Cápsula do tempo
Por Elton Simões (*)
Especulo que dentistas e médicos façam parte de uma sociedade secreta que estabelece as regras de atendimento nos consultórios. Certamente, tal organização proibiria terminantemente a presença, nas salas de espera, de revistas atuais, ou qualquer material de leitura recém-publicado. Nestas salas de espera são proibidas as noticias atuais.
Talvez por isso, consultórios de dentistas e médicos parecem capsulas do tempo. São locais onde permanecem registros arqueológicos das informações sobre tempos que já se foram, impressos em revistas caprichosamente arrumadas e catalogadas nas mesas de centro das salas de espera.
A espera pelo atendimento na presença de revistas antigas propicia aos pacientes a oportunidade única de inteirar-se das noticias desatualizadas. É assim, lendo revistas velhas, que os pacientes podem se informar sobre as previsões de ontem, as quais já deveriam ter se transformado na realidade de hoje.
Depois de algum tempo em uma cápsula do tempo, a volta aos tempos atuais requer cuidado. Para evitar maiores choques com a realidade, é importante estar preparado para a inevitável constatação de que previsões raramente estão certas. Publicações atuais explicam, com detalhe e rigor cientifico, as razoes pelas quais as previsões de ontem estão erradas hoje.
Dizem que as metas da ciência são descrever, explicar, prever e controlar. Isto implica que não somente é possível prever o futuro com precisão, como também que, prevendo-o, pode-se controlar o resultado. Infelizmente, quando se trata de seres humanos, a realidade teima em desviar desta premissa.
Prever não é sinônimo de desenhar um mapa infalível sobre os caminhos e descaminhos do futuro. Previsões não informam com precisão a localização, direção, ou realidade futuras. Previsões simplesmente fornecem os parâmetros necessários para avaliação da trajetória.
Prever é útil. Prever é planejar. Previsões fornecem cenários nos quais se pode, pelo menos por algum tempo, depositar as crenças sobre o futuro. Previsões fornecem as hipóteses sobre as quais é possível desenhar os cenários futuros. Sem isto, é impossível influenciar o destino da jornada.
Especular sobre cenários futuros contribui para o sucesso mesmo que estes cenários estejam errados. Prever é criar condições para avaliar e controlar os inevitáveis desvios de trajetória. Prever é estabelecer um ponto de referencia aos quais os eventos podem ser comparados e o curso corrigido.
Previsões não são mapas. São bússolas.
(*) Elton Simões mora no Canadá há 2 anos. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Email: esimoes@uvic.ca.
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