Salvem os seres humanos!

02/07/2012 por

Salvem os seres humanos!

Por Téta Barbosa(*)

Eu gosto de animais, com ressalvas, muitas ressalvas. Criada em apartamento, eu tinha pavor de galinhas, do tipo que pessoas normais têm de baratas ou aranhas. Eu também temia gatos, coelhos, hamsters e cachorros.

Principalmente cachorros.

Nada contra, juro, só falta de costume mesmo. Meus bichos eram de pelúcia e não tinham cheiro (exceto uma eventual poeira ou mofo) e não babavam. Cresci assim, desacostumada ao reino animal, praticamente a menina da bolha.

Provavelmente por isso nunca entendi o amor incondicional das pessoas por seus bichos de estimação. Não entender não significa ser contra, que isso fique bem claro.

E, na minha ignorância animal, entendi menos ainda a recente comoção nas redes sociais sobre a lei Contra o Abandono de Animais. Veja bem, não sou a favor de poodles ou gatinhos siameses serem largados por aí, muito menos concordo com a crueldade contra peixinhos dourados.

Se bem que, se a gente pensar direitinho, o que soa como crueldade é manter um passarinho numa gaiola, um peixe num aquário de 50cm ou um pastor alemão num apartamento de 90 m2.

Mas não vamos mudar de assunto, voltemos à Lei Contra o Abandono. Assim, como fila de banco, que basta o primeiro reclamar para a fila virar um motim, as redes sociais estão cheias de mensagens de apoio aos Chihuahuas e gatinhos Angorás.

A lei é digna e bonita, concordo, o que não me convence é essa comoção social para defender gatos e cachorros enquanto crianças descalças fazem malabarismo no sinal.

Entenda, eu acho animais legais, mas acho seres humanos mais legais.

Sou contra o abandono de crianças, contra homens revirarem lixo à procura do jantar, contra adolescentes que se prostituem para garantir uma refeição por dia.

Confesso que sempre me revoltei com o Greenpeace porque enquanto eles salvam as baleias, 300 homens e mulheres são assassinados por mês em Pernambuco.

Nunca vi uma faixa comum “Salve os seres humanos” nem com um “Criança passar fome é Crime”. Sempre imaginei, inclusive, que se eu vendesse aquele navio do Greenpeace, o dinheiro daria para alimentar o Coque (comunidade carente do Recife) inteiro durante uns seis meses.

Temos exceções, fato; ONGs e voluntários. Mas esses, infelizmente, não ganham a simpatia das milhões de pessoas que postam fotos de gatinhos fofos no Facebook.

Vou ser a primeira a apoiar os Yorkshires e Bulldogs, no dia em que nenhum ser humano morar debaixo de uma ponte ou se alimentar de lixo.

(*) Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali. Escreve aqui sempre às segundas-feiras sobre modismos, modernidades e curiosidades. Ela também tem um blog – Batida Salve Todos

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Sem limites!

13/06/2012 por

Por Téta Barbosa a partir do Recife.

A moça do vestido amarelo não tinha limites.

- “Quem tem limite é Município”, dizia seguindo o dito popular.

Ela, obviamente, não era Município. Nem louca, apesar de algumas opiniões contrárias.

Tinha 31 vestidos, uma coleção de garrafas vazias, três óculos escuros e nenhum limite.

Libertador, diriam uns.

Constrangedor, comentariam outros.

Amor sem-limite, ideias sem-limite e, o mais grave, falava e escrevia sem-limites.

- Onde já se viu isso? Perguntou a ruiva do oitavo andar.

- Todo mundo tem que ter limites! Avisou o vendedor de churros.

- E estranha que ela é?! Resmungou o porteiro da noite (aquele que tomava conta das estrelas para se certificar de que nenhuma tinha se apagado desde a noite anterior).

Estranha ela era.

Isso não tinha como negar.

Só bebia água natural (porque gelada não tem gosto), não assistia novela e seu hobby era pescar répteis (com vara, anzol e isca viva).

Estranha ou não, limite estava fora de cogitação. Por que? A resposta está nos sinônimos.

Afinal, quem quer demarcar a vontade, ou delimitar o desejo, ou restringir o abraço, ou pior, reservar a convicção?

Você quer?

Ela não!

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Eu, o trânsito e o Recife ( a única ménage à trois possível dos dias modernos)!

29/04/2012 por

Por Téta Barbosa, direto do Recife (*)

Posso me imaginar, tranquilamente, abandonando o carro no meio de um engarrafamento da Agamenon. Ou da Domingos Ferreira, ou em qualquer lugar do Recife. Já esgotada minhas fontes de entretenimento para longos períodos de espera (lixa de unha, palavra cruzada, mp3, conversa com amigos imaginários e curso de auto maquiagem entre a primeira e a segunda marcha) estou preparada para me inscrever num supletivo à distância que ensina como utilizar seu tempo ocioso num espaço relativamente pequeno: o carro.
Não, esse curso ainda não existe, mas quem inventar vai ficar rico.

Foi-se o tempo do saudoso horário do rush. Agora três da manhã tem trânsito intenso, incluindo engarrafamento de blitz do bafômetro. Duas da tarde é horário de pico e às 10 da manhã, só saia de casa de carro se for tirar sua mãe da forca. Que, neste caso, vai morrer enforcada pois você não conseguirá chegar a tempo de impedir o desastre.

Chegar atrasado e culpar o trânsito não cola mais desde, pelo menos, 2009. E não adianta buzinar, meu filho, porque o carro da frente do da frente do da frente, não vai andar só porque você buzinou. Até porque, o da frente dele também está parado.

Para ser pontual no Recife, só tem uma solução: acorde mais cedo!
E não adianta ser 15 minutos mais cedo não colega, porque outras 39 mil pessoas já tiveram essa ideia antes de você. Tem que ser uma hora mais cedo (caso o deslocamento aconteça dentro do mesmo bairro), uma hora e meia mais cedo (pra translados entre bairros) e duas horas mais cedo caso um dos bairros (o de chegada ou o de partida) seja Boa Viagem.

E enquanto aguardo pacientemente o carro da frente andar, observo os ciclistas.
Ao mesmo tempo que tenho inveja dos ciclistas, temo pela vida deles.
Ainda prefiro ler o Alcorão de trás pra frente num engarrafamento do que pagar de moderna preocupada com o nível de monóxido de carbono na atmosfera e ser atropelada, não pelo efeito estufa, mas por uma Hilux 4×4 de 16 válvulas.

Por falar em ciclistas, é engraçado como eles se dividem em dois grupos totalmente diferentes (fisicamente e ideologicamente).
O primeiro, que está super na moda, é o ciclista por opção. É o cara que tem carro, mas para evitar o derretimento das calotas polares, comprou uma bike de mil reais, E.P.Is adequados para a segurança e mochila nike para levar o terno. Mas, apesar do aparato, este tipo de ciclista é o inseguro. Ele titubeia para atravessar uma rua, para indeciso nos cruzamentos e sua bike treme um pouco mostrando instabilidade e pouca intimidade com aquele tipo de transporte. Admiro a coragem, juro.
O segundo tipo de ciclista é por falta de opção mesmo. O cara é mestre do obra, ou vigia de prédio, ou pintor de escritório, ou entregador de pizza. Mora longe e trabalha mais longe ainda. Sabe que não pode contar com o transporte público e, por isso, já nasceu numa bicicleta. O pai levava ele e os três irmãos na mesma bicicleta para a escola (que ele só fez até a quarta série) e de lá pra cá, ele passa mais tempo cruzando as ruas da cidade na sua magrela do que em casa com seus cinco filhos. Esse, apesar de não ter capacete, nem tênis fluorescente, passa pelos carros como quem passa pela vida: numa nice!
O problema é que, quando a Hilux aparece com pressa e na tpm, ela atropela um ou outro, sem discriminação de marca de bicicleta.

Assim sendo, continuo no meu carro, durante o engarrafamento. E agora, além de fazer a unha, a maquiagem e a palvra cruzada, faço também um estudo sócio-psicológico das categorias e estilos de ciclistas. Quando acabar minha tese, entrarei na análise dos motoqueiros porque engarrafamento e trânsito tem de sobra!

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Suspiros

28/03/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Eles nascem no pulmão, percorrem a traquéia e acabam no desejo.

Uns, os mais bipolares, nascem no desejo pra só então, chegar ao pulmão!

Podem ser de amor, de desgosto ou de açúcar. Mas suspiros são, invariavelmente, sinceros.

Há uma verdade quase melancólica nos suspiros.

Entre o inspirar e o expirar, cabe o começo o meio e o fim da história (quando existe uma história)

A palavra suspiro, suspira.

Eu suspiro, tu suspiras, ele guarda os suspiros num pote. Pra não gastar!

Hoje em dia gasta-se o desejo à toa.

Na próxima encarnação não quero vir uma samambaia nem gelo-baiano.

Quero vir suspiro!

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Aos bêbados, com amor!

24/02/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife.

A verdade verdadeira é que o bom senso é um chato intrometido.

É ele o responsável por toda a burocracia da vida afetiva-artística-libertária.

Ou o que poderia ser uma vida afetiva-artística-libertária.

Mas, no lugar disso, você dá o play, segue as instruções e se transforma num cidadão exemplar com direito a foto de funcionário de mês na parede.

O bom senso te guia! Assine aqui, beije aqui, durma aqui.

Mas você queria assinar ali, beijar lá e dormir acolá.

A menos que…..

A menos que você seja louco, ou bêbado ou esteja naquele estágio do sono entre o quase dormindo e o dormindo de verdade. Só nesses raríssimos momentos se consegue enganar o bom senso, driblar algumas regras sociais e fazer o que você realmente quer fazer.

Ou dizer.

Ou beijar.

Ou entender.

Ou, ou, ou.

Não, não é uma ode ao uísque.

É uma homenagem ao estado de embriaguez da alma (que pode, ou não, vir acompanhado de um porre etílico ou over dose de falta de lucidez).

A verdade é que os bêbados são sinceros, os loucos são honestos e os quase-dormindo são quase-felizes.

No Carnaval estão quase todos loucos e quase todos bêbados.

Por isso, e só por isso, o Carnaval é a vida como ela deveria ser!

Onde, mesmo com fantasias, estão todos sem as máscaras.

No dia seguinte, só uma ressaquinha moral e aquelas três mensagens que você não deveria ter mandado, mas que ainda bem que mandou!

Não, não vou responder porque estou sóbria e esse bom senso não larga do meu pé!

*É de fazer chorar, quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar. Oh quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar!

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Samba from Recife!

19/02/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Nem só de mulatas semi-nuas vive o samba. Karynna Spinelli, nascida em Pernambuco e criada no samba veio pra provar, lançando seu segundo CD, Gira Mundo! Olha as fotos da divulgação como estão um escândalo de lindas!

Entre shows no Morro da Conceição e a apresentação do programa da TV Jornal, Clube do Samba, a moça mostra que pernambucano tem sim, samba no pé!

Segue a programação do Carnaval, pra quem quer sambar:

#18.02 Karynna Spinelli apresenta GIRA MUNDO, no Pólo Bomba do Hemetério, às 23h.
#19.02 Karynna Spinelli, Fabiana Cozza, Jussara Silveira e Nilze Carvalho apresentam QUATRO CANTOS, no MARCO ZERO , às 22h30.
#20.02 Participação no cortejo das Conxitas, às 17h, no Bairro do Recife.
#20.02 Karynna Spinelli apresenta GIRA MUNDO, no Fortim de Olinda, às 23h.
#20.02 Karynna Spinelli apresenta GIRA MUNDO, às 22h, em Paudalho-PE.
#21.02 Karynna Spinelli, Lucas dos Prazeres, Ana Paula Guedes e Mestre Fabiano apresentam CANTO NEGRO, no Pátio do Terço, às 20h.
#21.02 Participação no show de Renata Rosa, na Praça do Arsenal
Clip novinho em folha:

Fotos: Juan Guimarães
Figurino: Cabeças: Xuruca Pacheco, Colares: Da Loja de Prazeres Acioly
Locações: Morro da Conceição e Ateliêr de Leopoldo Nóbrega.
Produção Geral: Maurício Spinelli
Equipe de Produção: Jorge Féo, Natália Oliveira e Bruno Takahashi

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O lado Coca-Cola da vida!

13/02/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Funciona mais ou menos assim:

Se for mulher, estiver com sede e afim de tomar uma coca-cola, ela vai na geladeira, pega a coca, coloca gelo e bebe. Simples assim.

Se for um homem e ele estiver com a mesma vontade, ele vai na geladeira e olha para a coca-cola. Uma olhada rápida, pra não dar muita pinta. Dois dias depois, abre e dá um gole, só pra sentir o gosto. Aí, se tudo der certo, na semana seguinte ele pega a coca-cola. Não, ele não vai ligar para ela no dia seguinte porque ele sabe que ela vai ficar ali, na geladeira, onde é o lugar dela. Nada de mensagens no facebook pra dizer que ela é uma coca-cola super legal, com bastante gás e que com gelo fica uma delícia. Não, nada disso. Ele bebeu a coca e, mesmo que queria mais,vai fingir que agora quer uma fanta uva. Passa uns dias por ali, indeciso entre uma sprite e um kuat, mesmo sabendo que a coca-cola é bem melhor. Mas ela não pode saber que ele prefere a coca. Porque, sei lá, ele quer mesmo que ela fique ali, sem entender nada e se perguntando: “se ele gosta de coca, porque porra ele tá bebendo água?”
Ela ainda tenta explicar que, além de gostosa, combina com feijoada, com ressaca, carnaval e vodka.
- Já experimentou misturar com rum e gelo?

Não, ele ainda não teve tempo de provar porque está muito ocupado trocando o garrafão de indaiá.
Acontece que ela é a última do deserto e não vai ficar ali, naquela geladeira, entre o queijo e a mortadela esperando ele ligar.
As coca-colas são assim; cheias de gás e auto-estima.

Sem falar que, como ele, outras pessoas também gostam de coca-cola afinal, ela é a mais disputada no reino dos refrigerantes. Posso até me arriscar a dizer que, neste domingo de ressaca, tem mais gente precisando de coca-cola do que da paz mundial.
Doce na medida certa e com as versões light e zero, para quem preferir.

Desentope até pia, pô!

Mas, por enquanto ainda não desentope o que está entalado na garganta.
Ele sabe disso tudo, mas, mesmo assim, só vai voltar na semana que vem.
Aí não vai entender porque ela está sem gás.

Vai ficar com sede! Puta mundo injusto, mêu.

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É daqui pro mundo!

12/02/2012 por

Por Téta Barbosa, direto do Recife (*)

Esse editorial com cara de revista gringa é daqui mesmo. Feito pela equipe da Of The Moda (revista online) e modelos da EP models, o espírito esportivo teve seu dia fashion. Do campo de futebol para a piscina e seguindo para as pistas de skate, as tendências do inverno 2012 desfilaram sob a coordenação do stylist pernambucano Dário Shoupaiwisky.

Medalha de ouro para o trabalho da Of The Moda!

1º Editorial
Editorial: Soccer Match
Model: Elisa Leão (EP Models Agency)
Styling: Dário Shoupaiwisky
Photographer: João Arraes
Beauty: Chico Domingues
Production Executive: Thaysa Rolemberg

2º Editorial
Editorial: Underneath
Model: Amanda Nascimento (EP Models Agency)
Styling: Dário Shoupaiwisky
Photographer: Jonathan Wolpert
Beauty: Jane Silva
Production Executive: Thaysa Rolemberg

3º Editorial
Editorial: Wallrides
Model: Claude Luiz (EP Models Agency)
Styling: Dário Shoupaiwisky
Photographer: Thiago Santons
Making of:

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Simbora pra Sala da Justiça!

09/02/2012 por

Por Téta Barbosa, direto do Recife (*)

Se quiser ir para o ENQUANTO ISSO NA SALA DA JUSTIÇA é só preparar a fantasia porque o Batida Salve Todos e a Doritos ® vão te levar.

Para participar da promoção e ganhar ingresso com direito a carona de ida no Simbora Móvel é só escrever no twitter a fantasia que você vai!

A ideia mais criativa ganha!

Assim ó: @batidateta vou para a Sala da Justiça fantasiada(o) de…….

Se você não for sorteado no blog, ainda tem uma segunda chance:

Acesse www.facebook.com/simboradoritos e participe do concurso cultural Simbora Amigos. Você pode curtir o melhor do carnaval e ainda concorrer a Melhor Ressaca Ever em Fernando de Noronha.

A promo vale até quinta-feira às 6 da noite! Na sexta divulgo o ganhador.

Bora? Um, dois, três e já!

Na sexta eu vou para o Carvalheira Fantasy ( de Simbora Móvel, claro, porque eu não agüento mais ser parada por blitz do bafômetro) e vou clicar os looks mais bacanas. Então, capricha na produção visse?

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Da lama ao caos

06/02/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Ariano Suassuna não aprovava o Science, achava que tinha que ser Ciência mesmo, no português bem dizido do Nordeste. Mas Chico bateu o pé, disse que era Science, levantou poeira e cantou “Pernambuco em baixo dos pés e a mente na imensidão”.

E assim o nordeste do poeta Suassuna se curvou a uma nova espécie nascida na lama do manguezal: os Chamagnatus granulatus sapiens, ou caranguejos com cérebro!

Chico Science e sua Nação Zumbi enterraram a parabólica na lama e lá nasceram risofloras: as flores do mangue. E das flores brotaram músicos, bandas, filmes, moda, arte e o orgulho de ser mangue boy e mangue girl.

Já não se via recifense imitando sotaque carioca nem artista querendo debandar para São Paulo.

Chico cantou da lama ao caos. E o caos chegou num Sábado de Carnaval, há quinze anos, quando o carro do caranguejo rei fez uma curva (que não era a de Santos) e encontrou um poste.

Quem já se viu? Um poste bem no caminho do Carnaval!

E assim o sábado de Zé Pereira virou Quarta-Feira de Cinzas num dia de sol e tristeza.

Chico morreu levando consigo os anos 90 e o sonho tropicalista armorial.

Deixou um legado aos caranguejos filhos: subir no bonde da história!

E deste bonde, a gente num desce nem a pau. E nele, passeando sobre os trilhos enlamaçados os súditos do Carnaval sem fim: Fred Zero Quatro, China, Karina Buhr, Mombojó, Eddie, Otto, Canibal, entre os aratus, chiés, caranguejos e guaiamuns.

Órfãos que carregam o legado e um maracatu que pesa uma tonelada.

Enquanto o povo caranguejo sussurra:

“Eu vim com a nação zumbi
Ao seu ouvido falar
Quero ver a poeira subir
E muita fumaça no ar
Cheguei com meu universo
E aterriso no seu pensamento
Trago as luzas dos postes nos olhos
Rios e pontes no coração
Pernambuco em baixo dos pés
E a minha mente na imensidão”

* 15 anos sem Chico! (Olinda, 13 de março de 1966 — Recife, 2 de fevereiro de 1997)

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Em busca da cocção perdida!

30/01/2012 por

Em busca da cocção perdida!

Por Téta Barbosa, a partir do Recife.

- A cocção está perfeita, dizia uma.

- Ah, a cocção a melhor característica dos franceses. Dizia outra.

- Hummm, que cocção! Finalizava o terceiro.

Se eu tivesse um iphone, teria pedido licença, ido ao banheiro discretamente, e dado aquela rápida busca no google: cocção, significado/sinônimo.

Não tenho iphone, nem ipad, nem isalário para ter essa itecnologia.

Também não tenho cocção no meu limitado repertório literário fashionista.

Busquei pela memória, mas nada, num raio de 300 km me dava a menor pista do que seria aquela palavra alienígena no meio da conversa.

A única dica: comida!

Sim, cocção, aparentemente, tem haver com gastronomia e comida boa. Isso porque o diálogo se deu na mesa do Mingus durante menu degustação de um chefe internacional.

Na mesa: Nicolau – o dono de restaurante mais rock n’roll da cidade, Mari Lobo – jornalista especializada em gastronomia, Luciana – chef de cozinha com diploma na frança e, no meio dos três, eu – mestrado em fast food e doutorado em miojo.

Na cozinha, Christian Peyre, chef francês que veio passar uma noite no Mingus.

Deve ser o corte da carne, pensei eu ao provar o Foie Gras, que só em casa, no dia seguinte, descobri que é fígado de pato.

Mas quando serviram o camarão e a cocção continuava como estrela das atenções, imaginei que fosse o molho, já que camarão não tem corte. Aí, chegou o cordeiro, que não tinha molho mas tinha, claro, uma cocção incrível.

Olhei em volta na busca de alguém que tivesse o mesmo olhar de “não estou entendendo nada” que eu. Ninguém. Todos degustando a cocção come se fosse o hot pocket do dia a dia.

Imaginei a jovem senhora que estava na mesa ao lado, servindo o almoço do

filho de 8 anos e dizendo:

- Filho, come tudinho.

E ele respondendo, na maior naturalidade.

- Vou comer mãe porque a cocção está ótima.

Vai ver que é por isso que Victor tá tão magrinho: lá em casa não tem cocção. E se tem, ainda não fui apresentada.

Lá pelas tantas, duas entradas, dois pratos principais e duas sobremesas depois o chef sentou na nossa mesa e a conversa passou a ser em francês.

Precisa dizer que eu era a única não fluente na língua de Simone de Beauvoir?

Na última sobremesa, um bolinho de mel, erva-doce e cravo da índia com sorvete de wisky, eu, que até então não tinha ousado dar minha opinião sobre os pratos, muito menos sobre a cocção, suspirei e disse:

- Esse é foda!

O chef riu e disse (em francês que depois me foi traduzido):

- Não entendo uma palavra em português, mas entendi o que ela disse!

Só para provar que não é preciso entender de cocção para saber se uma comida é boa.

E a do Mingus é foda!

COCÇÃO – s.f. Ato ou efeito de cozer. É uma ação na qual os alimentos sofrem a ação do calor e são mais facilmente digeridos e melhor incorporados a outros. Numa dieta, por exemplo,alguns alimentos só podem ser ingeridos após a “cocção“, ou após COZIDOS.

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A casa perfeita!

29/01/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife.

O lugar tem muito verde, é tranquilo, silencioso e colorido.

Só que o contrário.

Assim é o local onde estou temporariamente hospedada: a casa dos meus pais!

Dividindo o quarto com meu filho, uma geladeira e o fogão, estou por aqui até meados de março quando conseguirei, se tudo der certo, liberar meu apartamento do cativeiro burocrático!

Já tentei agilizar o processo, pagar resgate, subornar a gerente do banco. Tudo em vão. Tentei, por meios legais e ilegais, diminuir regras e procedimentos redundantes, desnecessários ao funcionamento do sistema de moradia. Não rolou.

Me resta assumir o papel de “o bom filho a casa torna” e gozar de alguns meses sem pagar conta de luz, condomínio e telefone.

Aqui é só amor.

Só tem dois probleminhas básicos:

1 – Como toda mãe que se preze, a minha acha que eu preciso engordar! Me empanturra de guloseimas compradas especialmente para mim e Victor como se tivéssemos chegado diretamente da Somália. Estou me sentindo a Maria, da história de João e Maria, onde os dois ficam presos numa casa construída de biscoitos e chocolates. A diferença é que aqui, além dos biscoitos e chocolates tem empadas, coxinhas, tapioca, musse de chocolate, pudim de leite e todas as outras coisas com mais de 897 calorias por porção. Pra Victor tá beleza, porque em fase de crescimento um pacote de Bis é só a pré sobremesa antes do pavê de sonho de valsa.

Para mim, o crescimento tem sido no sentido horizontal, e não vertical.

O objetivo da minha mãe é que, quando meu apartamento for liberado, eu esteja pesando 283 k e não consiga passar pela porta, o que me obrigará a ficar morando aqui para todo o sempre.

2 – O segundo probleminha é que meus pais devem ter sido italianos na encarnação passada: adoram barulho. Todo e qualquer. Música, televisão (3 ligadas ao mesmo tempo o dia TODO),jogo no rádio e telefone . Tudo isso num prédio em frente ao Carrefour onde passam carros, ônibus, ambulâncias e muitos, muitos caminhões que abastecem o supermercado do outro lado da rua.

Então, no meio desta suruba alimentar/auditiva, coloco meu phone de ouvido e vou para o gloogle pesquisar minha casa perfeita.

Ela seria silenciosa, com janelas amplas, estantes com muitos livros, verde ao redor e cor. Muita cor.

Como meu apartamento novo não vai ter janelas amplas nem vai ser tão silencioso assim, vou me concentrar nas estantes com livros, em algum verde e na cor. Muita cor.

Acho que posso ser feliz com a trilogia: livros/plantas/cor!

E você, precisa de que para ser feliz?

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Você sabia?

25/01/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Maria, 5 anos, estava por ali enquanto eu estava por aqui escrevendo. Tentando
- Tia, vamos jogar Perfil.
- Já já. Agora estou trabalhando.
Correu, cantou, virou duas cambalhotas.
- A agora? Vamos brincar de Polly?
- Me dá 10 minutos Maria.
Foi na cozinha, tomou um toddynho …
- A agora? pode brincar agora?
-Maria, se tu ficar aperriando não vou terminar isso nunca.
Sentou no chão, suspirou e disse (juro por Deus):
- Sabia que corpo sem alma é parquinho do diabo?
Tirei os olhos do computador pela primeira vez.
- Como?
Ela repetiu pausadamente.
- C-o-r-p-o s-e-m a-l-m-a é p-a-r-q-u-i-n-h-o d-o d-i-a-b-o.

Larguei tudo e fui jogar Perfil o resto da tarde.
Porque com diabo não se brinca. Nem no parquinho!
Vai saber…

Desde então fiquei com vontade de ligar para o pessoal da PM e perguntar:
- Sabia que corpo sem alma é parquinho do diabo?
Pode ser que eles não respondam. Mas que vão prestar atenção na pergunta, vão!

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Declaração de amor ao Carnaval

23/01/2012 por

Declaração de amor ao Carnaval

Por Téta Barbosa direto do Recife (*)

Ah, o Carnaval!

A única regra é ir atrás do bloco.

Ou do lado do bloco, ou na frente, ou onde você conseguir um lugarzinho para se enfiar.

E no bloco não se usa gravata, não se bate o ponto.

Para ficar junto da orquestra, não é preciso pegar senha nem ficar atrás da linha amarela.

Não precisa pagar entrada nem segurar o mamãe-sacode (não no Recife!).

A catraca não existe. Lugar marcado? Nem pensar.

O Carnaval não tem farda nem crachá.

O Carnaval é anarquista, graças a Deus.

No topo da pirâmide hierárquica, só o cabra que segura o estandarte (que só tem essa regalia porque o negócio é pesado e o coitado merece um espacinho maior).

No mais, é uma organização libertária!

Não, não é um caos.

É desordenadamente feliz!

Desorganizadamente democrático.

O Carnaval não é doutrina, não é religião. É um estado de espírito.

Talvez você, que nunca subiu uma ladeira atrás do EU ACHO É POUCO, nem ido a prévia do AMANTES DE GLÓRIA, não entenda!

O Carnaval não vem de fora para dentro, seu Zé.

Ele vem de dentro para fora!

E só acontece uma vez por ano.

E só uma vez por ano você pode esquecer que o seu salário é mínimo, que seu prefeito é louco e que a sua senha é a número 354.

No carnaval você ó o rei. Ou o índio ou o palhaço.

No carnaval você é feliz!

Eu sou filha do Carnaval! Alias, todos aqui em casa.

Nove meses depois da festa, nascia um!

Talvez, justamente por isso, eu moro dentro do carnaval e ele dentro de mim.

É como meu fígado, meu estômago, meu esôfago.

Na aula de ciências, tenho quase certeza que a professora explicou que ele fica por ali, entre o coração e o pulmão.

E, como uma pessoa consciente da necessidade de Carnaval neste mundo, já até fiz meu registro:

“Declaro, para os devidos fins, que na pós-morte, passo à condição de doadora dos órgãos vitais. Assim sendo, podem doar minhas córneas, meu pâncreas e meu Carnaval!”.

Acho que um sujeito que nasceu em Curitiba, Brasília ou no Acre, poderá fazer bom uso do meu Carnaval depois que eu me for.

E por que eu estou falando de Carnaval em Janeiro?

Por que aqui já começou!

Bora?

(*) Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali. Escreve aqui sempre às segundas-feiras sobre modismos, modernidades e curiosidades. Ela também tem um blog – Batida Salve Todos

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Minha vida parece cena de filme… barato!

20/01/2012 por

Por Téta Barbosa direto do Recife.

Cenário : Mesa de lanchonete.

Interior – dia.

Personagens: filho adolescent e mãe louca.

Victor segurava a senha de chamada do lanche enquanto eu, para matar o tempo, apagava as mensagens antigas do celular.

Nada como um almoço interativo em família!

Sem tirar o olho do painel, aquele que vai mostrando o número da senha chamada, ele disse com voz solene:

- Eu queria saber sua opinião sobre brinco.

Assim mesmo, sem nenhuma preliminar.

- Brinco? Eu disse bem lentamente para ganhar tempo enquanto meus neurônios se atropelavam para encontrar a resposta certa.

E ele, assim como Brutus, deu a facada final nas costas de Júlio César e disse:

- Brinco não. Alargador.

Palpitação, taquicardia, falta de ar.

Não bati o carro porque não estava num carro.

Não me engasguei porque o almoço não tinha chegado.

Mentalmente eu bati o carro enquanto me engasgava.

- Acho ótimo, eu disse calmamente.

Essa foi a mentira mais deslavada que saiu da minha boca nos últimos 38 anos de vida. Mas, era preciso ganhar tempo e achar os motivos certos para tirar essa ideia da cabeça de Brutus. Quer dizer, Victor.

- Acho ótimo filho, mas…

As mães são assim, sempre arrumam um jeito de colocar um mas no meio da frase e, entre uma vírgula e outra, enfiar um discurso cheio de caretice, preconceitos e estereótipos.

Como eu me encontro na categoria MÃE, fiz o devido uso do mas, que me é de direito e continuei, no maior cinismo:

- …. mas o problema do alargador é que depois fica o buraco, né? Não fecha mais.

Se existisse uma lista de argumentos ridículos, este estaria, com certeza, no início da lista. Tipo no TOP 5!

Mas falei séria e pausadamente, para ele não desconfiar da babaquice da minha resposta.

- Só vou colocar até o 8. O buraco grande só fica depois do 12.

- Ah, existem números. Como é isso?

Esta pergunta foi estratégica para que, enquanto ele explicasse sobre os números, milímetros e processos do alargador, meu cérebro e coração se entendessem e conseguissem chegar a um acordo. Eu podia sentir o movimento dos neurônios dentro da minha cabeça, correndo de um lado para o outro, procurando, desesperados, um argumento menos imbecil.

Neste momento, ouvi o eco de um impulso nervoso gritando lá longe: dor, dorrrrr.

- Deve doer, né?

Eu disse numa falsidade capaz de ganhar o Oscar de melhor atriz dramática.

- É. Isso é verdade. É por isso que eu ainda estou na dúvida se vou ou não colocar. Minha amiga disse que dói que só.

Cesta de três pontos para mim!

Isso Teta Barbosa, agarra o argumento dor com se fosse a dor de um parto normal.

-É, deve doer muito. Sem falar que é ruim para dormir com a orelha ardendo, a pessoa fica sem posição. Deve ser horrível.

A essas alturas, eu já estava fazendo caras e bocas, expressões de medo e pavor.

- É, vou pensar melhor no assunto.

Foi a última frase que ele disse antes de levantar para pegar o cheeseburger sem verdura e milk shake de 700ml, porque a senha 5057 apareceu no painel.

And the Oscar goes to….

Já me imaginei recebendo a estatueta da festa hollywoodiana, num vestido Chanel e jóias da Tiffany, quando me veio a pergunta:

- Mas porque danado eu não quero que Victor coloque um alargador?

Acho que é porque ele é meu bebê e eu quero que ele continue sendo meu bebê. E bebês, minha senhora, não costumam sair por aí de alargador número 8 na orelha.

Então, estamos aqui eu, minha caretice e meu preconceito comendo um Cheese Filé sem maionese enquanto minha consciência diz:

- Hipocrisia, sai deste corpo que não te pertence!

Fade out.

Créditos finais.

Sobe som.

“ Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais…”

The End.

* Essa cena aconteceu de verdade. Hoje no Bugaloo do Carrefour.

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