Obra-prima do dia (Semana das grandes bibliotecas)
Por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa (*)
Arquitetura: Biblioteca da Abadia de Melk (século XII)
A Abadia de Melk, ou Convento Melk, é uma das mais célebres entre as escolas monásticas. Fundada em 1089 quando Leopoldo II, Margrave* da Áustria, família que dominava aquela região até a ascensão dos Habsburgos, doou um de seus castelos aos monges beneditinos da Abadia de Lambach (*título do antigo Império Germânico).

No século XII os monges criaram ali uma escola e a partir desse momento a biblioteca ficou muito conhecida pela sua imensa coleção de manuscritos. Em seu scriptorium foram copiados centenas de manuscritos com iluminuras preciosas.
No século XV a abadia tornou-se o centro da Reforma Melk, movimento que revigorou a vida monástica na Áustria e no sul da Alemanha.
Tudo no Convento impressiona. É realmente estupendo. O hall de acesso, todo em mármore, é um espetáculo. Suas paredes são em estuque de mármore, as esquadrias e o piso em mármore da província de Salzburg. Vale à pena descrever seu teto, pintado por Gaetano Fanti (1687/1759): Palas Atena (Minerva) numa biga puxada por dois leões, simbolizando a sabedoria e a moderação, tem a ajuda de Hércules, que está à sua esquerda, para derrotar o cérbero das três cabeças: o inferno, a noite e o pecado.

Mas os dois legados mais importantes dessa construção barroca são a Abadia, com seus belíssimos altares, afrescos e imagens, e a Biblioteca, que guarda incontáveis manuscritos, incluindo uma admirável coleção de partituras.
Devido à sua fama Melk conseguiu escapar da dissolução por várias vezes; apesar de invadida e agredida, acabou sempre por resistir. Do reinado de José II, passando pelas invasões napoleônicas até o surgimento do nazismo, quando a escola e a abadia foram confiscadas pelo Estado, Melk sofreu mas resistiu. Aos ditadores não agradam as bibliotecas…
Aos apaixonados por livros, extasia a coleção de livros históricos que preenchem a biblioteca. Ao entrar no salão, aquelas prateleiras que vão até o teto, ocupadas por encadernações deslumbrantes, são de tirar o fôlego. Toda a decoração da biblioteca acompanha os tons dourados do couro trabalhado em ouro: o ambiente resplandece.
O valor artístico de sua decoração mostra o apreço que os monges tinham pela biblioteca. No teto os afrescos de Paul Troger (1731/32) fazem um retrato alegórico da Fé. Ela está no centro, cercada pelas quatro virtudes cardeais: Sabedoria, Justiça, Coragem e Moderação.
As quatro esculturas em madeira, uma de cada lado das duas portas principais, representam as quatro faculdades: Teologia, Filosofia, Medicina e Direito.
Ao todo são doze salas que guardam cerca de 1888 manuscritos, 750 incunabula, 1700 livros do século XVI, 4500 do século XVII e 18000 do século XVIII. Juntando com os livros modernos, são cerca de 100.000 volumes. No salão principal (abaixo), estão aproximadamente 16000 livros.

Curiosidade: sua influência e reputação como centro de aprendizado e cultura foram homenageados por Umberto Eco em seu admirável “O Nome da Rosa”. A um de seus personagens, na realidade o narrador da história, ele deu o nome de Adso von Melk, como um tributo à abadia e à sua riquíssima biblioteca.
Melk, Vale de Wachau, Áustria
(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa publica seus artigos e crônicas originalmente no Blog do Noblat (não deixem de conhecer: o mais influente jornalista no campo político do País).
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