03/05/2012 por ZCastel
Na verdade queira escrever uma carta para a Sra. Gislene Aparecida Lopes, mãe de Vitória Graziela Fernandes, de 6 anos, morta brutalmente por um desses bárbaros, que se misturam à população para promover crimes que provocam revolta, tristeza e indignação.
Resta-nos concluir que a pequena vítima, a pequena Vitória, é mais uma dos incontáveis “Filhos do céu”!
Sempre quando me vejo tomando conhecimento de crimes como este, envolvendo anjos, reporto-me a um senador (Pedro Simon), que expressou como ninguém a dor que fatos horríveis assim promovem, a princípio na inocente vítima e a seguir nos familiares e indo em contaminação à toda comunidade que se irmana na dor.
Simon referiu-se ao Caso João Hélio, mas as palavras são adequadas à pequena Vitória e sua mãe Gislaine.
O que proferiu o Senador, em seu discurso, da tribuna do Senado Federal, cabe rigorosamente ao triste caso bauruense, daí ousar em trazer sua indignação à mãe Gislaine, lamentando profundamente a forma como foi brutalmente assassinada sua pequena Vitória.
Ousaria em repetir e adequando:
Srª Gislene Aparecida Lopes: Conheço o tamanho de tua dor, que é a mesma do Élson e da Aline e de João Hélio, este morto brutalmente no Rio de Janeiro e que foi, pela forma como ocorrera sua morte, inspiração para o pronunciamento do respeitado Senador.
“Para mim, é, também, uma dor vivida.
A perda de um filho é, sem dúvida, o maior de todos os sofrimentos.
Por que tamanha provação? Versões contemporâneas de Abraão? Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o, aí, em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar.
Por que, então, o anjo de Javé não te ajudou a desvencilhar daquele bárbaro, que permitiria devolver aos teus braços de mãe a pequena Vitória, o Isaac dos nossos tempos, para que ela permanecesse entre nós, dividindo e multiplicando sua alegria de vida?
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
É nesses momentos que nos sentimos ínfimos diante dos desígnios do Criador. Pior: é também nesses mesmos momentos que sabemos o quanto a humanidade se distanciou de Sua obra.
Dissestes: Eles não têm coração. Eles têm! É que nós utilizamos os dons que nos são ungidos e criamos, com novos deuses, a inteligência artificial, enquanto desdenhamos os sentimentos mais sublimes e naturais, aqueles que brotam somente e somente em corações fertilizados pelo amor e pela fraternidade.
Ao contrário, permitimos que florescesse em muitos corações, nas favelas e nos palácios, a barbárie: no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Brasília, em Washington ou em Bagdá… e também em Bauru!
É a humanidade, enquanto gênero humano, que se distancia dos seus próprios conceitos de benevolência, de clemência e de compaixão.
Que tuas lágrimas não se percam apenas nos índices de audiência e nos discursos de conveniência. Ao contrário, que elas mobilizem corações e mentes para a reconstrução dos valores que perdemos nessa travessia terrena.
Em outros tempos, não tão distantes, os valores morais e culturais se construíram sobre o tripé: família, escola e igreja.
Hoje, a família foi dilacerada; a escola, sucateada; a igreja, excomungada. No lugar, um novo e perverso tripé: a droga, a rua e a arma. A droga, como estímulo; a rua, como palco; a arma, como poder.
Ainda naqueles outros tempos, as famílias se reuniam para contar e para trocar suas histórias de vida. Era um grande círculo de amizade e de fraternidade.
Família, escola e igreja ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Respeito, aprendizado e benção.
Pais heróis. Hoje, o círculo familiar deu lugar a um semicírculo vicioso: no centro, a TV, e os novos heróis são aqueles que mais atiram, que mais batem, que mais matam.
É a arte imitando a vida, ou incentivando a morte, ou vice-versa.
Portanto, por mais que se tente considerar ultrapassados os discursos como os meus, que pregam o resgate da humanidade, o teu sacrifício demonstra que eles são atuais e, cada vez mais, necessários.
Por isso, não mudei nesses tantos anos de vida pública. Continuo vivendo os valores que herdei da família, da escola e da igreja. Para mim, não há diferença entre o favelado que puxa o gatilho nas esquinas e o dirigente que manda despejar mísseis sobre cidades inteiras.
Quantas serão as mães de Bagdá que choram a morte dos seus pequenos inocentes, meninos da guerra, trucidados em nome do poder e da ganância? Pior: em nome de Deus.
São todos bárbaros, cruéis, desumanos! É essa a minha luta para resgatar o verdadeiro sentido de humanidade. Que os homens retomem o projeto do Criador.
Onde reina a barbárie, de nada vão adiantar novas leis que não se cumprem; novas punições, que servirão, tão-somente, para alimentar a impunidade.
Há que se ressuscitar as letras mortas, e isso se faz somente com o grito estridente das ruas. Como bem dissestes, minha querida mãe, a tua filha não pode ser mais uma em número nas estatísticas da violência. Como em outros casos tão recentes, temo que a tua imolação seja esquecida quando a comoção dobrar a esquina, talvez a mesma esquina em que foste abordada tão covardemente.
Mas a tua dor, não. A dor por um filho é eterna. Mas há, sempre, lá no mais fundo da nossa existência, uma imensa força, que nos faz, pelo menos, conviver com tamanho sofrimento. Essa energia, que é divina, nos ampara até o reencontro em outra dimensão.
Por isso, as tuas lágrimas têm de irrigar a indignação, que hoje toma conta de estádios, de ruas e de lares; das famílias, das escolas e das igrejas.
Quem sabe o sacrifico de tua filha signifique o renascimento do tripé que suporta outros valores, que não a barbárie.
Somos parceiros nessa dor.
Em tempo: quando conversares com Vitória, nos teus sonhos de mãe, diga-lhe que um menino alegre, feliz, bonito e inteligente como ela irá procurá-la entre todos os anjos.
Diga-lhe que eles têm muito em comum na inocência de criança. Ele partiu há alguns anos, mas, nas minhas mais belas lembranças, o meu filho continua o mesmo guri que me encantava a alma. Também partiu precocemente, como todas as vítimas de algum tipo de violência. Diga-lhe que esse guri se chama Matheus. Eu já conversei com ele nos meus sonhos de pai. Um abraço fraterno, minha querida mãe.
* Senador Pedro Simon (discurso proferido a partir da tribuna do Senado Federal) e cujas palavras, data vênia, uso aqui, adequando ao momento de sofrimento dos bauruenses, para transmitir nosso compartilhamento de dor pela perda de forma brutal da pequena Vitória, um anjo, “Filha do Céu”, por quem oramos, junto à mãe e familiares, para que tenham força para suportar tamanha dor.
Renato Cardoso.
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