem comum?” Será que lhe falta mesmo discernimento para entender as coisas complicadas? Todo mundo sabe que essa crise econômica na “Oropa, França e Bahia” vai acabar se refletindo no bolso do trabalhador.

O filósofo Montaigne dizia que ria, não da nossa ignorância, mas dos nossos saberes. Com que direito os professores exigem dos alunos que leiam as obras-primas da literatura mundial, que percam tempo estudando a Antígona, de Sófocles, o Hamlet, de Shakespeare ou os poemas de Baudelaire? É tudo muito chato. Muito melhor é discutir amenidades, puxando um fuminho, de leve.

Quando eu era professor percebia quando o aluno começava a perguntar muito, embora sempre tivesse se comportado como aquele aluno que Malba Tahan chamava de “escocês”: o professor fala, explica, se esforça e o cara ali, olhando para você com cara de ruminante. É só observar a pupila dilatada para perceber que o jovem usou a cannabis para dar um colorido a mais na vida. Na hora do intervalo ele devora umas quatro coxinhas na cantina da escola. É a tal “larica”.

Fumar maconha só dá fome. Nada que mereça uma repressão da tropa de choque.

Até quando quebram alguma coisa, invadem a reitoria ou departamentos e danificam bens públicos é preciso compreendê-los. Faz parte da ignorância de ser jovem. Para ser jovem bastam alguns anos. Para ser velho é que é preciso muita luta e criatividade. “A paixão pela destruição é também uma paixão criativa”, justificava o anarquista russo Mikhail Bakunin (1814-1876). Os anarquistas de butique hoje fazem o papel de vândalos.

Inspirados em Bakunin, em 1909 jovens espanhóis fizeram uma semana de protesto contra o recrutamento militar – igrejas incendiadas, padres executados, reação violenta do exército e 150 mortos. Centenas de fugitivos da polícia foram se refugiar na Legião Estrangeira, no Marrocos espanhol. De que adiantou protestar contra o recrutamento se foram cair, justamente, na facção mais dura do serviço militar?

Nas universidades brasileiras existem grupos de extrema esquerda, mantidos pelos partidos para agitar. Seus membros nem precisam passar de ano. Basta espalhar a semente do inconformismo. PSOL e PSTU, para eles, são partidos burgueses. Eles se utilizam do mesmo pensamento binário e totalizante de Bakunin. Não passa pela cabeça que esse tipo de postura nada tem a ver com a extrema esquerda. São simplesmente autoritárias, fruto do desejo de uma explicação simplória e totalizante do mundo. O mesmo discurso, as mesmas denúncias há mais de um século. O filósofo Vladimir Safatle escrevia outro dia para dizer justamente isso e para concluir que esses jovens querem, simplesmente, destruir valores da liberdade individual e da democracia liberal.

Que lutem por essas ideias, se quiserem. A estratégia revolucionária de Gramsci é a guerra cultural instrumentalizada. Mas é preciso ser mais sutil para se conseguir algum resultado. Gramsci aconselhava seus seguidores a, primeiro, propugnarem pela liberdade sexual. Isso em 1920. De sexo todos gostam, principalmente quando os hormônios estão latejando. Depois é que vem a apologia das drogas e a legitimação da criminalidade como a expressão do “grito dos oprimidos”. Gramsci ficou metade da vida na prisão, morreu e não viu nenhuma das suas idéias revisionistas de Marx aplicadas com eficiência, a ponto de render algum poder para o proletariado.

Voltando ao filósofo Hegel, ele advertia: “Na facilidade com que o espírito se satisfaz, pode se sentir a extensão da sua perda”. Bastam a eles um baseado e bater bumbo na porta da reitoria. Há sempre a oportunidade de um brilhareco midiático. Nas condições da indústria cultural, as criações proporcionam pequenos impactos imediatos, que não contribuem nem para as rupturas, nem para a continuidade necessária do processo histórico.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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