Não me leve a mal..
Por Luciana Gonçalves (*)
Hoje é carnaval, não me leve a mal…
Peço licença para deixar desfilar, na avenida da minha memória, os blocos carnavalescos do passado, episódios inesquecíveis daquele que foi o clímax da juventude dourada dos anos 80. Quero jogar como coloridas confetes, as lembranças alegóricas de um tempo em que o romantismo reinava absoluto nos salões da cidade e hoje adormece em retratos guardados, repletos de sorrisos e de um glamour melancólico que a modernidade veio aos poucos nos roubando.
Tudo começava muito antes, meses antes daquela temporada alegre do mês de fevereiro. Ainda restavam dias felizes de férias quando, já sonhando com a festa no salão, desenhávamos fantasias e planejávamos blocos, convidando os amigos para compor personagens da mais pura criatividade e alegria.
Queríamos incorporar o brilho das lantejoulas e a banalidade fugaz das pequeninas confetes que, de tão comuns, faziam a festa no ar e depois se amontoavam no piso, salpicando de estrelas nosso chão, como diria o seresteiro.
Era época de festa no comércio. As máscaras decoravam as portas das lojas e as serpentinas, anunciavam o reinado de Momo, com sua corte invadindo o cotidiano comum da cidade pequena, ansiosa da festa. No calor das tardes de fevereiro, passeando na antiga Batista, íamos de loja em loja procurando aquela infinidade de objetos que nos introduzia, aos poucos, no espírito do carnaval. Tules coloridos, babados de rendão, metros e metros de cetim, tubinhos de paetês, saquinhos de miçanga, tudo aos montes para completar aqueles inumeráveis desenhos bordados das fantasias.
As tardes de bordado… quantas horas eram somadas em que bordávamos as roupas coloridas? Perdíamos a noção do tempo, apenas imaginando o efeito daquela peça a completar nosso sonho de Colombina encontrando o Pierrot depois que um ano se passou.
Os dias eram marcados no calendário e quando o sábado de carnaval chegava, a rua do comércio ainda fervia com os foliões procurando chapéus de marinheiro, lenços de pirata, colares de flor e cortes de tecido florido para os havaianos improvisados chegarem a contento, à noite, nos salões. Ninguém escapava da fantasia. O traje era silenciosamente obrigatório e quem não se vestia para o carnaval ficava literalmente com as “pernas de fora”. Até os “macacões de posto de gasolina” viravam moda alegórica.
O romance estava no ar quando a Turma da Banda dava os primeiros acordes do Hino Nacional, com o salão ainda vazio, para recepcionar a corte imperial da alegria em tom de nacionalismo surreal. A diretoria do Bauru Tênis Clube sempre estava reunida, em frente ao palco, conferindo os primeiros acordes da banda sensacional que ganhou inúmeros troféus de animação e harmonia perfeita.
Subíamos correndo a rampa enfeitada do BTC. Não havia tempo a perder e a música já se ouvia desde a quinze de novembro, rua calma onde geralmente deixávamos o carro até a madrugada chegar. Ainda ouço o eco daqueles metais afinados e o swing eletrizante dos tambores convocando o ritmo dos nossos corpos tão ansiosos pelo calor da animação.
A primeira festa era para os olhos: a cada ano uma surpresa, quase sempre proporcionada pela criatividade sublime do Paulinho Keller que adornava o salão com novidades alegóricas inimagináveis. O fundo do mar, o paraíso, as selvas tropicais da áfrica, o reino encantado das mil e uma noites. Os temas escolhidos enfeitavam a nave do BTC convidando os foliões para soltarem as amarras de suas imaginações rumo às profundidades dos sonhos infantis.
Já inebriados pelo tom cenográfico da festa carnavalesca, o momento era de vasculhar os salões a procura dos Harlequins, das Salomés, dos Sheiks, das Baianas, dos Piratas, das Melindrosas, dos Cowboys… A festa da procura, a festa do encontro que às vezes coincidia com um verso romântico da marchinha que cantarolava: “a mesma máscara negra esconde o meu rosto e eu quero matar a saudade….”
Cada música que soava era um convite. A banda nos convidava para a saudade, para a glória, para a esperança da vida, para o destino do amanhã, para o desembarque na passarela do maior show da Terra. Todos se sentiam os “donos da festa” no meio daquela nova dimensão em que mergulhávamos torpes de entusiasmo e adrenalina.
Os rostos, sempre iluminados de evidente felicidade, estampavam as emoções típicas do carnaval. Casais se formavam, pares se despediam, amigos se abraçavam cantando e sempre alguém nos abanava com os famosos leques de propaganda de bebida, livrando-nos do calor febril do clube quase sempre lotado.
E assim se passavam os quatro dias e as quatro noites. Entre um baile e outro, a obrigatória festa das matinês a celebrar a participação do sol na tarde carnavalesca das crianças e no inesquecível espetáculo do banho à fantasia.
Eu sempre relutei muito a deixar os salões naqueles tempos. Já no adiantado da hora da última noite, a família indo embora, para me resgatar da folia, dizia: Chega! Ano que vem tem mais !
No fundo do coração, com uma inexplicável melancolia eu já pressentia: como tudo que é muito bom acaba – um dia essa festa vai acabar.
E, no entanto, é preciso cantar. Mais que nunca, é preciso cantar. É preciso cantar pra alegrar a cidade.
(*) Luciana Gonçalves, a autora, é Profissional de Telecomunicações.
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