31/03/2012 por ZCastel
Um clássico do jornalista Gay Talese, traçando o perfil de Frank Sinatra, escrito para a Esquire, nos remete no momento ao ex presidente Lula, que se diz pronto para voltar a botar a bronca no trombone na próxima corrida eleitoral.

Num momento Talese aponta: “Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a voz dele.” Em Sinatra, a falta da voz “mina as bases de sua confiança e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar uma contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele.”
Trazendo o texto para os dias de hoje e para o Brasil, saudosos do cantor de New York, New York, chegamos ao ex presidente Lula da Silva, muito embora torcendo na linha “Vida longa ao rei”, ficamos com a indagação: será?
Antecipando a resposta e a respeito de seu estado de saúde, disse Lula em entrevista: “Se eu perdesse a voz, estaria morto.”
Ao jornal Folha de S.Paulo, pelas colocações na entrevista, Lula dá a medida do drama que viveu nos últimos seis meses. É um depoimento dramático, emocionado, bem ao seu estilo.
Sobre o tratamento: “Eu vim com um tumor de 3 centímetros e de repente estava recebendo uma bomba de Hiroshima dentro de mim. Preferia entrar em coma”. Sobre a morte: “Tem gente que fala que não tem medo de morrer, mas eu tenho. Se eu souber que a morte está na China, vou para a Bolívia”.
O psicanalista Joel Birman disse que a voz, mais que o olhar, é fundamental para persuadir o outro. “Para um líder político, a voz é ainda mais que isso. É um instrumento insubstituível para tocar as emoções, os sentimentos e os desejos do interlocutor e da massa.”
Hoje podemos comentar com isenção plena de opinião sobre o ator, pois é anunciada sua cura, mas para o líder do petismo, do ponto de vista simbólico e real, a perda de sua voz seria a perda da condição de liderança de sua liderança e da força que move o PT na política nacional.
Disse o psiquiatra Birman, “perder a voz seria para Lula uma experiência de castração absoluta”. Ele se tornaria “um morto-vivo”.
Lula quase sempre conseguiu roubar a cena ao abrir a boca, por mais que gafes cometesse.
E foram gafes e mais gafes, que fossem em palanque regional ou num congresso internacional. Para muitos políticos com estilo de gestão, de gabinete, a voz não tem esse poder, é mais acessória, porém para Lula, um presidente com 80% de popularidade, é diferente. Sua voz rouca, com erros de português, metáforas de futebol e piadas do povão, era o elo com a massa, na versão do sindicalista exaltado ou do lulinha paz e amor.
Carlos Lacerda também foi político com discurso inflamado, mas se expressava com vigor também pela escrita. Lula não. Exerce uma liderança oral.
Ruth de Aquino escreveu para a revista Época, que a maioria da população brasileira não domina a palavra escrita. O brasileiro lê em média quatro livros por ano – e não todos por inteiro. Num país assim, a voz é hipervalorizada como capital político. “A fala é todo-poderosa num país com tantas carências na educação. Vivemos, entre aspas, um analfabetismo nacional”, citando Birman.
Foi ótima a divulgação do fato da ausência de tumor e o início da recuperação de Lula – e assim espera-se que se sentiram todos os homens e mulheres de boa vontade.
Foi muito bom ver o ex presidente Fernando Henrique Cardoso o visitando-o, em ato humano e de solidariedade, muito acima das divergências comezinhas, ideológicas e políticas. Para o Brasil das patrulhas burras e estreitas, é instrutivo ver Lula e FHC num aperto de mãos com sorrisos.
O presidente que cometeu mais gafes no Brasil conseguia quase sempre roubar a cena ao abrir a boca e hoje comenta-se que está pronto para um segundo tempo de jogo, por um milagre operado exatamente pelo seu ex e por seu rival mais sonhado, levando em conta os diversos desafios de Lula na direção de FHC para que os dois subam ao ringue de disputa presidencial. Lula com sua voz e FHC com sua cultura.
(*) Renato Cardoso, o autor, é publicitário e bacharel em direito.
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