Bandarilheiro

01/04/2012 por

Por Luis Fernando Veríssimo (*)

Ele tinha cara e corpo de toureiro. Ou então não de toureiro, que mata o touro. De bandarilheiro, que o irrita. Afinal, o Millor era só meio espanhol. O touro dele era qualquer coisa grande ou metida a grande, qualquer coisa com chifres que assustavam os outros mas não ele, qualquer coisa pomposa e ridícula, qualquer coisa prepotente. Mas acima de tudo, o touro dele era a burrice.

No lombo da burrice ele espetava suas bandarilhas coloridas, seus epigramas pontudos, suas parábolas incisivas, suas frases marcantes, sua inteligência afiada, esquivando-se dos chifres da besta. No fim ele só não conseguiu driblar a coisa mais burra que existe: a morte.

Especulação dolorosa: o que teria passado pelo seu cérebro nestes últimos dias, preso a um corpo inutilizado? Que memórias, que imagens ocuparam sua mente antes do fim? Ele na sua última arena, diante do seu último touro. Arena vazia, só os dois, num cara a cara final. Ele sem seus instrumentos: sem lápis, sem teclado, sem defesa. E na sua frente a burrice na sua forma definitiva.

A burrice total, a burrice imune a argumento ou súplica, a burrice irreversível, a burrice triunfante. Não adianta ele sugerir que ao menos dancem uma valsa, a burrice não tem senso de humor. Nem se pode chamá-la de vingativa — ela sabe que no fim, depois das bandarilhas coloridas e de todas as piruetas, a vitória será dela. Por mais ridicularizada que ela seja, a vitória é sempre dela. E depois vem a burrice eterna.

No seu sonho terminal, o touro começa sua carga. E o bandarilheiro não consegue sair do lugar.

BOZÓ E COALHADA

Cada um tinha seu personagem do Chico Anisio favorito. Os meus eram o Bozó e o Coalhada. O Chico era, antes de mais nada, um grande ator e cada personagem que ele criava vinha completo, não só com trejeitos e personalidades meticulosamente observados mas com biografia e destino claramente subentendidos.

Você adivinhava toda a vida do Bozó, sonhando eternamente com o status de ser da Globo, e do Coalhada, lembrando uma carreira no futebol que tinha pouco a ver com a realidade. Uma dentadura falsa bastava para fazer o tipo do Bozó, mas o Coalhada requeria um estrabismo meio desvairado que não podia ser simulado, era recurso do grande ator.

CHEGA!

Chico Anisio e Millor, um depois do outro. Ninguém está achando graça.

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Carências

02/03/2012 por

(Luís Fernando Veríssimo)

Quem não gosta de ser amado? Se Receber atenção especial? Quem não gosta de beijo na boca e abraços apertados? Quem prefere a solidão a uma boa companhia?

Nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã.

Uma coisa frenética e louca, que tem feito muita gente que se julgava equilibrada perder os parafusos e fazer muita besteira.

Paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho.

As pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado.

Vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas. É uma guerra para não ficar sozinho. Medo, medo de se encarar no
espelho e perceber as próprias deficiências, medo de encarar a vida e suas lutas. Então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si mesmo, transfere toda a sua carência para o(a) parceiro(a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa que na verdade ela mal conhece.

Então, um belo dia, vem o espanto, vem a realidade, o caso melado, o “falso amor” acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver.

Pobre povo desse século da pressa! Precisamos urgentemente voltar o costume “antigo” de “ter tempo”, de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.

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‘Chutzpah’

12/02/2012 por

Por Luis Fernando Veríssimo (*)

Um exemplo extremo do que os judeus chamam de “chutzpah” é o cara que mata o pai e a mãe e no tribunal pede clemência para um pobre órfão.

“Chutzpah” é algo que ultrapassa o cinismo e provoca até uma certa admiração pela audácia. Se houvesse um prêmio para a “Chutzpah do Ano” de 2012 o vencedor já estaria decidido, pois ninguém poderia concebivelmente igualar o primeiro-ministro britânico David Cameron este ano.

Quando Cameron chamou de “colonialista” a pretensão da Argentina de incorporar as Ilhas Malvinas, Falklands para os ingleses, ao seu território, estabeleceu um novo parâmetro para o “chutzpah” que humilha até o do órfão que pede clemência.

As Ilhas Falklands são os últimos farelos do maior sistema colonial que o mundo já conheceu. Um sistema que levou a espoliação comercial, a prepotência e a morte — junto com o parlamentarismo, o críquete e o chá com bolinhos — a todos os limites da Terra, e ainda se apegava aos seus domínios, muitas vezes por puro orgulho imperial, quando outras potências coloniais já tinham desistido.

Se há alguém que não pode xingar ninguém de colonialista é um inglês. Pelo menos não sem corar.

Você não precisa torcer pela Argentina para lamentar os ingleses no caso das Malvinas/Falklands. Ou vice-versa.

As barbaridades de lado a lado se equivalem. A tentativa de tomada das ilhas pelo governo militar argentino de 1982 — decidida, segundo o folclore, durante uma bebedeira do general Galtieri — foi uma aventura desastrada, tornada ainda mais trágica pela desproporção de forças.

As consequências da aventura também se equilibram. A derrota humilhante decretou o fim do regime militar argentino. A vitória fácil decretou a reeleição da Margaret Thatcher na Inglaterra.

Entre os quase mil mortos argentinos e ingleses na rápida guerra, as razões geopolíticas e eleitorais para o seu sacrifício não fizeram nenhum sentido.

Num plebiscito, a população das ilhas certamente escolheria continuar fazendo parte do Reino Unido. Este é o principal argumento inglês para continuar lá. Tudo bem. Mas o David Cameron poderia ter ao menos corado um pouco.

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Até setembro

09/02/2012 por

Por Luis Fernando Veríssimo

Não chore por Tom Brady. O time dele perdeu a grande final do campeonato de futebol americano no domingo e ele foi abalroado algumas vezes durante o jogo por cruzadores inimigos e deve estar com o corpo todo dolorido. Mas só precisará voltar a trabalhar em setembro, que é quando recomeça a temporada de futebol deles, e até lá terá tempo de sobra para se recuperar no regaço da Gisele Bundchen, um dos dois ou três melhores regaços do mundo. E ganhando em dólar o tempo todo.

Cada período do ano tem seus esportes nos Estados Unidos. Na primavera começará a temporada de beisebol, que dura todo o verão. (O beisebol, como se sabe, é aquele esporte em que as pessoas passam mais tempo ajustando o boné do que jogando).

No inverno tem o basquete e o hockey. E o outono é para o “football”, cuja temporada, curta, é esticada com uma série de semifinais eliminatórias que tem sua apoteose no milionário “Super Bowl”. Não se sabe o que fazem os jogadores de futebol americano no resto do ano, quando não é outono.

Descontada a alta periculosidade do esporte – apesar de eles jogarem encasulados em proteção como jogam – não existe melhor profissão do que a de um bom jogador de futebol americano. Um mês de trabalho, um ano de salário garantido.

O que eu mais invejo no Tom Brady é seu tempo livre. Está bem, primeiro o regaço da Gisele e depois o tempo livre. De agora até setembro chegar, ele pode fazer o que quiser. Pode cultivar orquídeas, viajar pelo mundo ou passar o dia tomando cerveja na frente da TV. Se fosse inclinado à leitura, por exemplo, poderia se dedicar à obra de Charles Dickens, cujo bicentenário se comemora este ano. Dickens foi o escritor mais popular do seu tempo e tinha fama comparável à de um herói do esporte nos Estados Unidos também.

Contam que multidões iam ao cais de Nova York esperar os navios que chegavam com jornais da Inglaterra para ler o último capítulo do folhetim do Dickens. Até setembro chegar, Brady poderia ler todo o Dickens e ainda sobraria tempo para a Gisele.

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A boa mensagem do dia!

08/02/2012 por

“Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo.

Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca na sua vida?”

Luiz Fernando Veríssimo

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Especulações

05/02/2012 por

Por Luiz Fernando Veríssimo

Descobriram, na Espanha, uma cópia idêntica da Mona Lisa do Leonardo da Vinci. O que provocou várias especulações:

1 — O xerox e o scanner são mais antigos do que se pensava.

2 — O autor da pintura foi o próprio Da Vinci, que fez várias cópias da sua Gioconda para vender no mercado paralelo.

3 — O autor foi um discípulo de Da Vinci que copiou a obra do mestre.

A última hipótese é a mais provável, mas as especulações não ficarão por aí. O fascinante em descobertas como esta é que, como é impossível saber exatamente o que aconteceu há séculos, tudo é especulação e a imaginação se solta. A pintura revelada agora tem seus mistérios. A Mona Lisa copiada parece mais jovem do que a original. Seu sorriso é mais inocente do que enigmático — é o de uma Mona Lisa antes de saber das coisas da vida.

Um fundo preto que distinguia a cópia do original foi retirado e apareceu um fundo igual ao pintado por Da Vinci. Por
que o discípulo teria camuflado a paisagem toscana do mestre? Outros discípulos fizeram cópias parecidas, e que fim estas levaram?

A imaginação se solta. No seu livro “A mouthful of air”, Anthony Burgess lembra uma tese, ou uma lenda, que se espalhou sobre a feitura da versão inglesa da Bíblia encomendada pelo rei James I e publicada em 1611. O rei convocou um time de quarenta e sete tradutores do grego e do hebraico, alguns para traduzir o Velho Testamento, outros para traduzir o Novo, alguns para as partes proféticas e outros para as partes poéticas.

E, segundo a lenda, provas das escrituras poéticas teriam sido distribuídas entre os poetas profissionais da época para darem uma polida no texto, desde que não desvirtuassem a tradução. O que explicaria a presença do nome de Shakespeare no Salmo 46 — “shake” a 46 palavra a contar do princípio, “speare” a 46 palavra a contar do fim.

Segundo Burgess, sem nenhuma esperança de ter algum tipo de posteridade com seus versos, o poeta teria ao menos deixado seu nome, mesmo cifrado, numa obra histórica. Mas o próprio Burgess não acreditava na lenda.

O passado, já disse alguém, é uma terra estranha. Só se pode conhecê-lo pela especulação e visitá-lo pela imaginação. E se a Mona Lisa da Espanha for a verdadeira e a do Louvre uma cópia? Como a presença ou não do Shakespeare entre os tradutores dos salmos, jamais saberemos.

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Na minha opinião

29/01/2012 por

Por Luis Fernando Veríssimo

“O espião que sabia demais” é o titulo bobo de um bom filme. Mas um comentário que ouvi na saída do cinema diz tudo: “Não entendi nada mas adorei.” É daqueles filmes em que a interpretação de alguns atores, a atmosfera, a fotografia etc. dispensam a compreensão. Você não precisa entender para adorar. Tudo é para ser subentendido, e este é um dos seus atrativos.

Mas quem não quer que o subentendido seja tão “sub” assim talvez saia do cinema frustrado. Desafio qualquer um que viu o filme a dizer o que, exatamente, incrimina o “mole”, ou a topeira plantada pelos soviéticos no Serviço Secreto britânico que George Smiley acaba desmascarando. Ou então isto está explicito no filme e eu é que perdi. Nunca se deve descartar os devaneios, ou a burrice, de um crítico.

Quem não se contenta em gostar sem entender pode preparar-se antes de ver o filme. Fazer uma espécie de curso de iniciação à trama. A melhor opção seria ler o livro do John Le Carré no qual o filme é inspirado. Le Carré também costuma ser elíptico quando poderia ser direto, mas no livro não há dúvidas sobre a armadilha que montam para enredar o espião. Quem não puder ler o livro pode procurar a série feita pela BBC, com Alec Guinnes no papel de George Smiley. Serviria como uma introdução ao mundo de Smiley e o desenlace seria suficientemente claro para você depois poder aproveitar o filme atual sem se preocupar em entendê-lo.

Só que aí teríamos outro problema. A BBC e Alec Guinnes fizeram a adaptação definitiva de Le Carré e do seu improvável herói. Nas comparações “O espião que sabia demais” perderia feio e nem um ator com a qualidade de Gary Oldman se salvaria. Depois de Alec Guinnes, qualquer outro George Smiley é certamente um impostor.

As duas melhores versões para o cinema de livros do Le Carré, na minha opinião, são a primeira, “O espião que saiu do frio”, com Richard Burton dirigido por Martin Ritt, e “A casa da Rússia”, com Sean Connery dirigido por Fred Schepisi, que, além da beleza da Michelle Pfeifer como a russa cujo encanto é mais forte do que qualquer lealdade ou ideologia, tem a beleza da música de Jerry Goldsmith. “O jardineiro fiel”, do nosso Fernando Meireles, foi uma tentativa respeitável. O terceiro lugar é dele.

O quarto, vá lá, é de “O espião que sabia demais”.

MUDOS
Não sei se “O artista” merece toda essa festa. É um filme agradável e curioso com alguns bons achados, mas a novidade se esgota em pouco tempo. E ele tem um precursor que, se não era muito melhor, foi o primeiro com a mesma ideia, o “Filme mudo” do Mel Brooks. A melhor piada do Brooks: só um personagem fala em todo o filme — o mímico Marcel Marceau. As melhores piadas de “O artista” são do cachorro.

(*) Luiz Fernando Veríssimo, escritor, do Blog do Noblat.

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Adeus, Cheeta

08/01/2012 por

Por Luiz Fernando Veríssimo

Johnny Weissmuller, o melhor Tarzan de todos, era campeão de natação, o que significava que todos os seus filmes como o personagem tinham que incluir pelo menos uma cena dele nadando.

Os jacarés sabiam disso, e ficavam na espera. “Lá vêm os jacarés”, pensávamos todos, no cinema, quando Tarzan mergulhava. “Lá vem ele”, pensavam os jacarés, desanimados. E não falhava. Tarzan mergulhava, e os jacarés mergulhavam atrás dele. Sabiam que não o pegariam, que Tarzan mataria um ou dois e afugentaria o resto, mas o atacavam assim mesmo. Tarzan mergulhava sabendo que os jacarés o atacariam, os jacarés o atacavam sabendo que era inútil, e a plateia se resignava àquele ritual fatalista.

Que era uma das diferenças entre o Tarzan do cinema, pelo menos na fase Johnny Weissmuller, e o Tarzan dos livros. Nos livros Tarzan era descrito como um bom nadador, mas raramente se jogava em rios ou em lagoas, com ou sem jacarés.

Outra coisa: Sheeta, nos livros, era o nome do leopardo (Numa era o leão, Tantor o elefante). A Cheeta chipanzé é uma invenção do cinema.

A atriz que fazia a Cheeta morreu há uma semana. Teria 80 anos, o que sugere que não fosse mais a Cheeta original. Ela simbolizava como ninguém a importância de um certo tipo de coadjuvante no cinema, uma
figura que merece um estudo que ainda não foi feito. O amigo do mocinho, o fiel companheiro que oferece companhia, bom humor ou apenas um contraste desastrado com o herói perfeito, e que volta e meia
interfere decisivamente na ação.

Não foram poucas as vezes, nos filmes, em que a história só pode continuar porque a Cheeta desamarrou as mãos do Tarzan, ou foi buscar ajuda, por exemplo. Há uma longa tradição de amigos do mocinho no cinema e nos quadrinhos, passando pela relação algo suspeita do Robin com o Batman, da estranha parceria do Tonto com o Zorro que só durou tanto tempo porque eles jamais discutiram a sério a relação, do Centelha com o Tocha Humana…

Uma tradição que tem sua origem literária, claro, no Sancho Panza.

Não sei se foram ditas algumas palavras no enterro da Cheeta, lembrando sua importância na história cultural do Ocidente. Ou, vá lá, apenas na história de velhos tarzanófilos. Aqui, de longe, mandei meus respeitos.

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Pelo poder

05/01/2012 por

Por Luis Fernando Veríssimo para o Blog do Noblat

No filme “Tudo pelo poder” alguém diz que o único pecado imperdoável num político americano é o pecado da carne — mesmo na forma branda de rapidinhas com estagiárias predispostas. Um dos pré-candidatos republicanos às eleições presidenciais deste ano nos Estados Unidos já foi obrigado a desistir depois que se revelou que ele era um predador sexual.

Muitos homens públicos americanos tiveram que se submeter a um ritual de contrição pelos seus pecados — geralmente com a esposa estoicamente ao seu lado, diante dos repórteres e das câmeras — antes de renunciar ao cargo ou à candidatura.

O que nos leva a pensar no contraste com o Brasil, onde a vida sexual de cada um é raramente um fator na disputa política. Nossos escândalos são assexuados, a vida privada permanece privada mesmo em meio ao maior tiroteio. E há quem diga que alegações sobre infidelidade matrimonial, voracidade sexual, etc. só aumentariam a popularidade de um político brasileiro. Mas não sejamos cínicos.

O filme “Tudo pelo poder” é bom. George Clooney é um candidato a candidato à presidência em campanha numa primária estadual. É um democrata idealizado, com opiniões que o próprio Clooney gostaria de ouvir de um candidato real — ou seja, o que ele esperava que o Obama fosse, e não foi. Seu opositor na primária mal aparece no filme, não tem nenhuma importância no enredo. O conflito acontece dentro da sua equipe, onde, com uma exceção, todos os personagens principais se revelam, de uma forma ou de outra, carentes, digamos, de caráter.

E aí é que está um dos poucos defeitos do filme: o único personagem que se salva, que tem um comportamento ético e que acaba pagando por ser a exceção é interpretado por Philip Seymour Hoffman, que ninguém nunca viu fazer papel de herói moral.

Além do pouco convincente Hoffman, Clooney, que coescreveu e dirigiu o filme, não livra a moral de ninguém, nem do seu candidato ideal. Fez um filme pessimista sobre a falibilidade humana, mesmo dos melhores humanos. O título em inglês, “Os idos de março”, evoca o “Júlio Cesar”, de Shakespeare, mas no filme ninguém esfaqueia ninguém à traição. As traições são mais sutis.

INJUSTIÇA

O mais terrível da morte aos 41 anos do Daniel Piza, com quem convivi menos do que gostaria, é não ter contra o que dirigir nossa indignação pela brutal injustiça. Foi a fatalidade, foi a vida… nada que se possa responsabilizar pelo que nos fizeram.

Nota do Z Castel:

A propósito do filme, vai o trailer, para apenas completar a informação. O comentário de Luiz Fernando Veríssimo dispensa, mas a nota é do Z Castel (talvez uma ousadia):

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Marés

29/12/2011 por

Por Luiz Fernando Veríssimo

Quando a maré sobe, ergue todos os barcos, dizem os neoliberais para defender uma economia que privilegia poucos mas beneficia muitos. Quando o mercado funciona e as coisas melhoram, tanto sobe o caiaque do pobre quanto o iate do rico.

Mas há dias li outra analogia aquática, uma que se aplica perfeitamente ao momento: quando a maré baixa se descobre quem estava tomando banho nu. É o que acontece na atual crise do sistema financeiro, que está revelando a nudez de instituições respeitáveis que ninguém imaginaria estarem na água peladas.

As duas analogias são falhas. O barquinho do pobre sobe junto com o iate do rico mas continua sendo um barquinho, à deriva, sem nenhum controle sobre as águas em que boia. E a nudez revelada pela vazão das águas não expõe o banhista a nenhum tipo de vexame — os governos têm se apressado a tapar suas vergonhas.

Nenhum banco — fora as baixas no começo da crise, como a do Lehman Brothers — pagou por estar na água sem calção. Ao contrario, o Goldman Sachs lucrou como nunca na sua história, este ano. (O Goldman Sachs, todos lembram, foi o banco que aconselhou a Grécia no começo da crise e ao mesmo tempo apostou secretamente no fracasso do seu próprio plano).

Nenhum grande banco internacional precisa de maré alta para se manter no topo, boiam no ar. Nenhum deixou de ser respeitável — ao menos entre eles e pelos governos — por ter sido flagrado nu. Quer dizer: os bancos internacionais estão desmoralizando todas as analogias.

INDIGNAÇÃO

Só para ser coerente: minha escolha para melhor filme de 2011 é “Trabalho interno”, documentário sobre as falcatruas privadas e a cumplicidade oficial que deram na crise do mercado financeiro que continua até agora, nos Estados Unidos e no resto do mundo, e justifica a indignação que deu no movimento Ocupar Wall Street e em manifestações na Europa, que também continuam.

IMPERDÍVEL

Leitura para o fim do ano: “O espetáculo mais triste da terra”, livro-reportagem do Mauro Ventura. Terrível e imperdível.

ÂNIMO

No mais, pensamentos simples, champanhe gelada e companhia quente. E fé em 2012, pois anos pares são sempre melhores do que anos ímpares, uma estatística histórica que eu acabei de inventar para nos animar.

Postagem original Blog do Noblat

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O fim do jogo

21/07/2011 por

Por Luiz Fernando Veríssimo

Tem um pensamento que me consola em casos de vexame, desgosto com a espécie humana, noticiário de Brasília ou derrota do Internacional. Penso: daqui a alguns milhões de anos o Sol vai explodir, a Terra vai virar cinza e nada disto terá muita importância.

O perigo, claro, é o consolo se virar contra o consolado, pois, se pensar na nossa morte pessoal já nos angustia, pensar na morte de todo o sistema solar, ao qual somos tão ligados, pode angustiar mais. Mas é bom aceitar o risco da angústia terminal, botar tudo em perspectiva e ver nossos infortúnios num contexto maior. Em latim fica mais bacana: ‘Sub specie aeternitatis”. Do ponto de vista da eternidade, como dizia o filósofo Espinosa, segundo o Google.

Do ponto de vista da eternidade tudo tem o mesmo sentido, ou sentido nenhum. Surpreende que a frase não seja invocada mais vezes, por exemplo, nas crises econômicas. Sob o ponto de vista da eternidade o carrossel das finanças, a gangorra dos juros e das dividas, o escorregador das falências nacionais e os balanços dos balanços não passam de brinquedos.

Tudo é um jogo que só é dramático e afeta a vida de tanta gente porque lhe dão um sentido falso que omite a explosão do Sol, no fim, quando até o ouro virará nada. O fim do jogo, para quem o leva a sério, é um mítico mundo com as economias equilibradas e o mercado redimido e triunfante. Não é. O fim do jogo é o nada.

Os “indignados” que protestam nas ruas da Europa contra as medidas de austeridade que exigem sacrifícios dos já sacrificados para corrigir a safadeza alheia, da minoria culpada pela crise internacional, estão dizendo isto, que a vida é mais importante do que o jogo, que nenhuma promessa de sanidade econômica a longo prazo compensa a miséria humana agora — ainda mais que a longo prazo seremos todos cinza.

E SE?

Já que falamos em vexame… Razão teve o Fernando Calazans, que sempre tem razão. E se os três substituídos pelo Mano Menezes, Neymar, Ganso e Pato, estivessem em campo para bater pênaltis, o resultado seria o mesmo? Nunca saberemos.

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Chafurdando

14/07/2011 por

Luiz Fernando Veríssimo

Diziam que o maior exemplo de autoconfiança intelectual do mundo era fazer as palavras cruzadas do “Times” de Londres com caneta. O que, indiretamente, provava o alto conceito que o “Times” tinha dos seus leitores, a elite inteligente da Inglaterra.

Isso no tempo em que o “Times” era o “Times” e, além de palavras cruzadas para suas melhores mentes, o império encontrava no jornal, numa linguagem sóbria e elegante, tudo o que precisava saber a seu próprio respeito e a respeito dos seus inferiores, o resto do mundo. Quer dizer, no tempo pré-Murdoch.

Lembrei das palavras cruzadas do “Times” porque li que não adiantaram os cuidados tomados para que não saísse nada de malcriado ou subversivo na última edição do jornal “News of the World”, fechado pelo Murdoch em meio ao escândalo dos grampos e da fofocagem, com a demissão de mais de duzentos jornalistas.

O medo era que alguém na redação ou na oficina conseguisse inserir na edição histórica alguma crítica ou gozação a Murdoch ou à ex-editora do “News”, Rebekah Brooks.

A censura prévia foi feita e o jornal saiu — mas esqueceram de checar as palavras cruzadas, onde os dois foram sutilmente espinafrados (no espaço para um sinônimo de “Bruxa”, imagino, a palavra certa era “Rebekah”), tornando o último número ainda mais histórico.

O contraste entre os tabloides sensacionalistas e os jornais “respeitáveis” da Inglaterra é uma evidência, pode-se dizer escandalosa, de uma divisão social como talvez só exista igual na Índia das castas milenares. A elite inglesa hierarquiza seus diferentes graus de importância para que nunca se confunda um nobre, mesmo arruinado, com um rico sem título, ou os dois com um “comum”.

Essa demarcação rígida dá uma certa liberdade aos excluídos para, por assim dizer, chafurdarem (grande palavra) na sua condição de casta inferior. Já que nunca ultrapassarão a barreira que os separa da elite, enfatizam o contraste e atacam o que a elite tem de mais seu, que é o bom gosto e a hipocrisia.

Os tabloides são armas na mal disfarçada luta de classes que tem sido a história da Inglaterra desde os primeiros barões.

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Ficções reais

03/07/2011 por

Por Luiz Fernando Veríssimo (*)

Romeu e Julieta nunca existiram, o que não impede que exista um balcão em Verona que os guias locais identificam como o do quarto da desafortunada jovem, para grande alvoroço dos turistas.

Aparecia tanta gente na cidade de Portbou na fronteira da Espanha com a França atrás do túmulo do critico e ensaísta alemão Walter Benjamin, que ali se suicidara para não ser devolvido à França ocupada pelos nazistas, que a prefeitura decidiu inventar um túmulo para ele, já que ninguém sabia o verdadeiro paradeiro dos seus restos.

Nem o balcão da Julieta nem o túmulo do Benjamin são exatamente falsificações. Os amantes de Verona são símbolos tão cultuados de romance trágico, há tanto tempo, que têm direito a uma vida real, mesmo que retroativamente.

E se o túmulo do Benjamin está vazio, isto acaba sendo um detalhe sem importância. A lápide mentirosa evoca um dos grandes intelectuais do seu tempo, o monumento induz a uma reflexão sobre as mentes arrasadas pela guerra e, afinal, não é preciso que sejam mesmo os restos do Marx naquele cemitério em Highgate para que seu túmulo seja local de romarias.

Li que foi lançado um livro chamado “Daisy Buchanan´s Daughter”, a filha de Daisy Buchanan, o amor da vida de Jay Gatsby no romance “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald.

Pam Buchanan faz uma pequena aparição, com três anos de idade, em “O grande Gatsby” e o novo livro é uma especulação sobre como teria sido a sua vida depois dos acontecimentos narrados por Fitzgerald. O que sugere um novo filão literário, ficções sobre personagens fictícios, ou a continuação de obras famosas com personagens tomados emprestados do autor original.

Capitu, no fim da vida, num asilo, finalmente contando a verdade sobre Escobar. Madame Bovary, em vez de se suicidar, começando uma vida nova como chapeleira em Paris. Etc, etc.

Já se especulou como teria sido a continuação de “Romeu e Julieta” se o mal-entendido que resultou na morte dos amantes tivesse sido evitado a tempo e os dois se casassem e vivessem felizes – até começarem a cansar um do outro, os filhos infernizarem a vida dos dois, surgirem as suspeitas de traição, Julieta engordar, Romeu começar a beber e voltarem velhas desavenças familiares (“Vocês Capuletos são todos iguais!”).

Melhor terem morrido mesmo, e ressuscitado para os turistas.

 

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Gays

30/06/2011 por

Gays

Luiz Fernando Veríssimo

O mais notável nessa campanha por casamentos homossexuais não é o avanço dos movimentos gays e o ocaso de barreiras e preconceitos antigos, mas o prestígio do casamento. Com tantos casais heterossexuais dispensando o ritual matrimonial para viverem juntos, a insistência dos gays em se casarem como seus pais deveria aquecer o coração dos mais radicais dos bispos.

Eu sei que em muitos casos a oficialização do conúbio, se esta é a palavra, tem mais a ver com questões legais do que com romance, mas o que a maioria quer é o ritual. Quer as juras públicas de amor eterno e todo o simbolismo da cerimônia tradicional, mesmo sem véus e grinaldas.
Era de se esperar que quem escolheu um relacionamento sexual, digamos, anticonvencional, muitas vezes tendo que enfrentar a incompreensão ou a ira dos conservadores, quisesse distância do que é, afinal, o mais “careta” dos ritos sociais. Mas não. Querem o tradicional.

Este fenômeno deve ter a ver com outro de difícil compreensão. Ouvi dizer que as formaturas nas universidades brasileiras voltaram a ser paramentadas, com becas e tudo, não por insistência de pais tradicionalistas, mas dos próprios formandos, que, em vez da informalidade que se esperava deles num mundo cada vez mais prático e sem tempo para velhos costumes ou costumes de velhos, exigiram todas as formalidades.
No fim as pessoas querem significado. Querem que o valor do que fazem seja enaltecido pela cerimônia, qualquer cerimônia.
Mesmo careta.
Seja como for, aposto que daqui a alguns anos, quando se puder fazer a estatística, menos gays dos que estão se casando agora terão se separado do que casais heteros. Se a instituição do casamento sobreviver aos tempos e aos modos, será em boa parte graças a eles e a elas.

PASSADO

(Da série “Poesia numa hora destas?!)
Lembranças vagas. Vultos sem precisão no meio da cerração.
Uma praça, um possível coreto e aquilo será um mastim, ou a tuba do Serafim?
A mesma em que, num domingo, entrou um gato desgarrado e pôs-se a miar adoidado no ritmo do dobrado?
Talvez com ouvidos afiados ainda se possa ouvir os miados como vozes abismais repetindo “Nunca mais”.

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Pedaços de metal

02/06/2011 por

Pedaços de metal

Nietzsche escreveu em algum lugar que certas ideias se tornam verdades pela repetição, mas perdem o significado com o tempo, como moedas cujas imagens se apagam e passam a ter, todas, apenas o valor de pedaços de metal.

Me ocorreu que a metáfora do Nietzsche pode ser usada ao contrário para descrever o que acontece com o euro, a moeda única idealizada para uma Europa unida que parece estar em vias de perder o sentido.

No caso do euro a intenção era que as moedas valessem o mesmo para todos os membros do mercado comum, independentemente do estado das suas economias. Mas, ao contrário dos pedaços de metal de Nietzsche, com o tempo certos euros ganharam um valor real que para outros é artificial. E o valor dos euros saudáveis é ameaçado pelas repetidas crises dos euros anêmicos.

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