O burro do presépio e o Cristo nu

28/04/2012 por

O burro do presépio e o Cristo nu

Por Zarcillo Barbosa (*)

No Céu também há estrebarias. É isso que ensina o burro do presépio. “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14,2). O Céu não é só o lugar derradeiro de grandes apóstolos, dos mártires heroicos, dos sacerdotes e dos doutores da Igreja, das virgens puras e santos incomparáveis. Lá também há lugar para aqueles que souberam levar a carga que a vida impõe a cada um, com fidelidade e diligência. Mas não é qualquer asno que entra no Céu. Não basta ser um bom jerico para ter lugar nas cocheiras celestiais.

Claro que é condição essencial ser um jumento de qualidade. E isso, admitamos, não é nada fácil. Muitos conseguem carregar certas coisas algum tempo, mas o bom burro é aquele que carrega o que tiver de ser, sem discutir, sem escolher, sem resmungar, sem pedir descanso, contentando-se com a ração.

Há outra condição para o burro entrar no Céu. Que ele entenda – embora burro – o valor da carga que leva. O burro do presépio levava uma mulher, como qualquer outra. Mas aquela senhora tinha dentro de si o Salvador.

Era isso que fazia dele o burro do presépio. Aqueles que pretenderem seguir os seus passos para chegar ao Céu têm que compreender o valor de tudo o que levam. “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16,24). Assim se entra o céu, levando a carga da vida. Podem achar que virei um pregador arrependido, com esta lição conformista. Para os utópicos não metafísicos só serve para atrasar a Revolução e induzir ao trabalho dócil em função dos interesses do capital. Não tenho tal pretensão.

A carga que me refiro é aquela imposta pelos percalços da vida, da qual ninguém escapa – nem a burguesia e muito menos o proletariado. Esta é a grandeza do burro do Presépio, uma das mais notáveis da história da salvação.

O presépio poderia existir sem a vaca. Poderia existir sem os pastores, os carneiros e sem os Reis Magos. Até poderia existir sem José e os anjos.  No Presépio existem apenas três personagens indispensáveis: Jesus, Maria e o burro. Jesus é o Deus que se fez homem, que muda o sentido do universo. Maria é o caminho que Jesus escolheu para vir.

O burro é o meio de lá chegarem. Sem Jesus não há presépio. Sem Maria, Jesus não teria nascido. Sem o burro, Maria não teria chegado ao presépio. São os que sobram no final da Semana Santa. Jesus é crucificado, a Senhora das Dores o ampara até o final e o burro leva o Rei no Domingo de Ramos. Até a glória da cavalariça celestial.

A própria Igreja compreende a necessidade de levar a carga da crise que atinge o catolicismo universal. Bento XVI tem o desafio de “limpar a Igreja”, como ele mesmo afirmou.  A crise é sempre uma oportunidade de mudança, a começar pela relação entre o catolicismo e a sexualidade. Não dá mais para interditar métodos “artificiais” de planejamento familiar, como impõe a encíclica Humanae Vitae há quatro décadas.

Milhares de padres e freiras distribuem camisinhas na África, em campanha de combate à Aids. O celibato castrador de afetos é tido como uma das causas da pedofilia. É certo que a maioria dos casos de abusos acontece com pais e familiares próximos das crianças. O celibato, como opção voluntária pode representar mais dedicação à atividade pastoral.

Mas, chega de proibir o que é natural. As mulheres, em busca do justo espaço, querem o seu lugar também no altar, dizendo missa, pregando a Palavra e cuidando do rebanho.

Chegou ao fim o ensino compulsório de religião nas escolas públicas; de riança ser obrigada a rezar o pai-nosso antes da aula e do crucifixo em todas as repartições públicas. O laicismo se manifesta em tudo, até em função do espetáculo.

Lady Gaga lança um vídeo chamado “Judas”, onde interpreta o papel de Maria Madalena. Inspira-se em “Like a Prayer”, de Maddona. Na cidade de Medina Del Campo, interior da Espanha, a comunidade mandou fazer uma imagem de Cristo “nos braços da morte”, nu, exibindo os genitais. Os fiéis se cansaram de Jesus emasculado.

Querem mostrar que “a Igreja é que está nua” e chegou a hora de levar a própria cruz.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC, escrevendo aos domingos pelo www.jcnet.com.br 

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“O Coração das Trevas”

14/03/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

No Museu de Oslo a tela “O Grito” (1893), de Edvard Munch retrata uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. No fundo dessa tela, ícone da pintura expressionista, o céu de cores quentes dá mais dramaticidade à dor do grito, não só do personagem, mas de um mundo torto e disforme.

É o retrato da Noruega hoje, depois do massacre que fez 76 vítimas entre jovens socialistas que se confraternizavam numa ilha e foram silenciados a tiros de fuzil e pistola. Ou pela bomba que explodiu no centro cívico da capital. Seria inútil tentar explicar as causas de uma tragédia. O funesto é o que infunde medo ou terror. Acontece porque acontece, sem explicações psicossociais ou transcendentais.

Jamais saberemos o que teria levado Anders Breivik, 32 anos, a praticar ato de tamanha crueldade e frieza. Este norueguês, jovem e saudável, tinha tudo para ser feliz num Estado provedor, onde nada falta aos seus habitantes. Todos eles são partícipes da receita do petróleo, um tesouro fóssil sob o mar, descoberto em 1969.

Possível é saber o que pensa, e como pensa o cidadão Breivik. Pelo seu Facebook, pelo manifesto que deixou, pelos escritos descobertos pela polícia em sua casa podemos delinear o perfil intelectual desse caçador da anticivilização. Percebe-se que ele é um ultradireitista e islamófobo.

Inimigo do marxismo cultural e do multiculturalismo. Anunciava uma “guerra de sangue” contra os imigrantes que invadem o paraíso norueguês e conspurcam a pureza loira dos descendentes dos vikings. Uma eugenia muito parecida com a do nazifascismo, até hoje com muitos seguidores, até mesmo entre nós. Inspirava-se em “Unabomber”, o pseudônimo do brilhante matemático norte-americano Theodore Kaczynski, que entre 1975-1995 aterrorizou o seu país com 16 cartas-bombas enviadas à autoridades. Como o seu inspirador, este norueguês também acredita no terrorismo como “método para despertar as massas”.

Entre os seus escritores preferidos está Stuart Mill, autor de “Sobre a Liberdade”. No livro há um trecho que diz: “se toda humanidade tiver uma opinião e uma só pessoa tiver uma opinião contrária, a humanidade não teria justificativa para silenciar essa pessoa, do mesmo modo de que essa pessoa se detivesse o Poder, não teria a justificativa para silenciar a humanidade”. Breivik também tem entre suas obras favoritas “1984”, de George Orwell, e “O Processo”, de Kafka. Se ele leu atentamente, nenhum desses humanistas citados poderia conduzi-lo a tamanha barbárie.

A polícia também descobriu que o “monstro” ama a poesia norueguesa de mais de mil anos e que teve papel importante na construção da nação. O grande poeta Bjornstjerne Bjornson (1910) foi prêmio Nobel. Sua poesia “Sim, nós amamos nossa terra” foi transformada em letra do Hino Nacional.

Breivik também era leitor de T.S. Elliot, John Donne e Yeats. Até fazia versos com alguma qualidade. Lembra aquele personagem de um dos maiores romances da literatura mundial, “O coração das trevas”, do polonês-americano Joseph Conrad. O marujo Marlow sob o rio Congo para encontrar Kurtz, um misterioso negociante de marfim, que vive escondido no alto da floresta, densa, fechada, escura. Trata-se de um homem impiedoso, temido pelos nativos. Enquanto sobe o rio, Marlow produz a respeito de Kurtz uma série de idealizações, já que nunca o tinha visto.

Descobre mais tarde que o homem temido da floresta negra, nos seus acessos de fúria e desespero recita poemas. “O senhor deveria tê-lo ouvido recitar poesia… de sua própria autoria. Poesia!”. Como pode a poesia nascer de um homem enlouquecido e feroz? Eis a reflexão dolorosa que Joseph Conrad nos leva a fazer: a beleza, mesmo a mais extrema, embora não venha necessariamente do mal, pode, sim, dele proceder.

A beleza não tem moral. Nada nos garante que o belo é sempre moral, ou o melhor. Pode ser, pode não ser. A maldade é a ausência de sentido, e não a ausência de beleza. Mas, então, como pode ela estar na poesia que é, por definição, um esforço desesperado para emprestar significado ao que, a rigor, nada significa? A poesia é fracasso. Os versos são os vestígios desse fracasso.

Dizia Conrad que é preciso, sempre, reservar um lugar para o inexplicável. Não para encobri-lo com o manto acolhedor das fantasias; tampouco para decorá-lo com as belas idéias da verdade, ou da fé. Mas para suportar o que se vê nesse deserto em que vivemos. A poesia é um tesouro enterrado no areal da vida. Precisamos escavá-lo, se quisermos arrancar dele alguma felicidade.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e escreve no Jornal da Cidade aos domingos.

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A experiência de San Francisco

01/03/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Mark Twain tinha suas razões quando resmungava por ter passado um rigoroso inverno no verão de São Francisco. A partir do entardecer, Frisco, como os nativos chamam a cidade, é varrida por um vento frio que vem do Pacífico por causa das correntes geladas. Fora esse probleminha, que se resolve com uma blusa de lã, há muitas razões para se visitar San Francisco. Dias de sol pleno, sem neblina, vento ou chuva são preocupantes.

Diante de tanta bondade, será que não vem terremoto? Encontrei a cidade toda embandeirada com as cores do arco-íris. Além de berço da geração beat, do movimento hippie, é um centro de lutas pelos direitos dos homossexuais. A onda verde é outro movimento consolidado para servir de exemplo ao mundo. Os habitantes são obrigados a entregar o lixo doméstico separado para a reciclagem e compostagem. Nos quartos dos hotéis existem sacos de papel sobre a mesa como a intimar o hóspede a ali colocar papel, latas e vidros.

O movimento é tão sério que o prefeito vai trabalhar de bicicleta para incentivar o uso de meios de transporte não-poluidores. Metade da população usa o transporte público. Todos andam com sua garrafinha de água reutilizável e sacolinha de pano. San Francisco ganhou o título de cidade que menos desperdiça no país. Seus habitantes têm o hábito de apagar a luz quando caminham de um cômodo para outro e de a andar a pé. Boa parte da frota de táxis é híbrida. Usam carros elétricos e a gasolina.

O cenário de casas vitorianas, os bondinhos que dão um ar retrô e o antigo presídio de Alcatraz atiçam a imaginação do viajante mais calejado. San Francisco não é só Fisherman’s Wharf, o cais dos pescadores por onde passam 15 milhões de pessoas todos os anos, atrás dos seus restaurantes com frutos frescos do mar. O parque da Ponte Golden Gate é maior que o Central Park. São mais de um milhão de árvores, lagos, jardins, fontes e cascatas. O Young Museum, dentro do parque, está com uma mostra especial de 150 obras de Picasso que sucedeu à temporada de Van Gogh, Gauguin e Cézanne. A Academia de Ciências da Califórnia não se resume ao seu acervo.

O espírito natureba do povo se manifesta no próprio prédio, inaugurado há dois anos.

É todo planejado para consumir energia natural e produzir cada vez menos resíduos. A luz natural é essencial na iluminação de ambientes, que não têm ar-condicionado, mas são bastante arejados graças ao “teto vivo” da construção, onde vivem 1 milhão e 700 mil exemplares nativos da região. As plantas também transformam o dióxido de carbono em oxigênio. A água da chuva é reutilizada. Quem quer saber o que é “prática ambiental” deve ir a San Francisco.

Até na culinária isso de reflete. As palavras mais ouvidas são sustentável, fresco, local e orgânico. Nos restaurantes, os cardápios seguem as estações do ano e valorizam os ingredientes da região porque são usados na época certa. Em janeiro, ninguém usa tomates porque não é tempo.

Fui conhecer o Fairmont, o “Titanic dos Hotéis”, na Colina dos Nobres (Nob Hill). O hotel, em estilo neo-clássico, luxuosíssimo, no dia seguinte à sua inauguração foi destruído pelo terremoto de 1906. O tenor Enrico Caruso, que estreava a ópera Carmen, era hóspede, mas se salvou. As donas do hotel, herdeiras de minas de prata em Nevada, reconstruíram tudo, ainda com mais luxo e alicerces à prova de abalos sísmicos. Virou “A Rosa das Cinzas”.

Nesse hotel, estiveram hospedados todos os presidentes dos Estados Unidos, desde William Taft até Barack Obama. O armistício da Segunda Guerra Mundial foi assinado nos seus salões, onde também nasceu a Sociedade das Nações, hoje ONU. Ella Fitzgerald, Nat King Cole e Marlene Dietrich cantaram no Ball Room, onde Tony Bennedt interpretou pela primeira vez “I Left My Heart in San Francisco”. Rodolfo Valentino e muitos outros deixaram por lá marcas de suas passagens.

Muita coisa para um pobre bauruense ainda emocionado depois de admirar o maior e mais bonito buraco do mundo, o Grand Canyon, de 1.600 metros de fundo. É uma lição atrás da outra.

Esse negócio de dizer que partir é morrer um pouco é fórmula francesa com pretensão universal.

Os índios havasupai, que moram por lá, dizem que a chegança é pior que a partida. Choram sinceramente na chegada porque quem foi perdeu o que se passou na sua ausência.

O lugar é aqui.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e escreve para o Jornal da Cidade de Bauru aos domingos.

Nota do Z Castel:

Vai a dica para que ouçam quem mais divulgou San Francisco pela música: Tonny Benett. Ele canta I Left My Heart In San Francisco pelo Tvisões – um novo jeito de fazer televisão.

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E a nave foi…

11/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

A metáfora da navegação marítima “O capitão é o último a abandonar o barco” foi por água abaixo com a divulgação do diálogo felliniano entre o comandante da capitania dos portos, Gregório De Falco, e o capitão do Costa Concórdia, Francesco Schettino. O “vada a bordo, cazzo” passa a ser uma expressão mundial, a ser usada toda vez que um ser humano se apequenar diante das suas responsabilidades. Estamos acostumados a ouvir histórias de coragem em momentos críticos em alto mar, com as ondas em fúria. Hermann Melville escreveu Moby-Dick, a baleia branca que afunda o The Pequod.

O capitão Ahab pula sobre o cachalote com seu arpão e vinga-se da perda do seu navio, mesmo pagando o preço de morrer amarrado ao monstro, no fundo do mar. No início da II Guerra, em 1939, o capitão Hans Langsdorff, cercado por três navios ingleses na desembocadura do Rio da Prata dinamita e afunda o couraçado Admiral Graf Spee, orgulho da marinha nazista, para não dar aos ingleses o gostinho de pôr o barco à pique, numa batalha de três contra um.

Dias depois se suicida num quarto de hotel em Buenos Aires. Todo comandante que perde o navio jamais volta a navegar, pelos usos e costumes do mar. É por isso que muitos escolhem como túmulo o seu barco que vai ao fundo. Contrariando a escrita de tantos fatos heróicos, Schettino deixa uma mancha na saga dos “velhos lobos do mar”. Inclusive dos seus antepassados – é neto e filho de comandantes.

“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte” – disse Shakespeare, pela boca de Júlio César. O corajoso experimenta a morte apenas uma vez. O comandante italiano terá que “morrer” milhares de vezes, em todas as línguas, até o desaparecimento real da sua carcaça somática. Covardia é a corrupção da prudência, também chamada de “poltronice”, que vem de poltrão, aquele animal que engorda e fica preguiçoso.

Todos nós temos medo. A diferença é que covardia é medo consentido e coragem é medo dominado. O inusitado é que no caso do Costa Concórdia não prevaleceu o corporativismo, como estamos acostumados a ver no Brasil. De Falco foi irretocável na repreensão ao companheiro. Ambos da marinha mercante italiana, deveriam se conhecer há muito.

De Falco primeiro avisou que estava gravando e mandou o infeliz voltar para cumprir seu dever, ser solidário com aquela multidão desesperada. Se fosse brasileiro, os advogados de Schettino iriam alegar que “as gravações foram feitas sem autorização judicial” e, por certo, pediriam a anulação do processo na Suprema Corte, com grande possibilidade de êxito.

Os proprietários do Costa Concórdia não estão preocupados com a perda do navio de 114.500 toneladas, uma cidade flutuante que carrega 3.200 passageiros e 1.000 tripulantes. Sequer se avexam com os mortos e desaparecidos. Os seguros cobrem tudo. Temem os armadores o impacto no mercado de cruzeiros, que vem se multiplicando. Nos últimos dois anos foram 18 milhões de passageiros. Até 2015 era esperado um movimento de 25 milhões de passagens vendidas, a um custo médio de 950 dólares.

Diante desse quadro se constroem transatlânticos cada vez maiores. O Costa Concórdia é apenas o 26° de uma frota de 250 navios de cruzeiro. O maior deles, o Allure of the Seas, da Royal Caribbean, tem 225.282 toneladas, 16 andares e leva 5.400 passageiros. Nem é bom pensar na possibilidade de uma ocorrência com um bicho desses. A cada verão, pelo menos dez desses gigantes operam na costa brasileira e fazem a delícia da classe ascendente.

Ainda bem que o desastre foi na Itália. Nem sei o que diriam de nós se o comandante tivesse tirado uma fina de Ilhabela. Críticas à precariedade de nossas cartas de navegação e dos poucos portos onde é possível atracar. Como faz falta um De Falco no mundo de hoje.

Lembro-me de Robert Putnam, um pesquisador norte-americano que ficou 20 anos com uma equipe estudando os motivos das diferenças entre o Norte da Itália, mais rico, do Sul que teima em permanecer na pobreza. Descobriu que os habitantes da parte desenvolvida têm mais espírito de comunidade, a que chamou de “capital social”.

Se há um incêndio na casa de um deles, os vizinhos correm a ajudar, enquanto, no Sul, diante das primeiras chamas a vizinhança trata de aumentar os estoques de água para o fato de o fogo se alastrar.

Como se diz por aqui, “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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Queremos o Nobel

10/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Em 110 anos de Prêmio Nobel nunca um brasileiro foi reconhecido por obra de destaque nas ciências, na literatura, na economia ou por seus esforços em favor da paz. Somos a sétima economia do mundo. Entre as maiores empresas do planeta temos várias brasileiras ranqueadas. A Petrobras está no “top ten”.

Vale, Banco do Brasil, Bradesco e Itau figuram entre os mais endinheirados. Em compensação, a melhor universidade brasileira, a USP, só aparece em 178º lugar e é a única do indexada. Significa que o país enriqueceu, mas o ensino continua precário. Quando se examina a capacidade de alunos de classe elementar de interpretar um parágrafo de quatro linhas, perdemos para os garotos do Paraguai, do Quênia e de outros rincões menos cotados.

Temos bancos, soja, carne e outras com-modities, mas não temos uma escola que preste. Nos Estados Unidos, absolutos com 242 Nobel, Steve Jobs criou a empresa de maior valor de mercado no mundo (340 bilhões de dólares) graças à tecnologia. Começou numa garagem com dois mil dólares de capital. Uma excepcionalidade, dirão.

Os gênios nem precisam de escola. Também nascem talentos no Brasil. Só que aqui não temos o ambiente voltado à tecnologia que possam inspirá-los. O que há de sobra em Pindorama é futebol, bunda e pandeiro. Se o povo cobrasse dos políticos melhores resultados e posturas éticas, como exige dos atletas da bola, o Brasil seria bem melhor. A marcha contra a corrupção, que deveria arrastar milhões para as ruas, não passou de vinte mil vestidos de palhaços na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Carnaval, este sim, é campeão do mundo.

Nem o IgNobel conseguimos ganhar. O prêmio criado em 1991, em Harvard, primeiro faz as pessoas rir, e depois as fazem pensar. Em setembro foi premiada com o IgNobel a pesquisa de uma universidade canadense sobre a estranha história de amor entre um besouro e uma garrafa de cerveja. O inseto macho tentou, com tanto vigor fazer sexo com a garrafa, que acabou morrendo. Pesquisadores também procuraram uma resposta sobre o fato dos atletas arremessadores de discos ficarem tontos no giro de embalo, o que não acontece com os arremessadores de martelos.

Aqui no Brasil poderíamos ganhar o Ig com estudos sobre variações parabólicas de tampas de bueiro e bandejas de restaurantes, sob a ação de explosões de gás. Todos os países do BRICs têm premiados com o Nobel, menos o Brasil. Rússia, Índia, China, mais os emergentes como África do Sul marcam presença.

A Argentina ganha da gente de 4 a 0. Os hermanos têm dois de Medicina e dois da Paz. Chile (Gabriella Mistral e Pablo Neruda), México (Octavio Paz), Peru (Vargas Llosa), Colômbia (Gabriel Garcia Marques), Guatemala (Miguel Ángel Asturias e Rigoberta Menchú), Costa Rica (Oscar Arias) completam a lista latina. Para nosso consolo, Peter Brian Medawar, que ganhou Medicina, em 1960, pelos seus estudos sobre transplantes e sistema imunológico, nasceu no Rio de Janeiro. Mas foi só… Estudou desde criança em Londres.

Nossa esperança concentra-se em Luiz Ignacio Lula da Silva, o cara que acabou (ou quase) com a fome no Brasil. Nos Estados Unidos uma fundação acaba de lhe outorgar o World Food Prize.

Dividiu com o ex-presidente da Gana a bolada de 432 mil reais. O populismo também tem os seus méritos porque persiste na figura do “pai dos pobres” – agora metamorfoseado em mãe. O populismo atende a um clamor em países onde a população pobre é ainda muito expressiva. À medida que escapa da pobreza espera-se que a classe C seja mais imune aos apelos populista, depois de inseridos na sociedade de consumo.

Deram o Nobel da Paz para Ytzhak Rabin, Shimon Perez e Yasser Arafat, em 1994. De que adiantou? Palestinos e israelenses continuam se matando. Nem Mahatma Ghandi, o maior pacifista da história conseguiu chamar a atenção para o Nobel. Em 1948, pouco antes de ser assassinado, o prêmio pela Paz ficou em branco “por falta de candidato adequado”. O Nobel também comete suas gafes. Em 1949 laurearam o psiquiatra português Egas Monis, que criou a lobotomia, o selvagem método de cortar o lobo central ao tálamo do doente mental violento, para que ele dê sossego. Os escritores James Joyce, Tolstói, Tchekhov, Proust, Ibsen e Mark Twain também não ganharam. Quem sabe Lula tira o Brasil desta fome de Nobel. Vai ser duro aguentar uns quatrocentos “nunca antes na história deste País”. Mas, enfim…

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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A revolução cultural da maconha

09/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Sei que o espaço não é o lugar ideal para densas discussões teóricas. O que os leitores querem encontrar na imprensa é a informação fresca, a crítica sem muitos adjetivos, a crônica, a reportagem. O mundo já é muito complicado. O jornalista não deve provocar mais dissonâncias na cabeça do leitor. Por uma questão de mercado.

No início do século 19, o filósofo Hegel chegou a dizer que a leitura de jornais era “a oração matinal do homem moderno”. Hegel escrevia seus livros numa linguagem difícil de ser cifrada. Quando dirigiu um jornal, porém, no período de Napoleão, pediu aos seus colaboradores que se expressassem com simplicidade, para serem lidos pelo homem comum. Mal sabia ele o quanto difícil é escrever simples. Sem ser simplório, evidentemente.

Outra pergunta que poderia ser feita para complicar a vida do filósofo seria: “Mas quem é, exatamente, o homem comum?” Será que lhe falta mesmo discernimento para entender as coisas complicadas? Todo mundo sabe que essa crise econômica na “Oropa, França e Bahia” vai acabar se refletindo no bolso do trabalhador.

O filósofo Montaigne dizia que ria, não da nossa ignorância, mas dos nossos saberes. Com que direito os professores exigem dos alunos que leiam as obras-primas da literatura mundial, que percam tempo estudando a Antígona, de Sófocles, o Hamlet, de Shakespeare ou os poemas de Baudelaire? É tudo muito chato. Muito melhor é discutir amenidades, puxando um fuminho, de leve.

Quando eu era professor percebia quando o aluno começava a perguntar muito, embora sempre tivesse se comportado como aquele aluno que Malba Tahan chamava de “escocês”: o professor fala, explica, se esforça e o cara ali, olhando para você com cara de ruminante. É só observar a pupila dilatada para perceber que o jovem usou a cannabis para dar um colorido a mais na vida. Na hora do intervalo ele devora umas quatro coxinhas na cantina da escola. É a tal “larica”.

Fumar maconha só dá fome. Nada que mereça uma repressão da tropa de choque.

Até quando quebram alguma coisa, invadem a reitoria ou departamentos e danificam bens públicos é preciso compreendê-los. Faz parte da ignorância de ser jovem. Para ser jovem bastam alguns anos. Para ser velho é que é preciso muita luta e criatividade. “A paixão pela destruição é também uma paixão criativa”, justificava o anarquista russo Mikhail Bakunin (1814-1876). Os anarquistas de butique hoje fazem o papel de vândalos.

Inspirados em Bakunin, em 1909 jovens espanhóis fizeram uma semana de protesto contra o recrutamento militar – igrejas incendiadas, padres executados, reação violenta do exército e 150 mortos. Centenas de fugitivos da polícia foram se refugiar na Legião Estrangeira, no Marrocos espanhol. De que adiantou protestar contra o recrutamento se foram cair, justamente, na facção mais dura do serviço militar?

Nas universidades brasileiras existem grupos de extrema esquerda, mantidos pelos partidos para agitar. Seus membros nem precisam passar de ano. Basta espalhar a semente do inconformismo. PSOL e PSTU, para eles, são partidos burgueses. Eles se utilizam do mesmo pensamento binário e totalizante de Bakunin. Não passa pela cabeça que esse tipo de postura nada tem a ver com a extrema esquerda. São simplesmente autoritárias, fruto do desejo de uma explicação simplória e totalizante do mundo. O mesmo discurso, as mesmas denúncias há mais de um século. O filósofo Vladimir Safatle escrevia outro dia para dizer justamente isso e para concluir que esses jovens querem, simplesmente, destruir valores da liberdade individual e da democracia liberal.

Que lutem por essas ideias, se quiserem. A estratégia revolucionária de Gramsci é a guerra cultural instrumentalizada. Mas é preciso ser mais sutil para se conseguir algum resultado. Gramsci aconselhava seus seguidores a, primeiro, propugnarem pela liberdade sexual. Isso em 1920. De sexo todos gostam, principalmente quando os hormônios estão latejando. Depois é que vem a apologia das drogas e a legitimação da criminalidade como a expressão do “grito dos oprimidos”. Gramsci ficou metade da vida na prisão, morreu e não viu nenhuma das suas idéias revisionistas de Marx aplicadas com eficiência, a ponto de render algum poder para o proletariado.

Voltando ao filósofo Hegel, ele advertia: “Na facilidade com que o espírito se satisfaz, pode se sentir a extensão da sua perda”. Bastam a eles um baseado e bater bumbo na porta da reitoria. Há sempre a oportunidade de um brilhareco midiático. Nas condições da indústria cultural, as criações proporcionam pequenos impactos imediatos, que não contribuem nem para as rupturas, nem para a continuidade necessária do processo histórico.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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Xixi durante o banho

08/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

No tempo de Jorge III (1738-1820), rei da Grã-Bretanha e da Irlanda, estabeleceu-se que todos os súditos deveriam tomar banho uma vez por ano – e não muito mais -, como medida de combate às emanações supostamente nocivas. Quem conta é o historiador Stanhope. Talvez tenha sido esse tipo de “abuso do poder real” uma das causas da segregação do rei como louco, em 1811, e a criação de uma regência em favor do seu filho primogênito, o futuro Jorge IV.

A água para consumo doméstico era escassa, muitas vezes conseguida em fontes distantes. Para cumprir o édito a família inteira tinha que se banhar na mesma bacia, em ordem hierárquica. Começava pelo chefe da casa. Depois, a matriarca. Seguia-se o filho mais velho até chegar no caçula. No banho final a água estava tão suja que seria possível descartar pela janela o conteúdo da bacia sem se perceber o bebê esquecido no negrume do líquido. Daí nasceu a expressão “jogar a criança com a água do banho”. Outro dia o Supremo Tribunal Federal fez algo parecido com a Lei de Imprensa…

A aluna de Jornalismo pegou-me desprevenido quando quis saber minha opinião sobre a campanha da ongue SOS Mata Atlântica para que as pessoas façam xixi no banho, e economizem água do vaso sanitário. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a história do banho inglês. No verão, época propícia por causa das temperaturas mais amenas, nas cidades inglesas centenas de famílias cumpriam suas obrigações como súditos leais à determinação do rei. Logo no primeiro, e raro, dia ensolarado. Fazer xixi durante o banho é um ato tão natural, fisiológico e inevitável.

Independe de qualquer campanha ou consciência cívica. A própria água quente estimula a bexiga a trabalhar. Quando a gente vai nessas fontes termais freqüentadas por multidões de banhistas é fácil perceber no ar o cheirinho acre do líquido segregado pelos rins.

Em todo caso, impossível tachar os ambientalistas de “alienados”, como ocorreu com Jorge III. Eles têm suas razões. O presidente Afonso Pena (1906-1909) dizia que “todo brasileiro tem direito a um banho, aos sábados” e nem por isso foi internado. Segundo dados de um programa de conservação da FAO/ONU, cada descarga gasta doze litros de água. Temos 192 milhões de habitantes.

Nem vou perder tempo fazendo contas. Sei que é água pra rio nenhum botar defeito. O problema é segurar o xixi até a hora do banho. Depois de uma determinada idade o cidadão prostático vive a angústia da incontinência urinária. Lembrei-me também do Chico Ferramenta, lá da minha terra, que recebia os amigos na sua chácara para tomar cerveja e comer churrasco. Quando alguém perguntava sobre o banheiro ela apontava um pé de coqueiro-anão carregado de frutos. Atribuía a performance da planta à uréia natural que irrigava as suas raízes.

O ambientalista Efraim Rodrigues assegura que o perigo não está no desperdício de água nas residências, embora também seja antiético. A agricultura consome 32% da água do mundo e as cidades 6%. Você economiza muito mais água consumindo alimentos da época (que não precisam de irrigação) do que fechando a torneira enquanto escova os dentes. Se fizer as duas coisas, melhor ainda. Nosso problema com a água não é de falta. É de excesso.

No Brasil ainda deixamos de reutilizá-la. Poucas pessoas armazenam água da chuva para lavar pisos e irrigar o jardim. As legislações não exigem reservatórias de águas pluviais nas residências e condomínios verticais. O prefeito Rodrigo Agostinho, conselheiro do Vidágua, quando vereador conseguiu aprovar projeto de lei proibindo a utilização de água tratada para lavar calçada. Por enquanto é letra morta. Mesmo agora, como chefe do Executivo, duvido que tenha coragem de sair multando as donas de casa. Nenhuma delas resiste usar a mangueira como vassoura hidráulica. A varrição dos espaços públicos seria de obrigação da Prefeitura. Não pode reclamar. A cidade lança milhões de litros de esgoto por dia no Rio Bauru. Quem não faz no pé do coqueiro, seja no banho ou no vaso, ajuda a poluir. Faz no próprio pé.

A campanha da SOS Mata Atlântica, organização de respeito e abrangência nacionais usa o seu prestígio para alguma coisa pequena. Até desviante. Chegou a repercutir na nossa Câmara de Vereadores. Coisa de cidade grande. Já temos até gripe suína e alunos com máscaras cirúrgicas. Passamos a perna em Rio Preto, Ribeirão, Marília e outras cidades que disputam conosco o troféu de metrópole interiorana.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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Coisas do Carnaval

06/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Quem “inventou” o Carnaval foi a Igreja Católica, por mais estranho e irônico que possa parecer. No ano 604, o papa Gregório I deliberou que, num determinado período do ano, os fiéis deveriam deixar de lado a vida cotidiana para cumprir 40 dias de jejum.

Era uma forma de lembrar os quarenta dias de jejum e provações passadas por Jesus no deserto antes de iniciar o seu ministério apostólico. Durante a quaresma, quem quisesse garantir o seu lugar no céu deveria esquecer os prazeres da vida material e dedicar-se a elevar seu espírito a Deus. A meditar sobre Cristo e sua ressurreição. Ou seja, nada de festas, brincadeiras, namoros, bebedeiras ou comilanças nesses quarenta dias.

Com o passar do tempo, o sentido utilitarista do povo estabeleceu o costume de realizar muitas festas nos dias imediatamente anteriores a esse longo período de abstinência. A atitude mais humana em relação a todo esse rigor foi a de se esbaldar o mais possível até a hora da privação chegar.

Esse período anterior à penúria começou a ser chamado de “adeus à carne”, ou dias da “carne vale”, em italiano. Hoje pouca gente segue os rigores da Quaresma, a não ser quando se trata de aproveitar o preço mais baixo do bacalhau, favorecido pelo câmbio. Qualquer dia é propício para a esbórnia e as baladas de segunda a domingo.

O Carnaval brasileiro deixou o corso de rua com confete e serpentina e profissionalizou-se a ponto de se tornar um espetáculo televisivo concentrado nos grandes pólos: Rio, Salvador, São Paulo e Recife. Desde menino ouço dizer que Carnaval bom era o de antigamente. Ainda há os que se lamentam da proibição do lança-perfume, éter comprimido em bisnagas de alumínio ou vidro. Quem tinha uma Rodouro metálico era considerado rico.

Aspirar o líquido volátil e perfumado provocava um zumbido nos ouvidos, uma sensação agradável de torpor. Para os mais tímidos o lança-perfume servia para libertá-los das amarras da introspecção e enchê-los de coragem para finalmente abordar a garota paquerada durante o ano todo. Injetar aquele líquido gelado nas costas e nas pernas das garotas que se arrepiavam, mas sentiam-se homenageadas, era o ápice do charme.

As mulheres se tornavam proparoxítonas: sensualíssimas, lindíssimas. Em 1961 o presidente Jânio Quadros, no seu curto período de governo antes de renunciar teve tempo de proibir o lança-perfume e concursos de “miss” com maiô. Foi a sua contribuição à pátria antes de abandoná-la ao caos que deu causa à ditadura.

Vejo o esforço do Pedrinho Romualdo e do prefeito Rodrigo Agostinho de reavivar o Carnaval de Rua de Bauru. Foi muito bom em outros tempos, com Célio Gonçalves, Sampainho e José Cabral que inventaram as arquibancadas na Av. Nações Unidas. Torço para que consigam reavivar essa festa do povo, interrompida quando caminhava para uma profissionalização. Suspensa não pela fala de entusiasmo dos sambistas, mas pela crônica falta de recursos da Prefeitura.

Pobres e ricos se confraternizavam nos desfiles e na criatividade das fantasias. Tivemos grandes carnavalescos como o Horácio e o Paulinho Keller. Dos “sonhos sonhados” nasciam carros alegóricos cada vez mais ricos e esteticamente planejados com engenhos de mobilidade. Apurações na Câmara Municipal eram aguardadas com ansiedade. Muitos protestos, logo abafados pelo ruído dos vencedores. E mais carnaval para festejar o resultado. Agora, “tudo acabado, e nada mais…”

Perguntava o velho Manuel Bandeira (“Variações sobre o Passado”) : “Vale a pena lamentar? Acho que não (…) Quem não estiver contente com o presente, viva, como eu, das saudades do passado”. Na minha surrada fantasia de pseudo-intelectual vou assumir meu lugar no bloco “Ler é o melhor remédio”. Desfilo nele todos os anos, em qualquer sala que não tenha televisão ligada. “Não me leve a mal, hoje é carnaval.”

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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As Razões do Coração

03/02/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

O coração é um órgão simbólico. Ninguém até hoje soube explicar o por quê de carregar tanta expressividade metafórica através dos séculos. Face as suas funções fisiológicas vitais sempre foi temido e respeitado. Todos o tratam bem. Seguimos as recomendações médicas e acompanhamos as novidades ditadas pela Ciência contra os fatores patológicos, em benefício da máquina que nos mantém vivos.

A partir de uma certa idade começa-se a anotar o nome de todos os remedinhos e chazinhos tiro-e-queda contra a pressão alta, recomendados pelos amigos. Antes a gente só guardava o número do telefone das meninas. Depois, o nome dos bons restaurantes. Quando a vida começa a rolar a ladeira as preocupações se concentram nas mínimas possibilidades de brecar a degringolada morro abaixo.

Quem sabe residam nesses fatos a explicação do coração ter sido transformado em repositório e gerador de tantas conotações psicológicas. Serviu e continua servindo de apelo universal aos poetas, aos dramaturgos, aos amantes e cronistas de todos os tempos. Nele concentra-se a idéia dos valores humanos: do amor, da bondade, da amizade, da virtude, da resignação, da pureza, da verdade, da gratidão, ou dos seus contrários: menosprezo, depreciação, ódio, indiferença, ingratidão.

Fernando Pessoa tem um poema onde exalta a complexidade do órgão: “… E assim nas calas de roda gira, a enfrentar a razão/ Esse comboio de cordas. Que se chama coração”.

Pobre coração que se contorce nas coronárias dos dissabores da vida criados pelos conflitos interpessoais e intrapsíquicos… Os males da civilização nele se concentram. “É no coração que residem o princípio e o fim de todas as coisas” – assegurava Tolstói. Partem dele todas as atitudes, a direção dos comportamentos, a elaboração do destino. Sim!

A partir do que representa para o indivíduo estrutura-se o seu destino. Todos os comportamentos sociais estão por ele, direta ou indiretamente afetados, pois nele concentra-se a afetividade. “O coração tem suas razões que a própria razão desconhece” (Pascal). É muita responsabilidade para um órgão só. Que peso extraordinário! Nem sei como agüenta… Daí a freqüência das patologias. Muitas vezes não suporta mesmo. Entra em fibrilações e pára. A alma se desprende e parte.

Ariosto já se resignava dizendo que a gente vê o rosto, ouve o raciocínio do outro, mas “dentro do peito mal se pode julgar”. Só a partir de dentro do coração pode-se compreender a linguagem e decifrá-la. Quando um Renan Calheiros diz “sou inocente!”, ninguém sabe se ele, por dentro, ri ou chora. Mas, na verdade mente.

Mesmos os corações mais empedernidos um dia vão se abrir, nem que seja perante no dia do Juízo. Melhor fazê-lo em vida, aqui na terra, para que a Justiça nos seja leve quando do ajuste de contas. Só merece perdão quem se arrepende desde a profundeza da alma. “Um coração não se vende e não se compra, dá-se”, como disse Flaubert. Não é objeto de transação comercial, nem do poder. É símbolo da vida e do afeto. Mantenha-o aberto.

“Fernando Pessoa tem um poema onde exalta a complexidade do órgão: “… E assim nas calas de roda gira, a enfrentar a razão/ Esse comboio de cordas. Que se chama coração”. Pobre coração que se contorce nas coronárias dos dissabores da vida criados pelos conflitos interpessoais e intrapsíquicos… Os males da civilização nele se concentram. “É no coração que residem o princípio e o fim de todas as coisas” – assegurava Tolstói”

(*) Zarcillo Barbosa, o autor, é jornalista.

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Reflexões em um ano bissexto

29/01/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

A primeira relação entre irmãos terminou em morte, quando Caim matou Abel por inveja. Tivesse a oferenda de Caim ao Todo-Poderoso sido aceita, talvez não houvesse rivalizado com seu irmão e a história poderia ter sido outra. Como advertia Pitigrilli nos anos 1950, “Todo irmão é mais que um inimigo”. A rivalidade virou regra – rivalizaram-se troianos e gregos; os romanos e cartagineses, nas guerras púnicas. Rivalizam famílias, como os Montechio e os Capuleto, em Romeu e Julieta, rivalizam-se povos e países, religiões e torcidas. Desconfio, às vezes, que parecemos Dom Quixotes em busca de moinhos de vento com os quais possamos duelar.

Há rivalidades que se atenuam com o tempo. Parece ser o caso da direita versus esquerda na política. O capitalismo e o comunismo dominaram o panorama do século 20, mas hoje deram lugar a sociedades democráticas, nas quais a ideologia ficou aguada na modernidade líquida. O presidente chinês Jin-Tao diz que o seu país agora é “nacionalista”. Se a pirataria é boa para a China, o resto que se dane. O marxismo foi a manifestação mais crua de uma ideia “evolucionista”. Para Hegel, tudo é um “processo”. Estamos evoluindo de passagem para alguma coisa que não sabemos o que é.

Um dos combustíveis desse processo é a rivalidade, palavra que vem do latim rivalis, rivus (rio), quando uma pessoa tinha em comum com outra as águas de um rio. A palavra rival, na antiguidade, tinha esse sentido de compartir, de proximidade, mas evoluiu, modernamente, para adversário, competidor. A rivalidade pode ser lúdica, em que cada um ou cada instituição visa vencer o rival, o que pode ser estimulante, na medida em que todos tratam de melhorar em busca da vitória. O perigo é quando a rivalidade fica dominada pelo fanatismo, em que cresce a paranóia, pois cada parte se imagina com toda razão.

Culpa de um cara honesto, mas um tanto ingênuo chamado Descartes. Ele parte do famoso “Penso, logo existo”. O ser pensante se coloca como parâmetro do real. A partir daí, será real aquilo que puder construir através de processos mentais muito bem verificados. Um dos derivados disso é a idolatria pela ciência. Tudo o que não pode ser provado racionalmente, deve ser descartado. Não deixa de ter um fundo de verdade. Mas não é tudo… Por isso vivemos numa crise ontológica (o conhecimento ou percepção do Ser em toda a sua complexidade). Nelson Rodrigues odiava os “idiotas da objetividade”. “Eles acham que tudo se explica pela razão”. Mas a intuição, a maravilhosa intuição dispensa tudo isso. Você olha e vê muito mais do que sinais característicos, vê o ser inteiro, com a sua estonteante complexidade.

O exemplo do intuitivo que deu certo foi Nelson Mandela. No filme Invictus, de Clint Eastwood, é contado um pouco dessa história de como foi possível superar a rivalidade na sociedade racista da África do Sul. Mandela passa 27 anos preso e lembrava os versos que o estimulavam na sua solidão: “Eu sou o mestre do meu destino/Eu sou o comandante da minha alma”. Ele aprendeu a dominar a si mesmo e não se deixar dominar pelo pódio.

Revelou-se um comandante de si e do seu povo, ao liderar a sonhada reconciliação entre brancos e negros. O desafio de superar as agressividades entre rivais pode ser transposto, com mutuas concessões entre as partes em conflito. Provou que a “apoteose da razão” – a maioria deve se sobrepujar à minoria – era somente um “delírio”. Intuiu que negros e brancos, juntos, poderiam construir uma grande sociedade. Hoje, a África do Sul é um país emergente que já sediou com sucesso uma Copa do Mundo .

O desafio de superar as agressividades entre rivais pode ser transposto, com mútuas concessões entre as partes em conflito. Assim, indivíduos e coletividade podem alcançar a paz. A iluminação de que fala o budismo, no fundo é isso: muito além de um processo racional, num relâmpago mental, de repente você percebe a realidade para além das aparências. É a descoberta da “coisa em si” que o velho Kant nunca cansou de procurar. Minha mãe, uma mulher intuitiva, dizia que “Boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Passei para um ano bissexto, sem temores, com as minhas leituras. Ouso publicar algumas reflexões que resultaram desse exercício.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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Meia-noite em Paris

26/01/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

Gore Vidal, um escritor entre cujas virtudes não se incluem a humildade e nem a generosidade para com os seus contemporâneos, afirmou uma vez que Woody Allen é o maior criador dos nossos tempos. Ele compete com Ford, Hitchcock, Fellini, Bergman, com a vantagem de estar vivo.

Fui assistir “Meia-Noite em Paris“, numa sala lotada do Cine´n Fun (é assim que se escreve?), sem ar condicionado, cheirando a mofo. Vi uma cópia riscada com a dos filmes velhos. No começo achei até que seria mais um meio de expressão do autor. Depois me conscientizei que era mesmo decadência precoce da casa. O filme é divertido, tem um roteiro original competente, de acordo com o talento natural do diretor.

Ele nos transmite uma paixão fulgurante pela capital francesa, filmada com tanto zelo quanto sua amada Nova York. Para a abertura cheia de cartões postais, Woody Allen passeia pela Cidade Luz ao som do clarinetista Sidney Bechet. Quem já viajou por lá se abre em sorrisos ao identificar com nostalgia os pontos inesquecíveis.

Os personagens são introduzidos com a mesma naturalidade, talvez por seguirem os moldes clássicos do cineasta. Owen Wilson (aquele de Marley, e Eu) interpreta Gil, um roteirista de sucesso em Hollywood, responsável por “filmes adoráveis, mas esquecíveis”. Passeando com a noiva e os pais dela por Paris, ele só pensa em se mudar para lá, escrever seu primeiro romance e fazer algo relevante.

Enquanto fantasia nas ruas molhadas (“Paris é mais bela sob chuva”) sonha com a Era de Ouro cultural, na década de 1920, e se interessa em conhecer o restaurante onde James Joyce comia salsichas. A noiva de Gil nem se interessa por esse roteiro nostálgico-cultural e prefere outros programas com os pais e amigos.

Reconheci, no passeio da câmera, as escadarias do Sacré Coeur, em Montmartre, onde reencontrei o meu amor (perdi minha mulher durante um passeio e fiquei angustiado porque sabia que ela estava sem dinheiro e nem sabia o endereço do hotel). Justamente ali, aos pés da Basílica, o personagem embarca num Peugeot antigo indo parar numa festa ao cineasta e poeta Jean Cocteau.

Lá encontra Cole Porter tocando piano e cantando. Conversa com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Elliot e outros heróis. Como se bebia naquela época! “Bêbado aos vinte, arruinado aos trinta, morto aos quarenta” – escreveu Scott em seu caderno de anotação. Errou por pouco. Morreu aos quarenta e quatro.

A esposa Zelda também não ficava atrás. Juntos abriram uma trilha de porres pela era do jazz norte-americano. Durante a festa, o personagem Gil se apaixona por Adriana (Marion Coutillard, de “Piaf”), amante de Picasso, ex de Braque e de Modigliani (isto é que é amar a arte!) Conhece Gertrude Stein, que lê seus manuscritos e elogia sua gana pela profundidade artística, indiferente ao sucesso financeiro. Esse túnel do tempo percorre toda Paris da belle époque na qual viveram gênios de verdade – Gauguin, Degas, Tolouse-Lautrec.

Até beijos acontecem na ponte dos jardins de Monet. Woody enche o filme de referências que nos leva a refletir sobre as ilusões que temos sobre a existência – o diretor continua fatalista e sempre sob a máscara da comédia. O roteiro brinca com Salvador Dali, Man Ray, Luis Buñuel (o que rende uma ótima piada com os surrealistas e “O Anjo Exterminador”).

No Brasil, também tivemos nosso modernismo profundamente articulado na Paris dos anos 1920. Poderíamos trocar os artistas envolvidos na trama por Osvald e Tarsila, Villa-Lobos, Mario de Andrade e tantos outros que cruzaram o Atlântico em busca da Meca das artes modernas.

De Paris se espraiou a renovação das artes plásticas, da literatura e da música que continuam fazendo sentido nos tempos atuais. Para nós, aqui em terras tapuias só restava deglutir todo esse acepipe cultural e tentar regurgitar algo diferente, como propunha o Movimento Antropófago de Osvald de Andrade. Exatamente como em toda a sua filmografia, Woody Allen equaciona o difícil equilíbrio entre comunicação e profundidade, significância artística e penetração comercial, classicismo e modernidade. A grande e singela lição que nos deixa é que a idade de ouro é um mito. Poderia também ser a do Renascimento, com Michellangelo e Tiziano. A única idade de ouro possível é o presente, o único que há.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e escreve a partir de Bauru.

Nota do Z Castel:

O filme Meia Noite em Paris está indicado para o Óscar. Woody Allen concorre aos prêmios de melhor diretor e melhor roteiro original por seu trabalho em “Meia-noite em Paris”, que recebeu outras duas indicações.

Veja cenas do filme:

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O lado Negro do Cisne

25/01/2012 por

O lado Negro do Cisne

Por Zarcillo Barbosa (*)

A desilusão enlouquece as pessoas. Os perfeccionistas perseguem objetivos com tal obsessão que perdem o sentido da realidade. Fui assistir ao lançamento de Cisne Negro com a minha mulher que adora filmes “noir”. Desses cheios de claro-escuro, suspense, terror. Quando terminou a sessão, estava exausto e com dor na mandíbula de tanto trincar os dentes. O diretor Darren Aranofsky conta a história da bailarina Nina (Natalie Portman) às vésperas do seu primeiro papel principal. Ela começa a conviver com alucinações num crescendo e vai, aos poucos, confundindo o mundo real com as criações de sua mente. O olhar de Aranofsky sobre o seu enredo é freudiano. Aos poucos, o espectador vai conhecer a coleção de elementos que oprimem a bailarina Nina – a mãe repressora, a ausência paterna, a homossexualidade latente, a provável frigidez. O diretor repete a sentença – “O sexo domina o mundo, tudo é sexo”, e não o amor. Então, “vá se masturbar”. Pode ser psicanálise de botequim, mas funciona.

Como cinemeiro há muitos anos até já vi esse filme antes. Há um filme de George Cukor – Fatalidade – que deu a Ronald Colman o Oscar de ator principal. Ele encena um Otelo tão realista que projeta o ciúme doentio do personagem shakespeariano na ex-esposa parceira em cena. Na ópera I Pagliacci, de Leoncavallo, o ator é traído pela mulher e mistura o real com a peça que interpreta. Cisne Negro dá pinceladas numa possível histeria de Nina, e vai apresentando aos poucos seu mergulho num processo de esquizofrenia cada vez mais profundo. A partir de certo momento, ela não consegue mais distinguir entre realidade e alucinação, e passa a agir indistintamente em função de qualquer uma das duas como se fossem a mesma coisa. O diretor tem indiscutível talento como contador de histórias, muito mais do que a pretensa profundidade que pretende dar no sentido psicanalítico.

Também não precisava apelar tanto para o lesbianismo e a homossexualidade explícita. A boa atriz francesa Romi Schneider teve sua carreira arruinada porque apareceu numa cena tórrida, mas apenas sugerida, de sexo anal com Marlon Brando. A cena exibe corpos entrelaçados, mas só o tablete de manteiga aparece, pretensamente usado como lubrificante. Último Tango em Paris foi lançado em 1973. A censura ditatorial só permitiu a exibição no Brasil em 1979. Os ricos viajavam para Nova York ou Londres para assistir ao filme, levados por aquela pulsão freudiana capaz de atiçar o imaginário de um frade de pedra.

O Lago dos Cisnes, com a música envolvente de Tchaikovsky é um conto de fadas que explora um dos mais antigos arquétipos da humanidade, a possibilidade do duplo – percebemos na bailarina, o tempo todo, a moça construída socialmente, um cisne branco frígido, estéril e incapaz de aproveitar todo o seu potencial expressivo, e o cisne negro que se debate pela liberdade, agressivo, destruidor, erótico, e completamente estético. O ballet foi um fracasso na sua estréia em 1877, no Bolshoi. Os artistas não entenderam bem a tese do homem coletivo, de Jung – alguém que carrega e dá forma ao lado inconsciente e psíquico. O lado bom e o ruim convivem com a mesma pessoa. Cisne negro representa o nosso medo de que a fronteira entre o bem e o mal não seja nítida, de que para realizar coisas boas e belas podem ser necessários atos que sejam feios ou ruins. O Times comenta, e os críticos de todo o mundo repetem. Reverenciamos o talento de quem tem.

O filme deixa entrever que as dificuldades do corpo sexual são as mesmas do corpo estético – e os dois se encontram exatamente na dança. Por isso poucas bailarinas conseguiram desempenhar ambos os papeis, como Margot Fontein. Na maioria das encenações de Lago dos Cisnes os papeis do cisne branco e do negro são entregues a artistas de temperamentos diferentes: uma meiga e outra,“sexo em fogo”. Fontein dançou até aos 50 anos de idade. No filme, Nina aos 28 já era considerada veterana. Cisne Negro tem muito de filme de terror, de “noir” é sarcástico e com estruturas de humor negro. As pessoas de temperamento “dark” vão gostar. Na verdade, o filme é conservador: o sucesso tem um preço, que pode ser terrível. Oscar para o melhor filme? Duvido. O prêmio de melhor atriz vai para Natalie Portman. Aposto um palito de

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e escreve a partir de Bauru (SP) – publicado quando o filme Cisne Negro foi lançado.

Nota do Z Castel

O filme será exibido neste sábado, 28/01, pelo Telecine.

Black Swan (br/pt: Cisne Negro é um filme de suspense e drama psicológico estadunidense dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder. Sua estréia antecipada ocorreu em 1 de setembro de 2010, na abertura do 67º Festival de Cinema de Veneza. Sua estréia oficial nos Estados Unidos aconteceu no dia 3 de dezembro de 2010. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de fevereiro de 2011, e em Portugal, no dia 3 de fevereiro de 2011. Saiba mais sobre Cisne Negro.
Veja cenas do filme:

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A árvore da vida

24/01/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

“Deus manda moscas às feridas que deveria curar”.

Esse Deus cruel põe à prova os seus viventes mais leais. Nada se compara à dor de uma mãe obrigada a enterrar o filho. “O revés de um parto”. O quarto arrumado, o violão, são lembranças doridas do filho que já morreu.

No filme A Árvore da Vida (Palma de Ouro em Cannes), o diretor Terrence Malick inspira-se em Jó para mostrar como Deus (ou seria Satanás sob sua permissão?) rouba a dignidade do seu mais leal servidor, tira-lhe os bens materiais, a saúde, os filhos.

Como Deus permite que milhares morram em prédios atacados por terroristas? A paciência e a humildade – a “paciência de Jó” – são os segredos para atravessar as desolações da vida. Fé em que haverá o amanhecer de uma nova vida, em algum tempo e lugar. Deus nos concede o privilégio de conversar, de frente. Mas, há momentos em que vira as costas, como a nos ensinar que somos simples seres humanos, não robôs com programas de felicidade instalados.

O filme A Árvore da Vida coloca tantas questões diante de nós, que seria impossível discutirmos todas. Sobressai a perda da inocência – representada pelo encontro de uma camisola feminina por Jack, um menino que até então não sentira as pulsões tão comuns a garotos de sua faixa etária. A descoberta do sexo nunca havia sido expressa de maneira tão sutil, poética e ao mesmo tempo sensual e perturbadora no cinema. Essa dicotomia entre o sagrado e o profano nos é colocada logo no começo do filme, quando a mãe (Jessica Chastain) de Jack (Sean Penn) diz que devemos escolher entre duas maneiras de viver a vida: a da graça ou a da natureza.

Vivemos hoje no reino do pensamento binário. Ou somos criacionistas ou evolucionistas. Nós nos apegamos a essa separação radical entre duas maneiras de viver. A natureza já foi, outrora, fonte de muita graça e mística. Os povos antigos não viam, por exemplo, o Sol como simplesmente uma estrela de um sistema cósmico, mas tinham nele a representação de um Deus. Foi o homem moderno, com sua ciência, que conseguiu desmistificar e fazer perder o significado sagrado da natureza. São emblemáticas as cenas de Seann Penn no prédio high-tech do Citicorp, em Nova York. A mensagem que fica é que uma vida sem tormentas, seja em que época for, depende da nossa capacidade de viver enxergando graça e magia, nas situações mais comuns da natureza e do ser humano.

Dentro do infindável espectro de emoções, sentimentos e relações que atravessaram milênios na Terra, a dor rege o nosso próprio mundo. O dinossauro prende sua presa indefesa, e a solta por complacência.

Para conviver com a idéia da finitude o homem precisa acreditar na complexidade de tudo que o rodeia no universo, ampliando sua capacidade de entendimento. Em sua parte central, o filme divaga por esplêndidas imagens de natureza, como uma erupção do Etna, as geleiras da Antártida, os oceanos e diversos animais, imagens de nebulosas captadas pelo telescópio Hubble – que alguns descreveram ironicamente como “momento National Geographic”.

Se há um perigo com respeito a Árvore da Vida é ser interpretado como filme religioso. É muito mais filosofia embora tenha fundo espiritual, ou seja, anseia explorar além da matéria.

Malick abre a sua caixa de ferramentas mais primárias da indústria cinematográfica – talvez o seu grande pecado. Abusa da montagem, fotografia, trilha sonora e direção de arte. Salva o bom-gosto. Há momentos de beleza singular, quando o diretor utiliza a música de Smetana que descreve a vida como o rio que nasce nas montanhas, cascateia pelos vales até morrer no mar. Brahms (Sinfonia n. 4), Bach (Tocata e Fuga e Cravo Bem Temperado) são outros dos muitos compositores que enriquecem o filme. Robert Schumann aparece com a página em que o autor põe música num verso do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Estrelas, lua, sol, flor,/Dois olhos lindos e canções de amor,/Por mais que nos comovam lá no fundo,/Não mudam uma vírgula no mundo”. Bem a propósito.

Deus e o pai autoritário (Brad Pitt) plantaram a árvore da vida no centro do Éden, onde se enlaçou a serpente. Ali o homem começou a questionar as suas ordens. Jó quis saber o porquê de estar passando por tantas desgraças. Afinal, ele era um homem justo! Pobre Jó, as fatalidades da vida independem de nossa integridade. “O diabo é dissimulado, Deus age às brutas”, dizia o jagunço Riobaldo. A recompensa virá em dobro aos que não perderem a fé. Para os que não creem, fica a lição: a prática da felicidade é uma constante batalha interior, carregada de escolhas, perdas, dores, mudanças, fantasias, desejos, medos e sonhos baseados na realidade de cada um.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista.

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Quo vadis, domine?

17/01/2012 por

Por Zarcillo Barbosa (*)

A criança pergunta à mãe se Deus é um coelho. O questionamento tem sua lógica diante da mistura que se faz hoje do divino com a necessidade de vender e realizar lucros. Sou do tempo em que mercado era a quitanda da esquina. Hoje é um intrincado jogo interpretativo das influências marcadas por fatos globais. A guerra no Líbano tem a ver com a queda do dólar que faz cair o preço do bacalhau. O ovo de Páscoa, feito de chocolate já obedece a outros parâmetros, inflacionado pelo preço do cacau no mercado internacional, o custo da embalagem e os altos impostos. Antigamente inflação era chamada de “carestia”. O mundo mudou e até hoje ninguém explicou às crianças que coelho não bota ovo. O animal é exemplo da fertilidade e o ovo simboliza o início de uma nova vida, talvez marcada pela Ressurreição de Cristo. Mas, é preciso que alguém explique.

Quando eu criança, a Quaresma era marcada pelas novenas da minha mãe e a abstenção da carne. As imagens das igrejas eram cobertas por panos roxos. A procissão do Nosso Senhor morto vinha marcada por respeitosa reverência, como se tivesse morrido um parente. Dias antes a gente recortava a cartolina que iria servir de anteparo para proteger a chama da vela contra o vento do outono. O cortejo noturno era iluminado pelos milhares de lumes e tinha cheiro de incenso.

A bandinha cerrava a fila com marchas fúnebres até que a procissão de uma igreja se encontrasse com a de outra igreja, engrossando a caudal de fiéis. Na Sexta-Feira Santa os homens não faziam nem a barba e as emissoras de rádio tocavam músicas clássicas e temas orquestrados. Minha sobrinha casou-se anteontem em cerimônia espírita, com todas as bênçãos e circunstâncias. E que Deus permita que o casal seja feliz. Quem organizou o jantar cuidou de oferecer massas e frutos do mar para seguir as regras da abstenção à carne de animais de “sangue quente”.

O livro de não-ficção mais importante do século 20 – A ética protestante e o espírito do capitalismo -, de Max Weber (1864-1920), mostra bem, desde 1904 quando foi publicado, o progressivo abandono do misticismo, ou seja, a experiência em que a divindade se mistura ao corpo do indivíduo. Desde o século passado iniciou-se uma prática ascética que leva à separação definitiva entre o homem e Deus.

Antes do início dos tempos Deus decidiu os que estão fadados à salvação e os que estão condenados à danação, não restando ao homem nenhuma alternativa de reversão “mágica” de sua sentença. Os puritanos calvinistas, diz Max Weber, decidiram que “Deus não se comunica com os homens”. A grande questão religiosa para os puritanos passa a ser, então, a de saber quais os sinais perceptíveis pelos quais se pode intuir se uma alma está predestinada à salvação ou à perdição.

Os protestantes solucionaram duplamente essa inquietação, ao longo do tempo: em primeiro lugar considerou que a perda da autoconfiança é sinal de falta de fé (característica dos condenados). Em segundo lugar, para alcançar a autoconfiança o calvinismo recomendava uma dedicação intensa e metódica a uma atividade profissional. Em tal sistema de crenças, o lucro foi entendido como frutificação do trabalho, sinal de predestinação à salvação, desde que não utilizado com usura, para satisfação de prazeres da carne, o que, na prática, resultou num estímulo para reaplicação do excedente de produção.

Tudo o que o trabalho – considerado fim em si mesmo, “vocacional” – gera é sinal de aprovação divina, que deve ser aplicado ao ciclo de produção para gerar mais trabalho, mais lucro, mais sinais de graça. Segundo o sociólogo, o mundo que os protestantes ajudaram a criar tornou-se dominante. Os Estados Unidos são potência em cima de uma prática calcada na moral calvinista.

Quando Nero começou o martírio dos cristãos em Roma, Pedro resolve abandonar a cidade. Na Via Apia encontra-se com Jesus e pergunta: “Onde vais, Senhor?”(Quo vadis, Domine?). E Ele respondeu: “Vou a Roma para ser crucificado novamente”. Pedro deu meia- volta e cumpriu o seu destino de edificar a Igreja e morrer crucificado, de cabeça para baixo para não ter a honra de um sacrifício igual ao do Mestre. A fé e a preocupação com o outro não fazem parte do “espírito do capitalismo”.

(*) O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista

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Funcionários do antigo Diário de Bauru preparam confraternização

04/06/2011 por

Funcionários do antigo Diário de Bauru preparam confraternização

Foto em destaque do jornalista Zarcillo Barbosa.

Um grupo de ex funcionários do Diário de Bauru, sem dúvida o mais ousado e autêntico dos jornais de toda a história do jornalismo bauruense,  prepara uma reunião de confraternização para falar daqueles tempos ao mesmo tempo difíceis, porém românticos e históricos.

A iniciativa se deu a partir de um trabalho que alunos de jornalismo da UNESP estão desenvolvendo, para contar como o jornalismo atuou e atua em Bauru e qual a importância do Diário de Bauru no contexto.

O encontro já tem local e só falta definição de data. O cardápio será simples, bem ao modo de como se comemorava as conquistas no campo jornalístico naqueles anos de ferro e de chumbo.

Saiba mais pelo www.baurunapolitica.com

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