E a nave foi…

11/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

A metáfora da navegação marítima “O capitão é o último a abandonar o barco” foi por água abaixo com a divulgação do diálogo felliniano entre o comandante da capitania dos portos, Gregório De Falco, e o capitão do Costa Concórdia, Francesco Schettino. O “vada a bordo, cazzo” passa a ser uma expressão mundial, a ser usada toda vez que um ser humano se apequenar diante das suas responsabilidades. Estamos acostumados a ouvir histórias de coragem em momentos críticos em alto mar, com as ondas em fúria. Hermann Melville escreveu Moby-Dick, a baleia branca que afunda o The Pequod.

O capitão Ahab pula sobre o cachalote com seu arpão e vinga-se da perda do seu navio, mesmo pagando o preço de morrer amarrado ao monstro, no fundo do mar. No início da II Guerra, em 1939, o capitão Hans Langsdorff, cercado por três navios ingleses na desembocadura do Rio da Prata dinamita e afunda o couraçado Admiral Graf Spee, orgulho da marinha nazista, para não dar aos ingleses o gostinho de pôr o barco à pique, numa batalha de três contra um.

Dias depois se suicida num quarto de hotel em Buenos Aires. Todo comandante que perde o navio jamais volta a navegar, pelos usos e costumes do mar. É por isso que muitos escolhem como túmulo o seu barco que vai ao fundo. Contrariando a escrita de tantos fatos heróicos, Schettino deixa uma mancha na saga dos “velhos lobos do mar”. Inclusive dos seus antepassados – é neto e filho de comandantes.

“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte” – disse Shakespeare, pela boca de Júlio César. O corajoso experimenta a morte apenas uma vez. O comandante italiano terá que “morrer” milhares de vezes, em todas as línguas, até o desaparecimento real da sua carcaça somática. Covardia é a corrupção da prudência, também chamada de “poltronice”, que vem de poltrão, aquele animal que engorda e fica preguiçoso.

Todos nós temos medo. A diferença é que covardia é medo consentido e coragem é medo dominado. O inusitado é que no caso do Costa Concórdia não prevaleceu o corporativismo, como estamos acostumados a ver no Brasil. De Falco foi irretocável na repreensão ao companheiro. Ambos da marinha mercante italiana, deveriam se conhecer há muito.

De Falco primeiro avisou que estava gravando e mandou o infeliz voltar para cumprir seu dever, ser solidário com aquela multidão desesperada. Se fosse brasileiro, os advogados de Schettino iriam alegar que “as gravações foram feitas sem autorização judicial” e, por certo, pediriam a anulação do processo na Suprema Corte, com grande possibilidade de êxito.

Os proprietários do Costa Concórdia não estão preocupados com a perda do navio de 114.500 toneladas, uma cidade flutuante que carrega 3.200 passageiros e 1.000 tripulantes. Sequer se avexam com os mortos e desaparecidos. Os seguros cobrem tudo. Temem os armadores o impacto no mercado de cruzeiros, que vem se multiplicando. Nos últimos dois anos foram 18 milhões de passageiros. Até 2015 era esperado um movimento de 25 milhões de passagens vendidas, a um custo médio de 950 dólares.

Diante desse quadro se constroem transatlânticos cada vez maiores. O Costa Concórdia é apenas o 26° de uma frota de 250 navios de cruzeiro. O maior deles, o Allure of the Seas, da Royal Caribbean, tem 225.282 toneladas, 16 andares e leva 5.400 passageiros. Nem é bom pensar na possibilidade de uma ocorrência com um bicho desses. A cada verão, pelo menos dez desses gigantes operam na costa brasileira e fazem a delícia da classe ascendente.

Ainda bem que o desastre foi na Itália. Nem sei o que diriam de nós se o comandante tivesse tirado uma fina de Ilhabela. Críticas à precariedade de nossas cartas de navegação e dos poucos portos onde é possível atracar. Como faz falta um De Falco no mundo de hoje.

Lembro-me de Robert Putnam, um pesquisador norte-americano que ficou 20 anos com uma equipe estudando os motivos das diferenças entre o Norte da Itália, mais rico, do Sul que teima em permanecer na pobreza. Descobriu que os habitantes da parte desenvolvida têm mais espírito de comunidade, a que chamou de “capital social”.

Se há um incêndio na casa de um deles, os vizinhos correm a ajudar, enquanto, no Sul, diante das primeiras chamas a vizinhança trata de aumentar os estoques de água para o fato de o fogo se alastrar.

Como se diz por aqui, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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