11/08/2011 por ZCastel
Por Eliane Elias de Rezende para o blog de Maria Helena R R de Souza
Outro dia, para espairecer, eu pensava em meus amores pretéritos. O primeiro era um estudante de engenharia que morava lá longe na capital e que, lamentavelmente, nunca soube que eu nutria por ele tão nobre sentimento.
Depois, surgiu um rapaz de sobrenome conhecido, que não foi exatamente um amor: foi o primeiro namorado e responsável pelo primeiro (eca) beijo. Depois do beijo, achei que não era mais virgem e fui correndo, aos prantos, para a casa da minha avó, única capaz de compreender essas coisas. Ela deu boas gargalhadas e disse que eu não tinha visto nada ainda. E que eu esperasse. Depois, seriamente, me tranqüilizou, dizendo que comer e, digamos, amar, era tudo muito natural.
Minha avó era uma mulher estupenda que vivia muito além do seu tempo. Graças a ela, ao longo da vida, espantei todos os dedos em riste e, se preciso for, espanto ainda hoje. Acredito que, de certo modo, não devemos deixar os nossos barcos eternamente atracados porque a imensidão do mar é misteriosamente sedutora. Além disso, a nossa vista, ao longo do tempo, vai alcançando o horizonte cada vez menos. Então, ganhemos o alto mar, nem que seja em pensamento. Cuidemos, contudo, da tripulação, porque ela é preciosa.
Muito tempo depois, me apaixonei por um estudante de arquitetura. Ele tinha olhos verdes e era lindo demais. E morava longe demais. Fui conhecer a família, que vivia em Santiago do Chile, numa casa belíssima, dessas de cinema. Ele queria se casar comigo, mas, eu não queria me casar. Achava que o casamento era uma prisão o que, de certa forma, é uma doce verdade. Assim, eu disse adiós.
Foi aí que ouvi a Marselhesa e me derramei de encantamento. Era um engenheiro que morava em Paris e que não falava Português. Por pouco não mudei de idéia e me casei com ele – é que o medo falou mais alto: e, depois, se eu não conseguisse voltar ao Brasil? E se eu ficasse com saudades da mamãe? E, dessa vez, com o coração partido, eu disse adieu.
Um parêntese: eu gosto mesmo é da comida da minha casa, porque é feita com amor. E das palavras de minha mãe, escritas na apresentação de seu primeiro e belo livro de receitas e orientações culinárias, eu nunca me olvidei: “tudo que é feito com amor e desvelo parece mais belo e, nesse caso, mais gostoso, eu diria”. Assim escreveu minha mãe que, em seguida, dedicou o livro aos filhos dizendo que “sempre teve a preocupação de oferecer-lhes a mesa farta e preparada com pitadas de um amor imenso”.
Assim, caseira e amorosamente, segui me apaixonando e acreditando no amor, mas, não no casamento, que só ao falar me dava arrepios. Aí, surgiu um moço, de São Paulo, que trouxe um amor muito suave: ele chegara recentemente da Grã-Bretanha onde concluíra Doutorado. Mas, por malíssima suerte, ele partiu para os Estados Unidos e eu jurei nunca mais me apaixonar.
Até que muito tempo depois, às margens do rio Arno, um destemido rapaz se propôs a casar-se comigo. E eu, inexplicavelmente, apreciei a oferta. Mas, antes de aceitá-la, olhei longamente as águas daquele belo rio e deparei com minha imagem refletida alternando com a de meu avô que, aflito, me dizia que cavalo selado não passa duas vezes. Além disso, aquele cavalo garboso, ali parado, era irresistível: conduzia um moço bonito, culto, educado, inteligente, honesto, generoso e que, ainda por cima, dizia “te quiero”.
Então, antes que aquele corajoso rapaz, num lampejo de lucidez, pudesse desistir, puxei-o rapidamente e o levei a comprar belas alianças. E o fiz subir no cavalo – logo atrás de mim. Eu sabia que aquela seria uma longa viagem, então, alguém precisava ter as rédeas desde logo, pensei precavida.
E embora no caminho encontremos sol e chuva, a viagem tem sido serena e feliz. E só uma vez eu quase me distraí porque me deparei com uma estrada diferente e eu sou curiosa. Mas, aí, olhei para trás e vi que conduzia um diamante – era preciso, pois, a retidão do caminho.
Eliane Elias de Rezende
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