O burro do presépio e o Cristo nu
Por Zarcillo Barbosa (*)
No Céu também há estrebarias. É isso que ensina o burro do presépio. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14,2). O Céu não é só o lugar derradeiro de grandes apóstolos, dos mártires heroicos, dos sacerdotes e dos doutores da Igreja, das virgens puras e santos incomparáveis. Lá também há lugar para aqueles que souberam levar a carga que a vida impõe a cada um, com fidelidade e diligência. Mas não é qualquer asno que entra no Céu. Não basta ser um bom jerico para ter lugar nas cocheiras celestiais.
Claro que é condição essencial ser um jumento de qualidade. E isso, admitamos, não é nada fácil. Muitos conseguem carregar certas coisas algum tempo, mas o bom burro é aquele que carrega o que tiver de ser, sem discutir, sem escolher, sem resmungar, sem pedir descanso, contentando-se com a ração.
Há outra condição para o burro entrar no Céu. Que ele entenda – embora burro – o valor da carga que leva. O burro do presépio levava uma mulher, como qualquer outra. Mas aquela senhora tinha dentro de si o Salvador.
Era isso que fazia dele o burro do presépio. Aqueles que pretenderem seguir os seus passos para chegar ao Céu têm que compreender o valor de tudo o que levam. “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16,24). Assim se entra o céu, levando a carga da vida. Podem achar que virei um pregador arrependido, com esta lição conformista. Para os utópicos não metafísicos só serve para atrasar a Revolução e induzir ao trabalho dócil em função dos interesses do capital. Não tenho tal pretensão.
A carga que me refiro é aquela imposta pelos percalços da vida, da qual ninguém escapa – nem a burguesia e muito menos o proletariado. Esta é a grandeza do burro do Presépio, uma das mais notáveis da história da salvação.
O presépio poderia existir sem a vaca. Poderia existir sem os pastores, os carneiros e sem os Reis Magos. Até poderia existir sem José e os anjos. No Presépio existem apenas três personagens indispensáveis: Jesus, Maria e o burro. Jesus é o Deus que se fez homem, que muda o sentido do universo. Maria é o caminho que Jesus escolheu para vir.
O burro é o meio de lá chegarem. Sem Jesus não há presépio. Sem Maria, Jesus não teria nascido. Sem o burro, Maria não teria chegado ao presépio. São os que sobram no final da Semana Santa. Jesus é crucificado, a Senhora das Dores o ampara até o final e o burro leva o Rei no Domingo de Ramos. Até a glória da cavalariça celestial.
A própria Igreja compreende a necessidade de levar a carga da crise que atinge o catolicismo universal. Bento XVI tem o desafio de “limpar a Igreja”, como ele mesmo afirmou. A crise é sempre uma oportunidade de mudança, a começar pela relação entre o catolicismo e a sexualidade. Não dá mais para interditar métodos “artificiais” de planejamento familiar, como impõe a encíclica Humanae Vitae há quatro décadas.
Milhares de padres e freiras distribuem camisinhas na África, em campanha de combate à Aids. O celibato castrador de afetos é tido como uma das causas da pedofilia. É certo que a maioria dos casos de abusos acontece com pais e familiares próximos das crianças. O celibato, como opção voluntária pode representar mais dedicação à atividade pastoral.
Mas, chega de proibir o que é natural. As mulheres, em busca do justo espaço, querem o seu lugar também no altar, dizendo missa, pregando a Palavra e cuidando do rebanho.
Chegou ao fim o ensino compulsório de religião nas escolas públicas; de riança ser obrigada a rezar o pai-nosso antes da aula e do crucifixo em todas as repartições públicas. O laicismo se manifesta em tudo, até em função do espetáculo.
Lady Gaga lança um vídeo chamado “Judas”, onde interpreta o papel de Maria Madalena. Inspira-se em “Like a Prayer”, de Maddona. Na cidade de Medina Del Campo, interior da Espanha, a comunidade mandou fazer uma imagem de Cristo “nos braços da morte”, nu, exibindo os genitais. Os fiéis se cansaram de Jesus emasculado.
Querem mostrar que “a Igreja é que está nua” e chegou a hora de levar a própria cruz.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC, escrevendo aos domingos pelo www.jcnet.com.br
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O movimento é tão sério que o prefeito vai trabalhar de bicicleta para incentivar o uso de meios de transporte não-poluidores. Metade da população usa o transporte público. Todos andam com sua garrafinha de água reutilizável e sacolinha de pano. San Francisco ganhou o título de cidade que menos desperdiça no país. Seus habitantes têm o hábito de apagar a luz quando caminham de um cômodo para outro e de a andar a pé. Boa parte da frota de táxis é híbrida. Usam carros elétricos e a gasolina.
O espírito natureba do povo se manifesta no próprio prédio, inaugurado há dois anos.
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Enquanto fantasia nas ruas molhadas (“Paris é mais bela sob chuva”) sonha com a Era de Ouro cultural, na década de 1920, e se interessa em conhecer o restaurante onde James Joyce comia salsichas. A noiva de Gil nem se interessa por esse roteiro nostálgico-cultural e prefere outros programas com os pais e amigos.
De Paris se espraiou a renovação das artes plásticas, da literatura e da música que continuam fazendo sentido nos tempos atuais. Para nós, aqui em terras tapuias só restava deglutir todo esse acepipe cultural e tentar regurgitar algo diferente, como propunha o Movimento Antropófago de Osvald de Andrade. Exatamente como em toda a sua filmografia, Woody Allen equaciona o difícil equilíbrio entre comunicação e profundidade, significância artística e penetração comercial, classicismo e modernidade. A grande e singela lição que nos deixa é que a idade de ouro é um mito. Poderia também ser a do Renascimento, com Michellangelo e Tiziano. A única idade de ouro possível é o presente, o único que há.
Como cinemeiro há muitos anos até já vi esse filme antes. Há um filme de George Cukor – Fatalidade – que deu a Ronald Colman o Oscar de ator principal. Ele encena um Otelo tão realista que projeta o ciúme doentio do personagem shakespeariano na ex-esposa parceira em cena. Na ópera I Pagliacci, de Leoncavallo, o ator é traído pela mulher e mistura o real com a peça que interpreta. Cisne Negro dá pinceladas numa possível histeria de Nina, e vai apresentando aos poucos seu mergulho num processo de esquizofrenia cada vez mais profundo. A partir de certo momento, ela não consegue mais distinguir entre realidade e alucinação, e passa a agir indistintamente em função de qualquer uma das duas como se fossem a mesma coisa. O diretor tem indiscutível talento como contador de histórias, muito mais do que a pretensa profundidade que pretende dar no sentido psicanalítico.
Também não precisava apelar tanto para o lesbianismo e a homossexualidade explícita. A boa atriz francesa Romi Schneider teve sua carreira arruinada porque apareceu numa cena tórrida, mas apenas sugerida, de sexo anal com Marlon Brando. A cena exibe corpos entrelaçados, mas só o tablete de manteiga aparece, pretensamente usado como lubrificante. Último Tango em Paris foi lançado em 1973. A censura ditatorial só permitiu a exibição no Brasil em 1979. Os ricos viajavam para Nova York ou Londres para assistir ao filme, levados por aquela pulsão freudiana capaz de atiçar o imaginário de um frade de pedra.
Por Zarcillo Barbosa (*)
Vivemos hoje no reino do pensamento binário. Ou somos criacionistas ou evolucionistas. Nós nos apegamos a essa separação radical entre duas maneiras de viver. A natureza já foi, outrora, fonte de muita graça e mística. Os povos antigos não viam, por exemplo, o Sol como simplesmente uma estrela de um sistema cósmico, mas tinham nele a representação de um Deus. Foi o homem moderno, com sua ciência, que conseguiu desmistificar e fazer perder o significado sagrado da natureza. São emblemáticas as cenas de Seann Penn no prédio high-tech do Citicorp, em Nova York. A mensagem que fica é que uma vida sem tormentas, seja em que época for, depende da nossa capacidade de viver enxergando graça e magia, nas situações mais comuns da natureza e do ser humano.
Se há um perigo com respeito a Árvore da Vida é ser interpretado como filme religioso. É muito mais filosofia embora tenha fundo espiritual, ou seja, anseia explorar além da matéria.
Deus e o pai autoritário (Brad Pitt) plantaram a árvore da vida no centro do Éden, onde se enlaçou a serpente. Ali o homem começou a questionar as suas ordens. Jó quis saber o porquê de estar passando por tantas desgraças. Afinal, ele era um homem justo! Pobre Jó, as fatalidades da vida independem de nossa integridade. “O diabo é dissimulado, Deus age às brutas”, dizia o jagunço Riobaldo. A recompensa virá em dobro aos que não perderem a fé. Para os que não creem, fica a lição: a prática da felicidade é uma constante batalha interior, carregada de escolhas, perdas, dores, mudanças, fantasias, desejos, medos e sonhos baseados na realidade de cada um.
Por Zarcillo Barbosa (*)





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