Queremos o Nobel

10/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Em 110 anos de Prêmio Nobel nunca um brasileiro foi reconhecido por obra de destaque nas ciências, na literatura, na economia ou por seus esforços em favor da paz. Somos a sétima economia do mundo. Entre as maiores empresas do planeta temos várias brasileiras ranqueadas. A Petrobras está no “top ten”.

Vale, Banco do Brasil, Bradesco e Itau figuram entre os mais endinheirados. Em compensação, a melhor universidade brasileira, a USP, só aparece em 178º lugar e é a única do indexada. Significa que o país enriqueceu, mas o ensino continua precário. Quando se examina a capacidade de alunos de classe elementar de interpretar um parágrafo de quatro linhas, perdemos para os garotos do Paraguai, do Quênia e de outros rincões menos cotados.

Temos bancos, soja, carne e outras com-modities, mas não temos uma escola que preste. Nos Estados Unidos, absolutos com 242 Nobel, Steve Jobs criou a empresa de maior valor de mercado no mundo (340 bilhões de dólares) graças à tecnologia. Começou numa garagem com dois mil dólares de capital. Uma excepcionalidade, dirão.

Os gênios nem precisam de escola. Também nascem talentos no Brasil. Só que aqui não temos o ambiente voltado à tecnologia que possam inspirá-los. O que há de sobra em Pindorama é futebol, bunda e pandeiro. Se o povo cobrasse dos políticos melhores resultados e posturas éticas, como exige dos atletas da bola, o Brasil seria bem melhor. A marcha contra a corrupção, que deveria arrastar milhões para as ruas, não passou de vinte mil vestidos de palhaços na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Carnaval, este sim, é campeão do mundo.

Nem o IgNobel conseguimos ganhar. O prêmio criado em 1991, em Harvard, primeiro faz as pessoas rir, e depois as fazem pensar. Em setembro foi premiada com o IgNobel a pesquisa de uma universidade canadense sobre a estranha história de amor entre um besouro e uma garrafa de cerveja. O inseto macho tentou, com tanto vigor fazer sexo com a garrafa, que acabou morrendo. Pesquisadores também procuraram uma resposta sobre o fato dos atletas arremessadores de discos ficarem tontos no giro de embalo, o que não acontece com os arremessadores de martelos.

Aqui no Brasil poderíamos ganhar o Ig com estudos sobre variações parabólicas de tampas de bueiro e bandejas de restaurantes, sob a ação de explosões de gás. Todos os países do BRICs têm premiados com o Nobel, menos o Brasil. Rússia, Índia, China, mais os emergentes como África do Sul marcam presença.

A Argentina ganha da gente de 4 a 0. Os hermanos têm dois de Medicina e dois da Paz. Chile (Gabriella Mistral e Pablo Neruda), México (Octavio Paz), Peru (Vargas Llosa), Colômbia (Gabriel Garcia Marques), Guatemala (Miguel Ángel Asturias e Rigoberta Menchú), Costa Rica (Oscar Arias) completam a lista latina. Para nosso consolo, Peter Brian Medawar, que ganhou Medicina, em 1960, pelos seus estudos sobre transplantes e sistema imunológico, nasceu no Rio de Janeiro. Mas foi só… Estudou desde criança em Londres.

Nossa esperança concentra-se em Luiz Ignacio Lula da Silva, o cara que acabou (ou quase) com a fome no Brasil. Nos Estados Unidos uma fundação acaba de lhe outorgar o World Food Prize.

Dividiu com o ex-presidente da Gana a bolada de 432 mil reais. O populismo também tem os seus méritos porque persiste na figura do “pai dos pobres” – agora metamorfoseado em mãe. O populismo atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva. À medida que escapa da pobreza espera-se que a classe C seja mais imune aos apelos populista, depois de inseridos na sociedade de consumo.

Deram o Nobel da Paz para Ytzhak Rabin, Shimon Perez e Yasser Arafat, em 1994. De que adiantou? Palestinos e israelenses continuam se matando. Nem Mahatma Ghandi, o maior pacifista da história conseguiu chamar a atenção para o Nobel. Em 1948, pouco antes de ser assassinado, o prêmio pela Paz ficou em branco “por falta de candidato adequado”. O Nobel também comete suas gafes. Em 1949 laurearam o psiquiatra português Egas Monis, que criou a lobotomia, o selvagem método de cortar o lobo central ao tálamo do doente mental violento, para que ele dê sossego. Os escritores James Joyce, Tolstói, Tchekhov, Proust, Ibsen e Mark Twain também não ganharam. Quem sabe Lula tira o Brasil desta fome de Nobel. Vai ser duro aguentar uns quatrocentos “nunca antes na história deste País”. Mas, enfim…

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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