Cápsula do tempo

02/07/2012 por

Por Elton Simões (*)

Especulo que dentistas e médicos façam parte de uma sociedade secreta que estabelece as regras de atendimento nos consultórios. Certamente, tal organização proibiria terminantemente a presença, nas salas de espera, de revistas atuais, ou qualquer material de leitura recém-publicado. Nestas salas de espera são proibidas as noticias atuais.

Talvez por isso, consultórios de dentistas e médicos parecem capsulas do tempo. São locais onde permanecem registros arqueológicos das informações sobre tempos que já se foram, impressos em revistas caprichosamente arrumadas e catalogadas nas mesas de centro das salas de espera.

A espera pelo atendimento na presença de revistas antigas propicia aos pacientes a oportunidade única de inteirar-se das noticias desatualizadas. É assim, lendo revistas velhas, que os pacientes podem se informar sobre as previsões de ontem, as quais já deveriam ter se transformado na realidade de hoje.

Depois de algum tempo em uma cápsula do tempo, a volta aos tempos atuais requer cuidado. Para evitar maiores choques com a realidade, é importante estar preparado para a inevitável constatação de que previsões raramente estão certas. Publicações atuais explicam, com detalhe e rigor cientifico, as razoes pelas quais as previsões de ontem estão erradas hoje.

Dizem que as metas da ciência são descrever, explicar, prever e controlar. Isto implica que não somente é possível prever o futuro com precisão, como também que, prevendo-o, pode-se controlar o resultado. Infelizmente, quando se trata de seres humanos, a realidade teima em desviar desta premissa.

Prever não é sinônimo de desenhar um mapa infalível sobre os caminhos e descaminhos do futuro. Previsões não informam com precisão a localização, direção, ou realidade futuras. Previsões simplesmente fornecem os parâmetros necessários para avaliação da trajetória.

Prever é útil. Prever é planejar. Previsões fornecem cenários nos quais se pode, pelo menos por algum tempo, depositar as crenças sobre o futuro. Previsões fornecem as hipóteses sobre as quais é possível desenhar os cenários futuros. Sem isto, é impossível influenciar o destino da jornada.

Especular sobre cenários futuros contribui para o sucesso mesmo que estes cenários estejam errados. Prever é criar condições para avaliar e controlar os inevitáveis desvios de trajetória. Prever é estabelecer um ponto de referencia aos quais os eventos podem ser comparados e o curso corrigido.

Previsões não são mapas. São bússolas.

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.

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Palavras

07/05/2012 por

Por Elton Simões (*)

O tempo ensina muita coisa. Uma das mais importantes parece ser apreciar e dar valor às coisas simples da vida. Eu, por exemplo, gosto de palavras. Para mim, poucos prazeres se comparam a ler um bom livro, diante de uma xícara de café.

Ler um bom livro é a possibilidade de sonhar e imaginar significados para palavras. É viajar e conhecer sem sair do lugar. É aproveitar tudo aquilo que as palavras têm a oferecer.

Palavras têm vida própria. Uma vez ditas, as palavras pertencem aos ouvintes (ou leitores). Estes, por sua vez, interpretam as palavras baseados em suas próprias percepções e experiências. Como camaleões, palavras têm diferentes significados dependendo do tempo e contexto em que são usadas.

Por isso, aquilo que é entendido por quem as lê ou ouve, dificilmente corresponde exatamente ao que pretendia aquele que as disse ou escreveu.

Neste sentido, palavras são, na melhor das hipóteses, mensageiros imperfeitos de pensamentos e sentimentos. A diferença entre a intenção de quem disse (ou escreveu) e interpretação de quem ouviu (ou leu) está na raiz de boa parte dos conflitos.

Nas ultimas décadas, tem crescido a percepção de que os indivíduos, ao se comunicarem mais eficientemente, são capazes de resolver suas diferenças pacifica e rapidamente. Nesses casos, a mediação tem sido vista como uma das formas mais eficientes de resolução de disputas.

Mediação é a tentativa de melhorar a eficiência do uso da palavra como mensageira das ideias e sentimentos de cada parte envolvida na disputa.

Na mediação, as partes envolvidas na disputa devem, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade da busca por uma solução; e estar dispostas a compreender as motivações das outras partes.

O papel do mediador é ajudar a esclarecer, através de perguntas, as verdadeiras origens do desentendimento: os interesses de cada parte.

O mediador separa o problema das pessoas de sorte que as partes possam construir uma interpretação comum dos fatos e utilizar as palavras como solução, e não como causa, do conflito.

Mediação implica em reduzir a distância entre o que é dito e o que é entendido. Se isso acontecer, a disputa pode ser resolvida.

Na maior parte das vezes, diferenças não são incompatibilidades. O simples conhecimento das diferenças expõe soluções possíveis e compatíveis. São as palavras, sempre elas, que apontam o caminho.

Mediação é ajudar as partes a ouvir com mais atenção. Afinal, não ouvimos aquilo que é dito. Ouvimos aquilo que estamos preparados para ouvir.

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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‘In varietate concordia’ (*)

02/04/2012 por

‘In varietate concordia’ (*)

Por Elton Simões (*)

Não gostaria de viver em um mundo onde todos concordam sempre com tudo. Gosto dos debates, das duvidas, e dos dilemas. Acho que o mundo seria muito mais feio se fosse uniforme, unanime e perfeito.

Admiro aqueles que discordam. Que tem ideias próprias. Que duvidam. Que criticam. Que defendem suas ideias ainda que elas não reflitam o que a maioria crê. Admiro aqueles que, em sua jornada, não permitem que dúvidas e dilemas se transformem em limitações. Gosto do diferente, do diverso e do choque dos dois. É a diversidade e o debate que permitem a superação das dificuldades e a construção de uma realidade melhor.

Sempre desconfiei da unanimidade. A unanimidade é inflexível porque impede a discordância. Busca a perfeição através da eliminação daquilo que considera imperfeito. Nada novo nasce dela. Ela elimina o diverso, combate o novo, mata a critica, e impede a transparência.

A unaminidade pode parecer confortável, mas pode ser mortal. Ela é a concordância sem resistência. Sem critica. Sem debate. Sem diversidade. Como se existisse espaço apenas para uma opinião, um ponto de vista, uma verdade.

Como se a unaminidade fosse inevitável. As grandes certezas coletivas são a véspera dos grandes desastres.

Onde há unaminidade, não existem dilemas, duvidas, e debates. Existe apenas uma versão sem cor, poesia ou beleza. Ela está presa ao passado. Tem compromisso com a preservação das coisas na maneira como estão. Não tolera a contestação. Sem contestação, os olhos não se voltam para o futuro. Onde falta debate, falta luz.

A unaminidade não permite a diversidade, a escolha. É apenas a ilusão de que, se todos acreditam, deve ser verdade. Ilusão apenas. Ainda que doce.

Duvidas, dilemas e debates são as luzes que permitem ver o que nos aguarda mais a frente. A diversidade é o combustível da chama que gera esta luz. Diversidade de pessoas, ideias, opiniões, conceitos, estilos de vida, enfim, de tudo.

Quando as circunstancias mudam, quando a vida pede, é a diversidade que nos salva. A salvação sempre vem na forma de ideias e conceitos novos. Vem das coisas e pessoas que ontem eram consideradas minorias diferentes e divergentes.

O que é considerado diferente hoje pode ser a solução dos problemas de amanhã. A diversidade é a grande reserva de recursos da humanidade.

Nelson Rodrigues um dia disse que toda unaminidade é burra. Não concordo. A unaminidade não é burra. Ela é apenas o resultado ou sintoma da cegueira coletiva.

(*) Unidos na Diversidade

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.

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Déficit Democrático

19/03/2012 por

Déficit Democrático

Por Elton Simões (*)

Do lado negativo, os aeroportos parecem ser uma espécie de guia Michelin ao contrario. Eles reúnem, sob o mesmo teto, os piores restaurantes do mundo. Desconheço, mas talvez haja explicação cientifica ou econômica para o fenômeno.

Do lado positivo, aeroportos são lugares onde, às vezes, entre uma conexão e outra, o acaso me salva do tedio e encontro amigos que não vejo faz tempo. Aconteceu comigo recentemente. Encontrei um amigo enquanto esperava um avião que parecia nunca chegar.

Depois de alguns minutos de conversa, meu amigo me perguntou por que eu havia resolvido estudar resolução de conflitos. Esta pergunta sempre me faz pensar. Acho que este meu interesse no assunto vem de uma serie de crenças pessoais. Acredito que o ser humano já nasce com a capacidade e o potencial de criar conflitos. Resolver conflitos requer aprendizado.

Conflitos fazem parte do dia a dia. São os motores do avanço. Propiciam a troca, o questionamento e a evolução das ideias. Sem conflito, tudo é estático. O sucesso ou o fracasso de uma sociedade são uma função da capacidade de colaboração de seus cidadãos, e, para isso, cada sociedade precisa criar mecanismos e sistemas eficientes de resolução de conflitos. É da solução dos conflitos que nascem as civilizações.

A democracia parece ser o sistema de resolução de conflitos mais eficiente até agora inventado. Ela propicia uma maneira pacifica de discutir as questões importantes, propor, escolher e implantar soluções.

Apesar disso, parece haver certa desilusão com os sistemas democráticos. A politica tem sido vista de maneira pejorativa. Os eleitores estão apáticos. Os cidadãos não se sentem representados. A relação entre eleitor e eleito parece ter se enfraquecido. É o que os acadêmicos têm chamado de déficit democrático.

Um dos grandes desafios do mundo moderno parece ser o aprimoramento da democracia através da reinvenção ou reforma dos sistemas políticos de maneira a que ele passe (ou volte) a refletir os anseios da sociedade.

O paradoxo é que reformas politicas não acontecem sozinhas. Elas requerem o envolvimento e participação ativa da sociedade na vida politica, o exercício da cidadania e o fim da apatia. Sem isso, a democracia é, no máximo, uma pálida ilusão travestida de realidade.

Alguns físicos acreditam que existem infinitos universos paralelos onde todas as realidades possíveis acontecem. Em nenhum desses universos existe democracia sem a participação ativa da sociedade na atividade politica.

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca

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Muros e Pontes

12/03/2012 por

Muros e Pontes

Por Elton Simões (*)

Sou um ser urbano. Confesso. Sinto prazer em sentar em um café para ler um jornal, um livro ou simplesmente observar as pessoas que passam. Aprecio andar em paz por ruas seguras. Encantam-me as cidades onde as janelas não têm grades e as casas não são cobertas por muros.

A ausência de muros em uma cidade indica que seus habitantes encontraram maneiras de conviver pacificamente. Elas optaram pelas melhores soluções e não pelas mais fáceis. Construíram pontes ao invés de muros.

A construção de muros começa na mente e no coração. Ações e palavras criam a ilusão de que muros são essenciais para a sobrevivência em comunidade. É crença de que a vida em comunidade somente é possível se existir a separação física de seus habitantes. É a aposta na segregação. Antes de agredir a vista, os muros se constroem no espirito.

A paz se constrói usando a energia da construção de muros na construção de pontes que possam restaurar o relacionamento humano. Muros separam. Pontes unem. É através de palavras que se constroem muros e pontes imaginários. Na construção de muros ou pontes, três palavras parecem ter muita importância: “mas”; “e”; e “se”.

“Mas” reflete a impossibilidade, o obstáculo, a objeção, sem, entretanto, necessariamente apontar uma saída. “Mas” limita a comunicação, afasta as pessoas, impede o acordo. “Mas” traz a desconfiança e descrença. É palavra que fecha ouvido e separa as pessoas. “Mas” é parte do cimento dos muros.

“E” complementa o pensamento. Indica que a comunicação esta funcionando. Contribui para o entendimento do problema. Abre portas e contribui para a troca de ideias. Pode, em muitos casos, substituir o “mas” sem qualquer perda de conteúdo da mensagem.

É por habito e não por necessidade, que, muitas vezes, o “mas” substitui o “e”. “E” é parte do cimento das pontes.

“Se” é parte da solução ou do problema. Na dose certa, “se” dá estrutura à comunicação e, com isso, pode restaurar os relacionamentos. Indica o caminho. Ilumina as necessidades. Sinaliza uma solução. Faz olhar para frente e aponta para possibilidades, futuro e solução.

Na dose errada, impossibilita a convivência e a comunicação. “Se” dá consistência a pontes ou muros.

As cidades são mais belas quando não precisam de muros. Quando somente pontes são necessárias. Para isso, seus habitantes precisam de poucos “mas”, muitos “e” e alguns “se”.

É a integração de seus habitantes que leva à melhoria da qualidade de vida nas cidades. A verdadeira paz é feita com pontes, e não com muros.

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca

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Gente Honesta

05/03/2012 por

Gente Honesta

Por Elton Simões (*)

Nos sábados chuvosos e frios, gosto de ficar em casa durante o dia. Gosto da sensação do “dolce far niente” que vem da combinação do descanso com a ausência de compromissos.

A TV é a companheira inseparável da ociosidade moderna. Em um desses sábados, assisti uma reportagem sobre uma pessoa que achou um envelope cheio de dinheiro em um trem e o devolveu ao dono.

Talvez porque falte noticias nos fins de semana, matérias como estas ganhem destaque nestes dias. De uma maneira ou de outra, sempre achei interessante que estas narrativas sejam construídas a partir da premissa de que devolver o dinheiro não seria a regra, mas sim, a exceção.

Em outras palavras, a gente assume que, se ninguém estiver olhando, as pessoas, em sua maioria, agirão erradamente.

Parece existir pouca evidencia de que as pessoas, em regra, sejam desonestas. Todos os dias, a esmagadora maioria da população, na esmagadora maioria dos casos cumpre com seus deveres.

Faz-se o certo sem se considerar a possibilidade de recompensa, punição, ou mesmo maneiras de burlar a ética. Para o cidadão comum, fazer o certo é a regra. Em regra, as pessoas são éticas. Enfim, em regra, as pessoas fazem o certo.

Individualmente, agir eticamente parece ter a ver com a educação que cada um de nos recebe dos pais e das instituições que nos cercam. O sentimento de vergonha, aqui, pesa muito. Pessoas que foram educadas para sentir vergonha quando desviam da ética, terão mais dificuldades em dela desviar.

Coletivamente, parece existir uma relação entre a coesão social e a ética. Sociedades em que os cidadãos reconhecem que seus atos impactam aos outros e vice-versa, tendem a ter comportamentos mais éticos. É a noção de que cada cidadão é parte de um todo e, consequentemente, precisa fazer a sua parte.

Alternativamente, quanto mais individualistas os cidadãos são, menos compromisso com a ética eles tem. Esta é e principal conclusão de estudos recentes realizados pelas Universidades de Toronto e Berkeley (“Higher social class predicts increased unethical behavior”, publicados na revista PANS de Fevereiro, 2012).

O Comportamento ético vem do reconhecimento individual de que garantir relações fortes e duradouras melhora a vida de cada cidadão. Portanto, agir eticamente requer acreditar que o bom nome e a credibilidade tem valor. Como disse William Shakespeare: “aquele que rouba minha carteira rouba lixo. Aquele que rouba meu bom nome rouba o que não lhe faz mais rico, mas me torna mais pobre”.

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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Para você que lá de cima vê a gente melhor

27/02/2012 por

Para você que lá de cima vê a gente melhor

Por Elton Simões (*)

Caro Armando,

Em Março próximo se completará mais um ano desde que o mundo ficou mais triste, mais feio e menos inteligente. Serão mais 365 dias sem poder contar com sua presença aqui na Terra.

Você sabe que sou ateu e, portanto, não acredito na continuidade da existência humana após a morte. Torço para que eu esteja errado e que você, ai de cima, receba esta minha mensagem. Às vezes, estar errado é bom.

Quando você andava cá embaixo, tive a oportunidade (ou talvez a pretensão) de ser seu colega e amigo. Sempre admirei várias de suas qualidades. A maior delas era o seu talento para desmanchar no ar as tensões e conflitos entre as pessoas que te cercavam. Você sempre trouxe harmonia. Talvez tenha sido esta uma das minhas inspirações para me dedicar ao estudo da resolução de conflitos.

De certa maneira, sou um estudante em segunda época. Provavelmente, se tivesse prestado mais atenção em você, não precisaria dos livros. Compreendo agora que os conflitos estarão sempre presentes na vida e que, se bem trabalhados, são parte importante da experiência humana. São os conflitos que nos levam para frente, mas para isso, eles precisam de alguma maneira ser endereçados. Tudo isso, você já sabia e praticava.

Por aqui me ensinaram que o que você intuitivamente praticava se chama mediação. Aprendi que, para mediar, é necessário ser imparcial e compreender que a chave da solução está sempre na comunicação entre as partes, e, para isso, o mediador precisa aprender a ouvir cada uma das partes, interagindo com elas de maneira clara, franca, e não acusatória.

O mediador precisa, em suma, ser o intermediário confiável entre duas partes que não tem, em principio, confiança uma na outra.

Fazer as perguntas certas ilumina o caminho para a solução do problema e diminui a hostilidade. Você fazia tudo isso como ninguém. Você já compreendia que, por trás de posições aparentemente incompatíveis em cada conflito, há interesses que, se identificados e endereçados, poderiam ser conciliados.

Queria que você estivesse por aqui para eu poder discutir estas coisas todas com você e, quem sabe, aprender um pouco mais. Conforme disse no inicio desta carta, torço para que você esteja ai em cima nos assistindo da arquibancada. Se estiver, por favor, arranque desta mensagem um abraço apertado deste seu amigo.

Cá embaixo, gente como você está em falta.

Saudades,
Elton Simoes

(Ao meu amigo Armando (1927-2010), que lá de cima vê a gente melhor).

(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca

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Receita de Bolo: Como Criar um Conflito Insolúvel

21/02/2012 por

Receita de Bolo: Como Criar um Conflito Insolúvel

Por Elton Simões

1. Junte na mesma questão valores, interesses e/ou identidades diferentes. Distorça-os a gosto e misture-os bem até que eles sejam percebidos como incompatíveis.

2. Escale o conflito com o objetivo de satisfazer apenas as suas necessidades e desconsiderando as necessidades da outra parte.

3. Transforme a outra parte em adversário.

4. Use coerção ou violência para impor custos ao adversário.

5. Mobilize-se. Devote tempo, recursos e esforços para encontrar uma solução que satisfaça 100% dos seus objetivos, sem levar em consideração os interesses do adversário.

6. Transforme o adversário em inimigo.

7. Alargue o conflito e introduza aos poucos outras pessoas ou grupos não diretamente relacionados à discordância original de maneira a aumentar o numero de aliados. Utilize partes não relacionadas ao conflito para dar mais consistência e aumentar poder sobre o inimigo.

8. Polarize. Introduza novos assuntos ao conflito de maneira a torná-lo mais complexo e aumentar a área de atrito. Importante: desconsidere completamente o mérito individual de cada um dos assuntos introduzidos. Assuma que o inimigo, por definição, está sempre errado.

9. Torne vencer mais importante do que ser justo.

10. Deixe o conflito crescer até que o relacionamento entre os inimigos esteja muito comprometido.

11. Invista na dissociação com os adversários. Recheie a massa com a mistura da diminuição do contato físico com o inimigo; com a promoção da sua desumanização.

12. Salpique a comunicação com o inimigo com mensagens de coerção e ameaças.

13. Jamais tente entender o ponto de vista do inimigo. Tentativas de comunicação civilizada tendem a diminuir o crescimento da massa do conflito.

14. Cubra o conflito com argumentos unilaterais. Agarre-se a eles e intensifique ações contra o adversário continuamente. Convença-se de que não existe alternativa senão intensificar o conflito.

15. Caia na armadilha: dedique cada vez mais tempo, esforço, recursos ao conflito. Não leve em consideração a eficiência desta estratégia. Pensar em resolução utilizando métodos pacíficos ou comunicação com a outra parte pode resultar na sua redução ou eliminação. A comunicação honesta e racional entre adversários pode acabar com as discordâncias.

16. Sirva muito quente.

Baseado no “Modelo de Dinâmica de Escalação de Conflitos” (LeBaron, M., & Pillay, V. (2006). Conflict Across Cultures: A Unique Experience of Bridging Differences. Boston: Intercultural Press).

 

Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.

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Memórias e Pegadas

16/02/2012 por

Memórias e Pegadas

Por Elton Simões (*)

“Leve somente suas memórias, deixe somente suas pegadas”, avisava uma placa na entrada de uma caverna em um parque que visitei. Era num dia claro de outono. Fiquei pensando, aquela placa me pareceu uma maneira bonita de explicar como talvez seja, de fato, nossa jornada. Talvez, na vida, a gente de fato leve somente memórias e deixe somente as pegadas. Viver é fabricar memórias. Fabricar memórias deixa marcas.

Nas ultimas décadas, colecionamos memórias muito ricas. Vivemos e assistimos à extinção de países inteiros, o fim do comunismo e o fortalecimento da democracia em grande parte do mundo. Vimos e vivemos (pelo menos nos países desenvolvidos) um enorme ciclo de prosperidade e, mais tarde, a maior crise econômica global depois da de 1929.

Viver, entretanto, gera impactos. A vida de cada um de nos deixa rastros na memória e na vida dos outros. São as nossas pegadas. É o nosso legado. É impossível saber com antecedência como se lembrarão de nós. Dependerá de qual impacto teremos tido nas gerações futuras. Hoje, este impacto parece ser enorme. E o balanço nada positivo.

Parece que ficamos mais individualistas, mais cínicos, menos preocupados como as próximas gerações. Olhando exclusivamente com os olhos de hoje, estamos deixando para as futuras gerações uma terra cujos recursos beiram a exaustão. Um mundo onde o sucesso é ainda definido exclusivamente pela capacidade de consumo, apesar da ideia de que as nossas necessidades são infinitas e que elas poderão ser atendidas consumindo recursos naturais igualmente infinitos ser algo que não faz mais sentido.

Nunca a humanidade teve tantas possibilidades de provocar sua própria extinção. Nunca, por outro lado, teve tantas oportunidades de se reinventar. Vivemos a era da repactuação, na qual se renegocia nosso “contrato” com o planeta e com os seres que o habitam. Nunca tivemos, individual ou coletivamente, tanto impacto potencial no nosso futuro e no futuro de nossa espécie. Corremos o risco de extinção, mas temos a oportunidade de renascer.

Talvez as gerações futuras olhem para a época em que vivemos agora e tenham uma visão positiva do nosso legado. Talvez olhem para trás e reconheçam um período em que a humanidade construiu um mundo melhor, e, com isso, progrediu. Talvez a humanidade consiga não somente preservar as conquistas das últimas décadas, mas também, promover as mudanças necessárias para a sobrevivência das gerações futuras. Para isso, a humanidade precisa lutar. Porque lutar, é um privilégio.

(*) Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (Univesity of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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O Frio e o Cobertor

13/02/2012 por

O Frio e o Cobertor

Por Elton Simões (*)

Não me lembro de ter ouvido ou lido alguém dizer que a sua geração enfrenta desafios menores que as gerações que vieram antes. Todos nós, acredito, fantasiamos sobre um tempo em que a as coisas eram mais simples, os políticos mais honestos e a vida melhor. Em retrospecto, as coisas sempre fazem mais sentido. O passado não lida com incertezas.

Infelizmente, para as gerações atuais e futuras, nostalgia não é uma opção. Neste tempo e era, os países desenvolvidos estão muito endividados; as teorias econômicas não mais explicam a realidade; e os recursos naturais rapidamente se exaurem.

Tudo parece apontar para um período de grandes mudanças sociais e institucionais. Esta é, portanto, uma era de grandes desafios para instituições, países e indivíduos. Estes desafios certamente se darão através de conflitos em todas essas esferas.

Ter e viver conflitos são parte da vida coletiva e individual. Quando bem resolvidos, os conflitos são positivos. Eles são o motor por traz das grandes mudanças. São os conflitos que, para bem ou para o mal, reformam e transformam o mundo humano. Tudo depende de como (e se) desenvolvemos os mecanismos para resolvê-los. Conflitos acorrentam ao passado ou melhoram o futuro, dependendo de como lidamos com eles.

Parece estar havendo uma tendência de mudança na maneira em que conflitos são resolvidos. Parece estar havendo um movimento em direção a um consenso de que não se deve deixar para o Estado a responsabilidade pela resolução de todos os conflitos existentes. Por isso, particularmente nas duas ultimas décadas, o campo de Solução Alternativa de Conflitos (em inglês, Alternative Dispute Resolution ou ADR) tem crescido e se popularizado.

Cada vez mais, pessoas, instituições e grupos em conflito preferem utilizar a mediação, arbitragem ou justiça restaurativa como forma de resolução de suas disputas. Essas formas de resolução de conflito visam resolver disputas de maneira mais rápida e barata, e, ao mesmo tempo, aumentar o grau de satisfação das partes com a resolução alcançada.

Em outras palavras, pessoas, indivíduos, instituições tendem, progressivamente, a assumir a responsabilidade pela solução dos seus próprios problemas. Adotar, melhorar e encontrar novas formas de solução de conflitos parece ser um dos grandes desafios das gerações atuais e futuras.

Sou um otimista. Acredito que o desafio está e continuará sendo vencido. Afinal, como diria Adoniran Barbosa, “Deus dá o frio conforme o cobertor”.

Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.

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Como são frágeis as coisas belas

06/02/2012 por

Como são frágeis as coisas belas

Por Elton Simões (*)

Mitos e ruinas sempre me fascinaram. Talvez porque sejam ecos de sonhos e aspirações perdidas de sociedades formadas por pessoas que viveram em épocas distantes. As ruinas são a manifestação física daquilo que estas sociedades, agora desaparecidas, gostariam de ser e daquilo que efetivamente foram.

Um dia, alguém me explicou que a maior parte das ruinas que encontramos não foi destruída por guerras ou ação humana, mas sim por ação do tempo devido a abandono. Em algum ponto de suas historias, cada uma daquelas civilizações se desfez e os seus habitantes deixaram de acreditar que valia a pena mantê-las. As instituições que antes representavam estas populações perderam a sua credibilidade. Os habitantes daquelas civilizações perderam a fé.

Autores como Matt Ridley defendem que o progresso humano se deve a possibilidade de troca de ideias e a diversidade dessas ideias. O progresso da espécie humana estaria, segundo ele, diretamente relacionado à nossa capacidade de nos conectar e trocar experiências.

O ser humano não deve seu sucesso a iniciativas individuais, mas sim a sua capacidade de se organizar para transformar sonhos individuais em aspirações coletivas. Aspirações coletivas se materializam em projetos comuns que, por sua vez, se realizem na forma de civilizações.

A criação de instituições é uma das mais importantes manifestações de um projeto de civilização. Instituições são os veículos que tornam possível o progresso e a melhoria da vida dos cidadãos representados por elas. Instituições são manifestações físicas de crenças coletivas em um projeto comum. Suas existências estão baseadas exclusivamente na credibilidade que projetam.

Instituições são fortes na medida em que estão próximas e em sintonia com as necessidades dos cidadãos. Para sobreviver, precisam dialogar com a sociedade que representam e nas quais se inserem.

A critica, o controle e o debate constante sobre as instituições são instrumentos para corrigi-las e, com isso, garantir que elas continuem cumprindo seu papel. Quando isto acontece, a sociedade corrige condutas equivocadas, mas abraça, nutre e preserva as instituições.

Quando as instituições se afastam da sociedade, elas perdem a razão de sua existência e, com isso, sua credibilidade. Quando a credibilidade se vai, as instituições morrem. Quando as instituições falham coletivamente, morre a civilização. Ficam os prédios. Dos prédios, sobram ruinas a nos lembrar de como são frágeis as coisas belas.

(*) Elton Simões mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca

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Felicidade

30/01/2012 por

Felicidade

Por Elton Simões (*)

Se, quando nossa civilização desaparecer, os únicos resquícios arqueológicos de nossa existência forem os nossos álbuns de fotografias, os arqueólogos do futuro verão somente rostos sorridentes, festas e comemorações. A conclusão inevitável será que nossa civilização era composta exclusivamente por pessoas felizes. Existiria um elemento de verdade nesta conclusão equivocada: a busca da felicidade é importante na nossa cultura.

A busca da felicidade é tão importante que a declaração de independência dos EUA considera óbvio que todos os homens têm direito fundamentais e inalienáveis ao seu alcance.

Apesar de ser muito especifico em relação aos obstáculos à busca da fecidade pelo Homem daquela época, o documento não define o que é felicidade. Ele apenas proclama o direito do ser humano de persegui-la.

Já os economistas não são tão vagos. Para eles, a vida é a busca de satisfação, que atingimos pelo consumo. Parece que para os economistas, felicidade e consumo são (quase) sinônimos. Portanto, busca da felicidade, na economia, é procurar aumentar o consumo de bens e serviços. Consumir é ser feliz.

Talvez por isso a principal medida do nosso avanço seja a quantidade de bens e serviços que produzimos a cada ano. Estamos sempre focados na velocidade do crescimento do PIB. Consideramos desenvolvidos aqueles países onde seus habitantes podem consumir mais.

Na nossa teoria econômica, não existiriam limites físicos para a expansão do consumo pela humanidade. Ou melhor, os limites físicos, se existirem, são chamados de externalidades: não fazem parte do modelo econômico. Os limites dos recursos naturais da Terra estão entre essas externalidades.

Na medida em que avançamos século XXI adentro, fica cada vez mais claro que os recursos limitados da Terra, e a nossa maneira de ver a economia, estão em clara contradição. Essa externalidade não é mais exceção, mas sim parte da regra.

As limitações da Terra precisam ser analisadas, compreendidas e incorporadas à teoria econômica e à maneira como vivemos. A felicidade através do aumento ilimitado do consumo não mais é possível como objetivo.

A espécie humana se orgulha de ter sobrevivido graças à sua capacidade de adaptação. Nesta era e tempo, precisamos desesperadamente dessa habilidade. Precisamos de novas teorias econômicas que expliquem melhor nossa realidade. Precisamos de outras medidas de felicidade. Realidades novas exigem certezas novas.

(*) Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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Ironia

28/01/2012 por

Ironia

Por Elton Simões (*)

A vida e ironica. Curiosamente, minha inspiracao para o habito da leitura veio de alguem que mal sabia ler: minha avó. Ela nasceu em 1917, na mata da Serra da Bocaina, e passou a maior parte de sua vida em uma pequena cidade, corn os pés fincados entre a Via Dutra e as margens do Rio Paraiba.

Para ela, nascer já era aprender. Ela veio do mato para a cidade em uma hist6ria que nao sei nem por ouvir contar. Na cidade, e1a aprendeu rapidamente que aprender era o comeco de uma vida melhor. Ler era o caminho.

Apesar de ter concluido somente o curso primario, minha avó enxergava as luzes das letras. Nao podendo, pelas circunstancias da vida, ela mesma desfrutar dos beneficios da leitura, ela sempre me incentivou a ler.

Curiosa, sempre que me via corn um livro nas maos, minha avó queria saber do que se tratava o livro. E assim, desta maneira, conversavamos sobre tudo.

Discuti corn ela literatura modema e clássica, hist6ria do Brasil, tratados de direito, textos de filosofia, e técnicas de administração. Ela tinha opinião sobre tudo e comentários originais que eu jamais seria capaz de pensar.

E foi assim que, graças a alguém que nao lia livros, eu me acostumei a sentir o calor do papel nos meus dedos enquanto aprendia uma coisa ou outra nas minhas leituras. Ironica, mesmo, esta vida.

(*) Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (Univesity of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.

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Louco

26/01/2012 por

Louco

Por Elton Simões (*)

Conta uma lenda urbana que um homem chegou a um hospício numa camisa de força, arrastado por dois enfermeiros. Ao chegar, foi prontamente entrevistado pelo psiquiatra para determinar seu grau de sanidade. O homem afirmou categoricamente: “Eu não sou louco!”. A resposta do psiquiatra veio rápida: “Aqui todos dizem a mesma coisa”. Do ponto de vista do louco, o grande paradoxo é que, ao negar sua loucura, ele a confirma. Vida de louco é mesmo uma loucura.

Parecem existir pelo menos dois tipos de pessoas a quem chamamos de louco: o primeiro tipo é o caso clinico que precisa de tratamento psiquiátrico, melhor discutido pelos especialistas no assunto; o segundo é o inovador, aquele que simplesmente discorda da opinião da maioria. A dificuldade é que o ser humano vem sem classificação indicativa que permita separar o insano do inovador. Afinal, como disse Caetano, de perto, ninguém é normal.

Ser inovador dá trabalho. Implica estar disposto a ser, pelo menos por algum tempo, classificado como louco. Inovador é aquele sujeito que sai da norma. É o diferente. É o que não segue os padrões e não vê, ou não considera, as limitações a que a grande maioria dá tanta importância. É alguém que enxerga sozinho aquilo que, embora seja verdadeiro, não é visto pelos demais. Inovação é o casamento da loucura com o método.

Empresas (ou qualquer outra organização humana) têm dificuldade em separar loucos de inovadores e, por isso, perdem muito. Existe uma tensão entre o desejo das grandes corporações de inovar e o desconforto com a energia despendida e o conflito que as inovações necessariamente trazem. Jamais li um anúncio de emprego pedindo gente sem criatividade, mas vi muitas pessoas deixarem de ser contratadas porque pensam de maneira diferente da norma, ou têm uma abordagem diferente (às vezes até mais eficiente) dos problemas. Na dúvida, empresas contratam profissionais conservadores.

Nossos ouvidos podem captar sons ou, alternativamente, silêncios ensurdecedores. Se nos concentrarmos, poderemos ouvir o silêncio das almas penadas e dos corpos em coma das empresas que não inovaram. Empresas que esqueceram de trazer para seus quadros gente que pudesse desafiar construtivamente o “status quo” e encontrar soluções, produtos e processos capazes de resolver problemas que os outros sequer enxergam. Essas empresas, invariavelmente, esqueceram que um dia elas mesmas foram fundadas por pessoas que, no começo, foram chamadas de loucas. Esqueceram que gênio é o louco que estava certo.

(*) Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (Univesity of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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Sons e Silêncios

24/01/2012 por

Sons e Silêncios

Por Elton Simões (*)

Meus dias começam cedo. Hoje amanheceu nevando. Neve é um espetáculo raro para quem mora em Vancouver. O verde, as ruas, os prédios e casas são lentamente tingidos de branco pelos flocos de neve que delicadamente caem sobre a paisagem. A neve não faz barulho e, parece, não permite que outros o façam. Quando neva, o silêncio é mais forte que os sons.

Existem diferentes tipos de sons e silêncios. Vivemos no mundo dos sons artificiais. Ouvimos nossas próprias vozes e os sons produzidos por nossas próprias ações. Estamos cercados pelos sons dos prédios que se erguem, das ruas que se alargam, dos viadutos que se constroem, e dos veículos que neles trafegam. Somos, ao mesmo tempo, agentes e sujeitos de uma definição especifica de progresso. Progresso é, para nós, modificar e controlar a natureza.

Em 1855, foi publicada nos EUA, uma carta atribuída ao Cacique Seattle, da tribo Suquamish, endereçada ao Presidente dos EUA, em resposta a oferta de compra de terras indígenas na Costa Oeste.

Dizia essa carta que, “se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.”.

O Cacique Seattle tinha uma visão curiosamente atual da nossa civilização. Dizia ele que “o homem branco é um estranho, que vem à noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga. Depois de esgotá-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem nenhum sentimento. Rouba a terra de seus filhos e nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos à herança. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.”.

Sempre achei estranha a ideia de que o homem pode controlar a natureza. Sempre me pareceu impossível. A natureza é indiferente à nossa sobrevivência. Nestes dias de aquecimento global e rápida degradação ambiental, não é a existência da natureza que esta em jogo. O que está em questão é a sobrevivência da nossa espécie.

Soa estranhamente atual a profecia do Cacique Seattle segundo a qual a nossa civilização desaparecerá, provavelmente mais rapidamente que outras civilizações do passado. Se as nossas ações no futuro forem simplesmente uma projeção do que fizemos no passado recente, esta profecia estará certa. Nesse caso, para nós, não mais existirão os sons das cidades, a música ou a poesia. Não ouviremos mais as nossas próprias vozes.

Haverá o silêncio. E nada mais.

Cacique Seattle

Elton Simoes mora no Canada há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (Univesity of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca .

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