01/07/2011 por ZCastel
De Mário Prata (*)
O que mais as espanta é que, de repente, elas percebem que já são balzaquianas. Mas poucas balzacas leram A Mulher de Trinta, de Honoré de Balzac, escrito há mais de 150 anos.
Olhe o que ele diz: ’Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer’.
Madame Bovary, outra francesa trintona, era tão maravilhosa que seu criador chegou a dizer diante dos tribunais: ‘Madame Bovary c’est moi’. E a Marilyn Monroe, que fez tudo aquilo entre 30 e 40?
Mas voltemos a nossa mulher de 30, a brasileira-tropicana, aquela que podemos encontrar na frente das escolas pegando os filhos ou num balcão de bar bebendo um chope sozinha.
Sim, a mulher de 30 bebe. A mulher de 30 é morena. Quando resolve fazer a besteira de tingir os cabelos de amarelo-hebe passa, automaticamente, a ter 40. E o que mais encanta nas de 30 é que parece que nunca vão perder aquele jeitinho que trouxeram dos 20. Mas, para isso, como elas se preocupam com a barriguinha!
A mulher de 30 está para se separar. Ou já se separou. São raras as mulheres que passam por esta faixa sem terminar um casamento. Em compensação, ainda antes dos 40 elas arrumam o segundo e definitivo.
A grande maioria tem dois filhos. Geralmente um casal. As que ainda não tiveram filhos se tornam um perigo, quando estão ali pelos 35. Periga pegarem o primeiro quarentão que encontrarem pela frente. Elas querem casar.
Elas talvez não saibam, mas são as mais bonitas das mulheres. Acho até que a idade mínima para concurso de miss deveria ser 30 anos. Desfilam como gazelas, embora eu nunca tenha visto uma (gazela). Sorriem e nos olham com uns olhos claros. Já notou que elas têm olhos claros? E as que usam uns cabelos longos e ondulados e ficam a todo momento jogando as melenas para trás? É de matar.
O problema com esta faixa de idade é achar uma que não esteja terminando alguma tese ou TCC. E eu pergunto: existe algo mais excitante do que uma médica de 32 anos, toda de branco, com o estetoscópio balançando no decote de seu jaleco diante daqueles hirtos seios? E mulher de 30 guiando jipe? Covardia.
A mulher de 30 ainda não fez plástica. Não precisa. Está com tudo em cima. Ela, ao contrário das de 20, nunca ficou. Quando resolve, vai pra valer. Faz sexo como se fosse a última vez. A mulher de 30 morde, grita, sua como ninguém. Não finge. Mata o homem, tenha ele 20 ou 50.
E o hálito, então? É fresco. E os pelinhos nas costas, lá pra baixo, que mais parecem pele de pêssego, como diria o Machado se referindo a Helena, que, infelizmente, nunca chegou aos 30?
Mas o que mais me encanta nas mulheres de 30 é a independência. Moram sozinhas e suas casas têm ainda um frescor das de 20 e a maturidade das de 40. Adoram flores e um cachorrinho pequeno. Curtem janelas abertas. Elas sabem escolher um travesseiro. E amam quem querem, à hora que querem e onde querem. E o mais importante: do jeito que desejam.
São fortes as mulheres de 30. E não têm pressa pra nada. Sabem aonde vão chegar. E sempre chegam.
Chegam lá atrás, no Balzac: ‘A mulher de 30 anos satisfaz tudo’.
Ponto. Pra elas.
(*) Publicado na Revista Época em 30 de janeiro de 2.004 – Ilustração: Rodrigo Pereira
A mulher de 40
Por Mário Prata
Não tenho estatísticas em mãos e nem sei se existe alguma coisa a respeito das mulheres na faixa dos 40 ao 50, sobre o seu estado civil. Mas se eu for pensar nas minha amigas que estão por aí, posso afirmar que a grande maioria está separada. E com filhos. E achando que nunca mais vão conseguir outro homem. E se acham horrorosas.
Como eu sou de uma faixa um pouquinho acima, vou meter meu bedelho (que palavrinha mais feia) entre as quarentonas (pra começar, elas odeiam a palavra quarentona, saudosas dos trintinha. E temem o inevitável: cinqüentona. Sexagenária elas não ousam nem pensar. Lembra aquelas tias que elas achavam carcomidas pelo tempo e pela memória).
Eu dizia que elas se acham acabadas. Porque elas não se consideram achadas? A mulher de quarenta tem várias vantagens. A primeira é que já tiveram os filhos que tinham que ter e a gente não precisa se preocupar com a possibilidade de elas quererem mais um (aliás, conheço uma quarentinha – olha que simpático – que já é avó), justamente com a gente que não estamos mais a fim de trocar fralda, ir na reunião de pais e filhos e vigiar a maconha na adolescência. Esta parte elas já resolveram.
Outra vantagem é que elas sabem que Cinema Novo não é aquele cineminha que inauguraram outro dia no shopping. Cantam as músicas dos Beatles com a gente e também não sabem muito bem quem são Oásis. Lembram até da copa de 70, no México e algumas delas chegaram a ver o Pelé jogar. Sabem até a medida da Marta Rocha.
Sexualmente sabem tudo. E como. Tiveram mais homens que possa imaginar nossa filosofia. Aquele negócio de ter orgasmo assim ou assado (assado é péssimo) elas já resolveram há mais de uma década. E já viveram o suficiente para se darem ao luxo de filosofarem sobre a vida, sem aquelas bobagens que as meninas de vinte pensam e dizem e, ás vezes, até escrevem em diário.
Conseguem aprender a mexer no computador com muito mais eficiência que as mulheres de 60 (com todo o respeito, minha senhora). E não perdem parte do dia atrás da alma gêmea na internet, como fazem a turma de 20 e de mais de 50.
Neste momento, por exemplo, o computador acaba de me avisar que chegou uma mensagem nova. Fui olhar e era mais uma daquelas perguntando se eu quero aumentar o tamanho do meu pênis. Tem até a foto de um aparelho que “infla”. Você já pensou, na hora de fazer sexo, você abrir o guarda-roupa, tirar aquela geringonça (a máquina, não a sua) e dizer: um momentinho que você vai ver o que é bom pra tosse? Não, as mulheres de 40 há muito tempo deixaram de se preocupar com o tamanho da geringonça. Com elas é “menas” preliminar e mais ação. A mulher de 40 vai direto ao assunto. Eles já perceberam que podem comer e não apenas dar. As mulheres de 40 comem como gente grande, comem como homem. E a gente dá, com prazer.
A mulher de 40 já tomou aqueles porres memoráveis de quando tinha trintinha. Ela sabe beber. E ainda puxa um sem ficar rindo feito uma principiante de 20 e sem a culpa da turma de 50. Dois tapinhas e vai para o cinema. Relaxadona, dona.
Ah, a mulher de 40 no verão chega ao seu esplendor debaixo do sol. Sabe a medida certa da sua cor e do seu suor. Sai da água como se saísse de um aquário, como se desfilasse em cima da água. Não acampa mais, nem fica em pousada sem internet. A mulher de 40 sabe onde quer ficar. Gosta de um confortinho.
Ela se pinta pouco, ao contrário das de vinte e das de 50 e 60. No máximo um batom básico. Não se enchem de perfumes e pode pintar o cabelo até de vermelho que lhe cai bem. Não fica ridículo com as de 20 ou 50.
Enfim, a mulher de 40 sabe tudo e não está nem aí.
Por que então você sofre, mulher? O mundo não está perdido, está achado. Você é o melhor papo da praça. Você é o que há.
As mulheres de 50 e 60
Por Mário Prata
Olha eu aqui, outra vez. O bronca das mulheres desta faixa foi maior do que a minha decisão de não falar delas. E não ia falar mesmo, até que uma, de Maceió, me convenceu:
- São as mulheres da sua geração! Encara!
É verdade, dona Geórgia. Como deixar de lado tantas Marias? É Maria Lúcia, Maria Eunice, Maria Teresa, Rosa Maria, Maria do Carmo, alguma (mais velhas) Maricotas, outras Maria Regina, sem falar nas Tânia Maria e tantas Zezés que na verdade eram Maria José.
E, como a mais famosa das Marias, casaram virgens. Perder a virgindade era pecado contra uns três ou quatro mandamento. Iriam diretamente para o inferno, sem nem mesmo um pit stop no purgatório. Havia algumas – pouquíssimas – que se deixavam seduzir, ou seja, deixavam o noivo “fazer mal a elas”. Mal??? E ai delas se não casassem com o malfeitor. Ficavam eternamente conhecidas na cidade como “fáceis”e aí bye-bye casamento.
Talvez tenha sido as duas últimas gerações de brasileiras que foram criados à imagem da mãe e continuaram suas vidas de casadas exatamente igual ao modelo materno. Exatamente.
Foram criadas com três finalidades (isso, lá pelos anos 40 e 50): debutar, fazer o curso normal (para ser professora) e arrumar um bom partido. Não partido político, mas econômico. Naquele tempo, bom partido eram os médicos, engenheiros, dentistas, advogados, funcionários do Bando do Brasil e, é claro, os herdeiros. Principalmente os de fazendas.
O mais incrível daquelas meninas é que se transformavam um mulheres, em senhoras velhas, no dia seguinte ao casamento. Trocavam a calça faroeste pelo tailleur – cinza, de preferência -, o Elvis pelo Sinatra e, depois pela música de elevador, saíam para ver o comércio e faziam visitas, acompanhadas pelos maridos.
Eu observada todas aquelas minhas amigas se casando e não mais nos dando dois beijinhos. Como disse o Tenório de Oliveira Lima, as mulheres desta geração não casavam com o marido, mas sim com o casamento.
E foram para a cozinha. Dar ordens para as empregadas, exatamente como suas mães. Poucas enfrentaram o marido. Trabalhar fora, nem morta. Ou talvez morta.
E hoje, são mulheres infelizes? Não, nada disso. Estão todas numa boa. As que resolveram viver igual às suas mães não sabem o que perderam dos anos 60 pra cá. E uma outra boa parte partiu pra briga; se separaram e viraram até prefeitas, senadoras, chefona da Globo. Grandes escritoras, fotógrafas, executivas. Algumas, lésbicas.
O mais interessante é que estas mulheres – agora avós – nenhuma dela ensina as netas, como foram educadas pelas suas mães. São todas jovens avós que dão toda a liberdade para as netas. Como se elas, agora com 50 0u 60 estivessem, finalmente, e sem culpa, se reeducando.
São bonitas, as mulheres da minha idade. Mas como sofreram nas mãos dos seus maridos da minha geração. Pouco sobreviveram às nossas idiotices e idiossincrasias. Mas as que enfrentaram o estilo de casamento dos seus pais (modelito começo do século XX), andam por aí, de cabeça erguida, levando netinhas para comer doce fora de hora. E malhando legal.
Mas o momento da vida que estas senhoras hoje entre 50 e 70 anos, jamais esquecem, foi o momento do Baile de Debutantes: o momento mais feliz da vidas dela foi aquele dia (a rigor, mesmo nas pequenas cidades do interior) e aquela foto dela de branco, vestido longo, descendo uma escadaria em curva, segurando num corrimão.
Como se, depois do último degrau, ela não precisasse fazer mais nada na vida.
E foram felizes para sempre?
Artigo publicado pela Revista Época
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