O amargor do absurdo
Por Elton Simões (*)
No dicionário, absurdo é contrário à razão e ao senso comum. É falar ou agir de maneira irracional, estúpida, disparatada, tola. É tolice, asneira ou disparate.
Na lógica, é aquilo que contém contradição.
Na filosofia, absurdo é o que não tem sentido nem valor de verdade.
Na vida real, quando encontra ambiente favorável nos corações e mentes, o absurdo adquire o poder de se integrar à realidade e adquirir legitimidade. Na dose certa (e talvez mais perigosa), sua mistura com a realidade dá sentido lógico ao que antes parecia delírio.
Ao fornecer uma explicação e raciocínio para as ações, o absurdo empresta sentido. Ele poupa seus crentes de encarar as contradições ou a falta de sentido de suas ações.
Cria uma realidade paralela baseada em lógica duvidosa na qual a posição mais confortável se encontra dentro dos paradigmas do absurdo. Evita o doloroso, mas sempre pedagógico, choque com a realidade.
Quando controla a consciência, absurdo e realidade ficam indistinguíveis. Anula a consciência, que fecha os olhos, tapa os ouvidos e ensurdece para a razão. Segue lógica própria que, uma vez instalada, ganha vida, se torna autossuficiente, e empresta sentido a acontecimentos e personagens inverossímeis.
De uma maneira ou de outra, o risco de instalação do absurdo está sempre presente. Ele penetra na consciência de maneira sorrateira, silenciosa e traiçoeira. Concilia e combina a necessidade de ideias que emprestem significado às ações, com a busca de explicações que as justifiquem.
É a crença no absurdo que às vezes leva indivíduos ou grupos a cometerem atos impensáveis em situações normais.
Parece não haver muitos remédios ou tratamentos para o absurdo. Felizmente, embora limitados em número, os remédios existentes são poderosos em seu efeito. A consciência e o raciocínio são suas substâncias ativas. Iluminam a realidade, conduzem à ação, ao inconformismo e ao fim da passividade em face da situação.
Remédios contra o absurdo, entretanto, podem ser amargos. E ter efeitos colaterais. Podem forçar a revisão de pontos de vista e crenças. Podem resultar em conclusões dolorosas e reviravoltas inevitáveis.
Rejeitar o absurdo é encarar a realidade e, a partir dela, agir. É apostar na possibilidade de influenciar e melhorar a realidade.
Em tempos incertos e diante de desafios e desilusões, abraçar o absurdo talvez seja mais confortável ou conveniente. Ele traz um sentido que, embora falso, evita a angústia.
Mas é ruim para a saúde. Física e mental. Sempre.
(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca
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