08/04/2011 por ZCastel
Um artigo de Rubem Alves sobre o canto gregoriano deu-me vontade de bater um papinho.
Os poetas nos ensinam que a alma, nos seus lugares mais profundos de silêncio, é música.
Fernando Pessoa diz que o poeta escreve para que se possa ouvir, nos silêncios dos seus versos, uma melodia que se encontra além deles.
Também é sua a afirmação: ” Minha alma é uma orquestra oculta. Não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.”
“Quando se sente a beleza da música é porque ela já se encontra dentro da alma, adormecida.” ( Rubem Alves)
” A vida humana é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o fortuito do acontecimento para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura da sua vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata. O homem, inconscientemente, compõe a sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero.” ( Milan Kundera)
Que tema você escolheu para compor a partitura da sua vida? Quantas vezes já o repetiu, modificou e voltou ao mesmo tema?
“A música nos salva. Nem toda a dor do mundo será capaz de destruir a beleza da Música. A alma tem a capacidade de separar a música dos ruídos que a perturbam”.( Rubem Alves)
O próprio Rubem Alves dá o exemplo dizendo que, nos tempos dos rádios de válvulas, ele girava os botões à procura de boa música.Mesmo com chuva, relâmpagos e trovões lá fora, com os insuportáveis chiados, assobios e estática produzidos pelo aparelho, ele podia muitas vezes encontrar e identificar um piano que tocava Beethoven e Chopin. A sua alma descartava os ruídos e se deleitava com os belos sons.
Ao ler isso, lembrei-me do meu avô materno, que era um homem simples mas culto, grande apreciador de óperas, músicas clássicas e coisas do gênero. Parece-me vê-lo ainda, com o ouvido grudado no rádio de caixa enorme de madeira, girando os botões com cuidado e fazendo um esforço heróico para ouvir a transmissão de músicas eruditas apresentadas em estações longínquas e vindas de países estrangeiros. Às vezes eu chegava a ter pena dele. Como era difícil satisfazer seu desejo de ouvir as peças musicais que ele conhecia e adorava! Imagino-o hoje, com essa tecnologia toda, com os avanços de aparelhos sofisticadíssimos de áudio, com as possibilidades de ver e ouvir grandes orquestras e concertos fantásticos pela TV, DVD e pela Net! Pobre vovô!
” Temos dois olhos. Com um vemos as coisas eternas, que permanecem. Com outro, as coisa efêmeras, que desaparecem” ( Ângelus Silésius)
E Rubem Alves o parafraseou dizendo:
” Temos dois ouvidos. Com um ouvimos as melodias eternas que permanecem. Com o outro, os ruídos efêmeros, que desaparecem.”
Hoje é preciso tapar com algodão o segundo ouvido e aguçar nosso ouvido “educado” para separar o joio do trigo, para poder sentir o prazer de ouvir a Música que é Arte, é deleite, é emoção, é manifestação da alma, é pano de fundo para os nossos sonhos e é capaz de despertar o que há de melhor em nós.
A autora, Eloah Segalla Passareli, é professora aposentada e escritora.
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